Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Augusto Boal, patrimônio do mundo



Sérgio Maggio


Um misto de vergonha e indignação. Foi assim, impotentes, que muitos brasileiros reagiram, nas redes sociais, à notícia de que o acervo do teatrólogo Augusto Boal estava destinado aos Estados Unidos por possível falta de apoio em terras brasileiras. Um dos maiores nomes das artes cênicas do Brasil e do mundo teria parte do material catalogado ao longo da vida nos palcos tutelado à New York University (NYU), instituição onde ele teve parceria afetiva e profissional, lecionando ao longo de quatro décadas. O sentimento de dor estava associado ao fato de que, nas reportagens, a viúva e guardiã da obra, a psicanalista Cecília Boal, teria revelado as negativas do governo brasileiro em recuperar e preservar documentos, vídeos e registros de interesse mundial.

— Nunca disse isso. Não acho de maneira alguma que o governo deva ser responsabilizado por essas situações. Apenas contei para uma pessoa amiga que a Universidade de Nova York tinha entrado em contato comigo e isso se transformou em notícia de jornal, coisa que me surpreendeu. Claro que concordei depois em ser entrevistada. Mas devo esclarecer que eu pessoalmente nunca procurei ninguém, nem ministro nem presidenta. Nem tenho como afirmar que recebi uma recusa. Boal sempre gostou do PT, sempre o apoiou e devo dizer que eu também sinto muita simpatia por esse governo. Talvez não tenha havido falta de apoio, senão de comunicação. Pretendo sim procurar agora, tendo constatado o grande interesse que existe pela obra do meu marido, coisa que muito me alegra, anuncia.
Encontro com Dilma
Diante da repercussão carinhosa e solidária da notícia da ida de parte do acervo para os Estados Unidos, Cecília Boal se enche de entusiasmo para procurar as autoridades máximas que podem inferir nesse assunto — a presidenta Dilma Rouseeff, a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, e o ministro da Educação, Fernando Haddad. Gostaria de tirar um tempo da agenda apertada de psicanalista para vir a Brasília expor a situação do acervo de Boal, que está guardado em condições adversas num quartinho alugado em Botafogo.— A minha rotina? Não tenho! Trabalho muitíssimo no meu consultório e me ocupo do acervo em todos os momentos livres que tenho, ajudada pelo meu filho e outras pessoas da nossa família. Cuidei do meu marido durante 43 anos, é muito tempo! Vou continuar cuidando agora, conta Cecília, num apertado intervalo do trabalho.Cecília quer conversar sobre as possibilidades de parcerias institucionais que podem ser feitas entre a Universidade de Nova York e as instituições brasileiras para que esse acervo alcance a maior visibilidade possível, já que Augusto Boal é celebrado no mundo.
Augusto Boal deu aulas na Universidade de Nova York (Paulo de Araújo/CB/D.A Press)
Augusto Boal deu aulas na Universidade de Nova York














— Não quero ocupar a presidenta com esse assunto do acervo ficar ou não no Brasil. Mas adoraria apontar essas parcerias institucionais. Boal deu aula em todo o mundo, fez isso a vida inteira. Seria muito bom ir a Brasília e propor essa rede de instituições.
Em 18 de outubro, ela pretende vir à cidade para participar do projeto Mitos do Teatro Brasileiro em homenagem a Augusto Boal, no Centro Cultural Banco do Brasil, com as participações de Aderbal Freire-Filho e Amir Haddad. A missão de Cecília Boal neste momento é grandiosa: difundir outros aspectos da obra de Augusto Boal, já que considera o Teatro do Oprimido bastante conhecido e praticado no Brasil e no mundo. Hoje, está presente em mais de 70 países. Assim, a criação do Instituto Augusto Boal visa consagrar outros aspectos da construção artística do homem, eleito embaixador mundial da Unesco e indicado ao Nobel da Paz.
— Alem de cuidar do acervo, queremos resgatar o trabalho do Teatro de Arena, favorecer montagens de peças, algumas inéditas, e também a publicação de textos igualmente inéditos. É do nosso interesse chamar a atenção para as qualidades de Boal como escritor, por exemplo. Ele era fantástico, cheio de humor e criatividade.
Revolucionário dos palcos
Augusto Boal vinha com frequência a Brasília. Não só para expor o método do Teatro do Oprimido como para mostrar ao Congresso Nacional a eficácia da mistura entre ação social e teatro em realidades ditas caóticas, a exemplo do sistema prisional. O trabalho com os presos é uma das revoluções que o CTO (Centro do Teatro do Oprimido) realizava à época em que ele esteve aqui para uma audiência pública no Senado Federal.
Cecília está feliz com o carinho dos brasileiros à memória de Boal (Institutoaugustoboal.wordpress.com)
Cecília está feliz com o carinho dos brasileiros à memória de Boal

O Teatro do Oprimido é a face mundial de Augusto Boal. Não tenha dúvida de que o diretor é mais conhecido mundo afora do que muitos políticos, que decidem o destino da verba pública no país. O método, que emancipa o cidadão por meio do teatro, faz com que as pessoas reflitam sobre suas realidades, apontando soluções sobre os problemas. Evolui e chega ao Teatro Legislativo, quando a experiência cênica proposta vira projeto de lei. Boal fez isso magistralmente quando foi vereador do Rio. A lei de proteção à testemunha nasce dessa experiência.Até desenvolver o Teatro do Oprimido, método e jogos, Boal ajudou a modernizar o teatro brasileiro. Ele estava ao lado de José Renato Pécora na fundação do histórico Teatro de Arena, que mudou a forma de fazer teatro ao propor interpretações naturalistas para textos nacionais que refletiam a condição social do Brasil. Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri e direção de Zé Renato, encenado em 1957, consolida o caminho do grupo interrompido pela ditadura militar.Boal se exilou para não ser trucidado pelo regime, que instaurou a censura brutal com o AI-5. No mundo, internacionalizou-se e hoje é um homem de teatro citado em qualquer universidade de artes cênicas que respeite a história da evolução teatral. Morreu em 2009 em consequência de leucemia, deixando um legado imaterial incalculável. O acervo físico estará bem guardado para a eternidade se depender da prontidão e lealdade de Cecília Boal.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Acervo de Boal nos EUA


Por Luiz Lima


De O Globo

Boal deixa o Brasil: sem apoio do governo ou da iniciativa privada, viúva do dramaturgo leva o acervo para os EUA

A argentina Cecília Boal está decidida: até o fim do ano, parte do acervo de seu marido, o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta carioca Augusto Boal, que fundou o Teatro do Oprimido, foi eleito embaixador mundial da Unesco e morreu de leucemia em maio de 2009, migra para os Estados Unidos, sob a tutela da New York University (NYU). Segundo a psicanalista, que foi casada por 40 anos com o diretor que uniu teatro e ação social, trata-se da única saída possível ante a deterioração do material.

- Não recrimino, nem me queixo do Brasil - diz Cecília, diante de uma pilha de pastas coloridas etiquetadas como "correspondências de Augusto".

- Mas este país é jovem e, apesar de estar progredindo, ainda não tem interesse em cultivar a memória de seus ícones. Em outros lugares do mundo, como nos Estados Unidos, o dinheiro destinado à cultura é bem maior, e fica tudo mais fácil.

Com a ajuda de amigos, Cecília descobriu recentemente que gastaria aproximadamente US$ 500 mil se quisesse limpar, catalogar e digitalizar no Rio os 20 mil textos, 300 horas de vídeo, 120 horas de áudio, 2 mil fotografias, 120 cromos e diversos desenhos (sim, Boal desenhava!) que o marido arquivou. Decidiu sair em busca de ajuda, mas não obteve sucesso em lugar algum. Visitou as secretarias municipal e estadual de Cultura do Rio e, apesar de bem recebida, ouviu queixas de que a verba pública é sempre diminuta, insuficiente para a obra de Boal.

- Até me disseram que poderiam me ceder uma casa, mas que o espaço precisava de obras e que isso correria por minha conta. Não dava - lembra a viúva.

Cecília recorreu, então, à iniciativa privada. Esteve no Instituto Moreira Salles e se deu conta de que o volume de documentos do marido, que compulsivamente guardou os originais de todas as suas peças, os programas, os cartazes, as traduções, os prêmios, os artigos de jornal e as teses escritas sobre ele, tornava tudo ainda mais complicado.

Foi aí que recebeu um telefonema da New York University e resolveu: em agosto, abrirá, para uma dupla de funcionários da universidade americana, as portas de seu apartamento, no Arpoador, e do quartinho refrigerado que aluga em Botafogo.

Os dois especialistas irão garimpar entre caixas, pastas e prateleiras todas as preciosidades criativas do ensaísta, que teve obras traduzidas para mais de 70 línguas, além de ter sido indicado ao Nobel da Paz em 2008.

- Os cassetes, as fitas em VHS, os DVDs e todas as outras coisas gravadas serão arquivados com a ajuda de uma tecnologia da NASA que capta os sinais das reproduções e os guarda por cerca de 500 anos - conta Cecília, afundada no sofá de sua sala.

- Já os cadernos, roteiros, fotos, objetos e cartas ficarão numa sala que poderá ser visitada gratuitamente por quem agendar hora. A universidade também me prometeu criar um portal trilíngue na internet só para abrigar o acervo do Augusto. Entrar na internet é a melhor forma de manter a obra dele viva.

A princípio, a parceria com a NYU pode parecer estranha, mas, durante quatro décadas, o dramaturgo carioca frequentou a escola, dando aulas extracurriculares e recebendo no Rio alunos interessados em aprofundar suas técnicas. Eram, ao menos, 25 todos os anos, lembra Cecília

- Então me pareceu lógico entregar esse acervo à NYU - defende a psicanalista. - Não tenho mais idade para esperar uma solução por aqui, e o material está visivelmente se deteriorando. É muita maresia e muita humidade no Rio de Janeiro.

Na coleção de Boal está a fita cassete original de "Meu caro amigo", que Chico Buarque e Francis Hime lhe enviaram quando ele estava exilado em Portugal. Estão também uma foto do dramaturgo com Maria Bethânia na época do show "Opinião" e cartas redigidas por Fernanda Montenegro e pelo escritor argentino Julio Cortázar, além de diversos textos ainda inéditos. Quando entra no escritório de sua casa, de onde se ouvem as ondas do mar, Cecília zanza, confusa, entre caixas e pastas. Não sabe mais ao certo onde cada coisa foi parar.

Desde a morte de Boal, o arquivo cruzou a cidade algumas vezes. Em 2009, seguindo a sugestão do professor de teatro Zeca Ligiéro, Cecília levou toda a produção do marido para a biblioteca da Universidade Federal do Estado do Rio (UniRio). Durante mais de 12 meses, esperou que a ala especial prometida para abrigar e expor o acervo saísse do papel. Mas, obedecendo à morosidade do serviço público, a construção não decolou, e Cecília achou melhor retomar o arquivo para si.

No ano passado, por alguns meses, toda a produção intelectual de Boal ficou hospedada na Fundação Darcy Ribeiro, mas, no início deste ano, Cecília decidiu que o melhor seria desembolsar R$ 1.200 por mês e alugar um quartinho em Botafogo para que ela própria cuidasse do acervo. Pôs um ar-refrigerado, e metade das caixas não coube - indo parar em sua casa. A convivência com a desordem foi o empurrão que faltava para que Cecília entabulasse negociações definitivas com os americanos.

- A universidade lamenta que as obras de Boal terminem fora do país - diz Márcia Valéria Costa, diretora da biblioteca central da UniRio. - Não tivemos como atender a família na velocidade que ela queria, mas a ampliação de nossas instalações está prevista para acabar em 2012. Ainda temos interesse em manter o trabalho de Boal no Rio.

Cecília, no entanto, parece ter perdido a fé no serviço público brasileiro. Classifica como "irrecusável" a oferta dos americanos. Em troca do envio do acervo para os Estados Unidos, Cecília quer que a NYU colabore financeiramente para que o Instituto Augusto Boal, que já tem CNPJ, ganhe vida.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O bem amado





Sérgio Maggio


Roque Santeiro abriu a semana de novidades no Canal Viva e faz de cara uma remissão ao centenário de Paulo Gracindo (nascido em 16 de julho), um dos maiores atores do rádio, teatro, cinema e televisão. No papel do conservador Padre Hipólito, um dos mais marcantes da carreira de grandes personagens, ele é dono de grande cenas ao lado do elenco estelar da novela obra-prima de Dias Gomes. Do escritor, fez Santo inquérito (1966), no Teatro Jovem, com direção de Ziembinski e cenografia de Giani Ratto, atuando ao lado de Eva Wilma, Rubens Corrêa e Jaime Barcellos. Depois, imortalizaria, na tevê, o personagem Odorico Paraguaçu, em O bem amado, feito nos palcos por Procópio Ferreira.


“Meu lugar preferido é o palco”,
Paulo Gracindo

Festa para Mário Lago



Sérgio Maggio

O ator, dramaturgo, compositor de marchinhas, poeta, dono de tantos dons na arte, Mário Lago dizia que tinha feito um acordo com o tempo: “Nem ele me persegue, nem eu fujo dele...”. Viveram assim produtivamente. Um fazendo bem ao outro. Do passado, o senhor não tinha saudades. Colhia, sim, as lembranças. “Qualquer dia a gente se encontra e, dessa forma, vou vivendo intensamente cada momento...” Mário Lago entrou para posteridade em 2002. Viveu bem, 90 anos de lucidez. Em novembro, completaria um século. O centenário para glorificar uma trajetória marcante acaba de sair dos sonhos da família e de fãs. E acontecerá à altura do legado deixado pelo artista de tantas faces.
Nascido em 26 de novembro de 1911, Mário Lago será homenageado em projeto de muitas linguagens. A face musical do autor de marchinhas famosas, como Aurora (em parceria com Roberto Roberti) e Ai que saudades da Amélia e Atire a primeira pedra (ao lado Ataulfo Alves) ganha dois lançamentos: um disco de inéditas e poemas musicados e outro, de marchinhas. O primeiro terá um time de primeira de intérpretes (Caetano, Joyce, Frejat, Jards Macalé, Delcio Carvalho, Pedro Luís, Lenine); o outro, batizado de Folias de Lago, reunirá as canções de carnaval mais famosas e duas inéditas (Meu Rio, meu vício, com Braguinha, e Braço é braço, hino do Cordão do Bola Preta, que vai homenageá-lo no carnaval carioca de 2012.
O manancial de escritos de Mário Lago ganha cuidado especial pela editora José Olympio, que relançará: Na rolança do tempo, Bagaço de beira-estrada e 1º de abril. O livro de poemas O povo escreve a história nas paredes terá download gratuito no site comemorativo do projeto Mário Lago: Homem do século 20, a ser lançado em agosto.
A carreira de multiartista ganha ainda o registro em documentário de autoria de Marco Abujamra e Marco Oliveira, enquanto a Cia. Ensaio Aberto montará o texto inédito e censurado pela ditadura sobre a Revolução dos Alfaiates. Na programação extensa, que será disposta no site, haverá shows e exposições de acervo. Os Correios lançam um selo especial. Quem quiser matar a saudade do ator pode encontrá-lo na reprise de O clone.

"Quando deixarmos de ter esperança,
é melhor apagar o arco-íris",

Mário Lago

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ventos sopram

Rosangela Teixeira, atriz e iluminadora

Foi emocionante ontem a Noite no CCCBB a Mostra Mitos do teatro brasileiro sobre Plínio Marcos,acredito que trabalhos deste porte, devem serem levados para as universidades de artes, pois desperta o desejo para pesquisa,amplia o conhecimento sobre quem fez o teatro brasileiro .Obrigada Sérgio Maggio e J Abreu

Ventos sopram

"Fazer teatro na década de 50 era como fugir com o circo, um sonho, um grande desafio". Frase de Nelson Xavier no projeto Mitos do Teatro Brasileiro, edição Plínio Marcos, no CCBB. Obrigado, Nelson Xavier! Continuarei sempre fugindo com o circo! Axé!!! Parabéns, Sérgio Maggio, J. Abreu e equipe pelo excelente e importante projeto!

Ventos sopram

Quem ainda não fez do projeto MITOS DO TEATRO BRASILEIRO SUA AGENDA INEGOCIÁVEL? Não percam! O EVENTO em seu segundo ano, é uma aula de teatro e cidadania, que tive o prazer de fazer parte em 2010 como atriz e assistente de direção. A cada edição ele resgata o que jamais encontraremos nos livros de historia do teatro, a experiência lírica de mestres do teatro, um legado que desperta e renova o orgulho do nosso oficio e deste oficio no BRASIL!

Mitos do Teatro Brasileiro - Plínio Marcos


Nelson Xavier, Sérgio Maggio, Emiliano Queiroz e J. Abreu

Censores na leitura de Abajur Lilás

Emiliano Queiroz, o primeiro Veludo

J. Abreu concentrado

O segredo revelado

O vendedor de livros e o palhaço Frajola


Sérgio Maggio, Yara de Cunto e Luciana Martuchelli

B. de Paiva e Emiliano Queiroz

J. Abreu e João Paulo Oliveira revivem Navalha na Carne

Nelson Xavier, o primeiro Paco, o primeiro Vado

Veludo e o misterioso homem que procura Plínio Marcos

Mitos do Teatro Brasileiro - Maria Clara Machado




Cacá Mourthé lembra de Clara
J. Abreu
Pluft e Maribel a falar de Maria Clara Machado
Perna de Pau quer estragar a homenagem a Maria Clara Machado
Em clima de ensaio

O apaixonante Tio Gerúndio
A transformação em Pluft e Maribel
Pluft enxerga Maribel

Wilson Granja e Vanessa Di Farias no palco do CCBB
Zezé Motta foi aluna de Maria Clara Machado
J. Abreu vive o Perna de Pau

Axé, Plínio Marcos!

Mariana Moreira

Publicação: 19/07/2011 09:08 Atualização: 19/07/2011 10:24

João Paulo Oliveira e J. Abreu vivem alter-egos de Plínio, enquanto Nelson Xavier refaz a experiência com o autor (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press)
João Paulo Oliveira e J. Abreu vivem alter-egos de Plínio, enquanto Nelson Xavier refaz a experiência com o autor

Nesta teça-feira, às 20h, no centro do palco do Centro Cultural Banco do Brasil, para tecer as memórias teatrais sobre Plínio Marcos, Emiliano Queiroz estará ao lado de Nelson Xavier, que tem forte influência do dramaturgo na trajetória. "Conheci o Plínio nos anos 1950, numa excursão que o Teatro de Arena fez a Santos. Ele era um dos espectadores. Varamos a madrugada conversando e ele me encantou de saída, porque era do circo, que representava a aventura, o mistério, a magia", recorda Nelson Xavier, acrescentando que, nesta época, ele já possuía uma de suas características mais marcantes: o vocabulário recheado de palavrões. "Ele tinha uma fala peculiaríssima, uma linguagem marginal, era um rebelde por escolha", afirma Xavier. O segundo encontro do projeto Mitos do Teatro Brasileiro tem entrada franca e não é recomendado para menores de 12 anos.

Além dos depoimentos, a noite contará com a exibição de vídeos, trechos de entrevistas do autor %u201Cmaldito%u201D e mais três cenas inéditas, criadas pelo dramaturgo e idealizador do projeto, Sérgio Maggio. As primeiras retratam um dos lados mais emblemáticos e difíceis da carreira do autor de Navalha na carne: o cerco do governo militar e da censura às suas obras. Embora não tivesse uma abordagem política do país, sua decisão de dar voz à miséria humana, falando de marginalidade, violência e sexo, incomodava os militares.

Na primeira cena, os atores João Paulo Oliveira e J. Abreu encenarão o momento em que Veludo e Neusa Sueli, personagens de Navalha na carne, recebem a visita de um homem misterioso. Em seguida, eles dão vida a dois censores que fazem a leitura da peça Abajur lilás para uma plateia de pessoas ligadas ideologicamente à ditadura. Na reta final, a dupla interpreta dois alter egos de Plínio Marcos: o palhaço e o vendedor de livros.
Escalado para a homenagem, o ator João Paulo Oliveira, que intercala o teatro e o cinema com a carreira de publicitário, volta à cena depois de quase quatro anos sem subir no tablado. "Plínio Marcos criou uma vertente própria e moderna. Trouxe para o teatro uma linguagem mais crua, que já existia no cinema e na literatura, por exemplo", avalia. Co-diretor e ator de todos os tributos, J. Abreu terá o privilégio de encarnar o universo de Plínio pela primeira vez. Há duas décadas, quase integrou o elenco de Abajur lilás. "O que mais me deixa instigado é a perseverança dele. Estudou até a terceira série e conseguiu ser um dos maiores dramaturgos do Brasil", diz o ator.

Menino de Santos (SP), Plínio Marcos queria ser jogador de futebol. Não deu. Depois da frustração de não virar craque da bola, entrou para a Aeronáutica, trabalhou como funileiro, vendedor de livros, palhaço e zelador de teatro. Mas foi com a caneta na mão que ajudou a revolucionar o universo cênico, transformando-se no dramaturgo mais polêmico e censurado de todos os tempos no país. Pela primeira vez, o submundo marginal, de homens maltrapilhos, na contramão da história, ganhava lugar de destaque no palco.

Emiliano Queiroz e Plínio Marcos

Felipe Moraes
O ator Emiliano Queiroz homenageia Plínio Marcos (Breno Fortes/CB/D.A Press)
O ator Emiliano Queiroz homenageia Plínio Marcos

Todos eles, de certa maneira, melhoraram muito a mim como pessoa”, pensa o ator cearense Emiliano Queiroz, que veio ao mundo no primeiro dia do ano de 1938. Em Brasília para participar de Mitos do Teatro Brasileiro — Plínio Marcos, hoje, às 20h, no CCBB, ao lado de Nelson Xavier, Queiroz olha para o passado como quem olha para o futuro: sem arroubos de melancolia, sem murmurações angustiadas, mas com a sensação de quem já fez muito e sente que pode fazer mais.

Precoce, ele é intérprete desde os 14 anos e fez parte da primeira turma do curso de artes dramáticas da Universidade Federal do Ceará. Com experiência no rádio e na tevê, conheceu o teatro revolucionário de Plínio Marcos. E se impressionou com o texto provocador do dramaturgo.

“Ele trabalhava dentro de uma marginalidade dos verdadeiros deserdados da sociedade. Aquela gente considerada desprezível pela sociedade nunca tinha sido abordada”, define Queiroz. Quando imergiu no papel do gay Veludo, de Navalha na carne (1967), o cearense percebeu a força daquela ficção. Ambientada num bordel, a montagem, dirigida por Fauzi Arap, exibia três tipos tratados como “imorais”: a prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e, por fim, Veludo.

Plínio Marcos: do circo para os palcos do teatro (Ary Brandi/Divulgação)
Plínio Marcos: do circo para os palcos do teatro

A censura emperrou a estreia, depois liberada pelo esforço da atriz Tônia Carrero, integrante do espetáculo. A classificação indicativa: 21 anos, três acima da maioridade penal. Um absurdo que não evitou que a peça rodasse o país e, um par de anos mais tarde, chegasse aos cinemas, com direção de Braz Chediak.

Também incluído no elenco de Dois perdidos numa noite suja, outra obra essencial de Plínio que também conquistou a tela grande, Queiroz orgulha-se de ter participado de um dos momentos mais brilhantes (e combativos) da dramaturgia brasileira, em que “o público jovem ia ao teatro em marcha”. “O texto me permitiu dar uma guinada no meu trabalho. Já tinha feito muita tevê, muito teatro.

Era comum na época se fazer o homossexual em cima da caricatura, do ‘ai, ai, ai’, batendo o pezinho. Fui feliz porque pude colocar os meus sentimentos no personagem. O que estava no meu trabalho e no da Tônia e do Nelson era a alma das pessoas. O texto do Plínio não permitia nenhuma estética imaginada, exigia sinceridade total”, conta.

Tonho, de Dois perdidos, e Veludo precederam um período amargo da produção nacional. Segundo o próprio Queiroz, a estreita liberdade de expressão foi sufocante. Depois de Dr. Getúlio: sua vida e sua obra (1969), de Dias Gomes e Ferreira Gullar, ele considera que só voltou a fazer algo tão contundente em 1978, com A Ópera do Malandro, de Chico Buarque.

No ano seguinte, o ator pôde dirigir o único musical escrito por Plínio, Feira livre. Produzida por Maria Letícia, então esposa de Queiroz, a montagem “era completamente diferente do processo de dramaturgia dele”. “Minha entrada na obra de Plínio Marcos foi um divisor de águas para minha carreira. Gosto de falar sobre como senti na pele a ressonância dos textos dele, como a plateia me devolvia o que eu jogava para ela. Enquanto tiver a lucidez de ter feito esses trabalhos e a minha memória estiver ativa, vou ter profunda admiração e me sentir privilegiado de fazer a obra dele no teatro e no cinema”, constata.

A face da telinha

Queiroz também sempre esteve ligado à tevê. Pioneiro na inauguração da TV Ceará, em 1960, ele passou pela Tupi, Cultura e Paulista, até se firmar como um dos nomes mais relevantes da teledramaturgia na Globo, desde 1965. Em O bem-amado (1973), de Dias Gomes, a primeira novela em cores do país, ele mergulhou na sua persona mais conhecida: Dirceu Borboleta. “Era secretário do prefeito, tinha problemas com a virgindade, era um filhinho da mamãe. Tinha a peça que serviu de escada para a novela. Então, sabia começo, meio e fim, o que é raro”, lembra.

As possibilidades da paleta de cores acrescentaram vivacidade ao personagem. Foi possível, diz Queiroz, dominar a interpretação por meio da cor: percebeu que podia ficar vermelho quando se mostrava nervoso, e aparentar mais timidez à medida que a escrita de Gomes avançava e deixava Dirceu cada vez mais reprimido. “Era tão impactante que você podia tirar partido daquilo dramaticamente”, aponta.

Queiroz e seus quase 200 personagens — e ele tenta enumerar, mas não consegue — revelam um criador que recusa o estrelato. “Quando comecei, meu sonho era sobreviver dessa profissão. E até hoje sobrevivo. Tudo que fiz foi com muita satisfação. Estou com 75 anos. E acho que há 61 teimando nesse ofício”, diverte-se. Na vida longe dos palcos e das câmeras, ele assume um papel inédito: o de bisavô do pequeno Sami, filho de Hugo, seu neto.

MITOS DO TEATRO BRASILEIRO — PLÍNIO MARCOS
Direção de Sérgio Maggio e J. Abreu. Com Emiliano Queiroz, Nelson Xavier, João Paulo Oliveira e J. Abreu. Hoje, às 20h, no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB – SCES Trecho 2, Lote 22). Entrada franca, mediante retirada de senha uma hora antes do evento. Não recomendado para menores de 12 anos. Informações: 3108-7600.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Site oficial de Plínio Marcos

A memória de Plínio Marcos está preservado no site http://www.pliniomarcos.com. Excelente fonte de pesquisa, o portal traz de dados bibliográficos aos manuscritos das peças de Plínio Marcos

Plínio Marcos, homem de fé

Plínio / 97 RELIGIOSIDADE E TARÔ


[Em 1985, escreveu no programa da peça Madame Blavatsky, a respeito de seu interesse por temas místicos:] “Sou um homem à procura da religiosidade. Dispensa-me dos rótulos, por favor, e eu te explico que a religiosidade nada tem a ver com seitas, igrejas, grupelhos carolas, fanáticos acorrentados a dogmas e superstições. A religiosidade nada tem de alienação, conformismo ou adaptação a um sistema político-social-econômico injusto. Aliás, a religiosidade é altamente subversiva. A religiosidade leva o homem ao autoconhecimento. E o autoconhecimento leva o homem à subversão.” “Eu mudei no sentido de que sempre acreditei que o homem desperto tem o dever de ser mutante. Como espero continuar sempre mudando. Mas, os valores que dignificam o homem e que eu preservava, esses permanecem. Continuo, com a graça de Deus, com a coragem de dizer o que penso, sem fazer nenhum esforço para agradar aos poderosos, aos grupos políticos ou religiosos.” “Tento chocar. Com muito vigor. Não faço isso por política. Faço isso por religiosidade.


Mesmo considerando que toda atitude do homem é política. A política é sempre a luta pelo poder. Todo o esforço dos políticos é no sentido do poder. Já o homem com religiosidade, o homem que tem o autoconhecimento, não deseja o poder, nem se submete ao poder. Portanto, rasga a regra, rompe a estrutura, arrebenta elos da cadeia. Subverte.”
[A rigor, portanto, não se pode falar de sua conversão espiritual, pois suas peças sempre foram carregadas de religiosidade.] “Dom Hélder Câmara, depois do espetáculo a que assistiu no Recife, fez questão de declarar para a imprensa que a peça [Dois Perdidos Numa Noite Suja], devido à sua religiosidade, valia por vários sermões e até missas. E o padre Êdnio Vale, declarou numa entrevista: ... peça de tema profundamente religioso, mesmo que não tenha sido essa a intenção do autor.” “A verdade é que a maioria das pessoas se ligava em outros valores para gostar ou não das peças. Então, eu tentei fazer um teatro com a religiosidade exposta com maior clareza. Escrevi Dia Virá, uma peça sobre o Senhor Jesus Cristo, com as meninas do colégio Des Oiseaux, um colégio de freiras.” “ Escrevi Balbina de Iansã, sobre o candomblé.” “Depois, fiz também Jesus-Homem [segunda versão de Dia Virá], com debates todas as noites depois do espetáculo, com pessoas de todas as crenças.” “E agora vamos com a Blavatsky.”
[Em 1970, quando escreveu Balbina de Iansã, esteve envolvido com candomblé e umbanda. Mesmo antes, já se interessava por esses temas, tendo escrito uma peça sobre a vida dos orixás para o TV de Vanguarda, da TV Tupi.]
[A partir do final da década de 70, passa a se interessar efetivamente por esoterismo, lendo livros sobre magnetismo, cura através dos metais, das cores, do-in – e Tarô. Estudou os pontos de energia da Medicina Chinesa e, como possuía forte poder mental, passou a usá-lo para energizar as pessoas, para fazer massagens, aliviar dores. Com o tempo, acabou criando um método próprio de leitura de Tarô, que aliava ao seu poder de magnetização.]
“O Tarô eu aprendi naquele tempo de circo, e fui trabalhando com ele, trabalhando, trabalhando, até que de uns anos pra cá [1997], passei a ser profissional, a viver disso. E comecei a arrumar clientes, essa coisa toda, a brincar, porque o meu negócio sempre foi brincar.” “O Tarô é uma arte subversiva.” “O que o Tarô faz mesmo é ajudar no autoconhecimento.” “Com magnetismo a gente até cura. Tem um lado espiritual e outras coisas, cura mesmo. Eu atendi muitos casos de câncer. É que não vai curar mais porque está num estado terminal, mas eu tirava a dor mesmo.” “Mas isso não é um poder. É bioenergética. É uma ciência que você estuda, aprende e faz. Isso é o que estamos fazendo. Agora, o cara entende como quiser, se ele pensa que a gente é mestre, médium...”
[No começo da década de 90, criou um curso: O Uso Mágico da Palavra. E dava oficinas em vários lugares, continuando com sua tradição de mambembeiro e camelô, porque nunca deixou de vender seus livros.]
“Tem gente que me criticou por entrar nessa linha mística. Mas, catzo, eu não dou espaço para as pessoas me fazerem cobrança, porra. Eu em nenhum momento estive à venda, e sempre defendi o direito de ser livre, e sempre fui.”

O Show de Plínio Marcos

[A partir da década de 80, intensifica uma atividade que já vinha exercendo: fazer debates e palestras em faculdades e universidades, teatros, clubes e, até, em praça pública, não só na cidade de São Paulo, mas em inúmeras cidades do interior do mesmo Estado e do Brasil todo.]
“No ano passado fiz 150 cidades. Este ano [julho/1980], já fiz 58. Acho que é muito mais importante você transmitir pessoalmente a sua experiência para o povo do que passar tudo somente através da arte. Eu sou povo, e com ele me sinto em casa.”
“Eu era proibido em todos os ofícios que tinha – cronista esportivo, cronista de carnaval, trabalhar na televisão. Mas, batalhei e voltei às minhas origens. Camelô, vender meus livros na rua para sobreviver.” “Quando tem palestra, aí é melhor, porque camelô que fala vende mais.” “Sou um camelô da literatura. Hoje [1986] posso dizer que é muito difícil ainda. É difícil ter espaço nos jornais, encontrar lugar para vender livro. Cheguei a ser expulso de vários lugares. É uma brutalidade única.” “Eu nunca fui um escritor profissional, morreria de fome se fosse viver dos meus livros.

Show/Palestra

Teria que acabar fazendo milhares de concessões. Mas, camelô, ah!, isso eu sou bom. Vendo meus livros, dou autógrafos e prometo morrer logo para valorizar. Eu sou um escritor imortal, não da Academia Brasileira de Letras, mas porque não tenho onde cair morto.”
[Nos debates com estudantes], “eles esperam, como todo mundo espera, que apareça um guru, um pai, um líder. Não que seja como eu, um cego, mas que aponte caminho. Eles ficam muito putos da vida quando eu vou, porque eles vão esperando que eu cague regras e eu não, só destruo as ilusões. Agora, eu faço questão de dizer para eles que, quando eu passo por ali, eles não vão saber se é para gostar ou não de mim. Uma coisa eles têm de saber. Eu estou correndo risco por causa da palavra.”
[Em 1984, estréia um espetáculo-solo no Teatro Eugênio Kusnet (ex-Arena): O Palhaço Repete seu Discurso, com o qual também se apresentaria em inúmeras cidades.] “Neste show-palestra (ou palestra-show), o Palhaço é um instigador, que com seu humor grosso e maldito das quebradas do mundaréu vai desfilando casos que comprovam a absurda rotina que os homens sérios, empolados de responsáveis, estão levando, sem nenhuma participação na própria história, sem nenhuma influência no próprio destino. O Palhaço, marginalizado por não aceitar as regras do jogo dos homens enquadrados, não se afasta da sociedade. Permanece nas proximidades dos cidadãos contribuintes, destruindo seus valores, ridicularizando-os com seu humor grosso, chocando-os com sua linguagem livre, instigando-os para a tomada de consciência, na esperança de despertá-los para a vida. Ah, existe tanto amor nesse maldito Palhaço...”
[Por muitos anos continuou fazendo palestras-shows para estudantes, muitas vezes acompanhado de seu filho Léo Lama, como num espetáculo que fizeram, em 1993: 40 Anos de Luta.]

Plínio Marcos e O Bando



O Bando O BANDO


“Nos meados de outubro de 1979, um grupo de atores se juntou para, clandestinamente, montar Barrela, que completava 20 anos de proibição pela censura. A peça estreou em dezembro, no porão do TBC [Teatro Brasileiro de Comédias, SP], gentilmente cedido por Antônio Abujamra, diretor do TBC na época. Os ingressos eram vendidos pelo próprio elenco que, nas ruas, os ofereciam para as pessoas. Todas as sessões, que eram realizadas às sextas-feiras, à meia-noite, lotaram. Um êxito.”


·Em 1980, as peças Barrela e O Abajur Lilás foram liberadas pela Censura Federal. E O BANDO [nome dado ao grupo de artistas que se juntou em torno de Barrela] prosseguiu na luta. Barrela faz um retumbante sucesso de crítica e de público.· ·Vinte e um anos depois de ter sido escrita, essa peça-reportagem lamentavalmente ainda vale. Retratava a realidade dos presídios há vinte e um anos, e ainda tem validade. Uma pena. Pena, porque os méritos não cabem à peça. É tudo culpa do país, que não evoluiu socialmente. E, se continuarmos desse jeito, essa peça vira um clássico.·
[O BANDO transfere-se para o Teatro Taib, SP, e monta, em seguida,
Dois Perdidos Numa Noite Suja, Oração para um Pé-de-Chinelo e Jesus-Homem.] “E todas as manhãs, os atores e os compositores do espetáculo saem às ruas distribuindo papeizinhos (filipetas) para o espetáculo da noite. Nessa batalha, houve muitos pererecos, pois logo a rapaziada percebeu que, em São Paulo, distribuidor de bônus teatral é mais perseguido do que vendedor de maconha em porta de colégio.”
“É preciso tirar o homem comum da casa dele. É preciso inquietá-lo. O BANDO acha isso. E acredita que é necessário montar peças que retratem a realidade brasileira com toda crueza. Mas, será que o homem comum vai sair de casa para ver e escutar coisas duras? Então, antes da peça, arma-se um show de música popular brasileira, com compositores excelentes. O homem comum não lê jornais, não fica sabendo dos espetáculos. Então, suprime-se o anúncio dos jornais e se vai para a rua distribuir bônus de mão em mão. Mas, o homem comum não pode pagar o preço do ingresso. Então se aluga um teatro grande e se cobra ingresso bem barato. Mas, o homem comum precisa reaprender a converrsar. Nós também. Toda a nação brasileira precisa reaprender a conversar, depois de dezesseis anos de obscurantismo. Vamos tentar reaprender. Trocar idéias, sem querer impor posições. Faremos debates ao final de cada espetáculo. Tudo pronto. Belo espetáculo esse de O BANDO. Bônus nas ruas. Casa cheia. Debates concorridos. E aí baixa a repressão. Bônus, papeletas, panfleto não pode. Suja a cidade. Popularizar o teatro não pode? Tem que poder.”
[O Secretário de Cultura do Município de São Paulo autoriza a distribuição, mas O BANDO continuou tendo dificuldades com a polícia nas ruas. Apesar disso, a experiência foi um sucesso, pois somente
Barrela foi assistida por mais de 60.000 pessoas. Mesmo adotando o princípio de dispensar qualquer verba governamental e trabalhando com a redução do preço do ingresso, O BANDO se manteve por mais de um ano, graças a esse trabalho de divulgação dos espetáculos nas ruas e ao sistema de cooperativa integralmente adotado pelos artistas, o que valeu a Plínio Marcos o Prêmio Mambembe de melhor produtor, pela eficiente forma de produção adotada.]

O ABAJUR LILÁS

“Uma noite, [1975] entrei no Gigeto e o Samuel Wainer me apresentou o Américo Marques da Costa, que viria a ser uma das pessoas mais lúcidas e mais amigas que conheci. Ele queria botar grana numa peça minha.”... “Meti a mão na sacola e tirei de lá O Abajur Lilás.”
[A peça O Abajur Lilás foi escrita em 1969, e no mesmo ano Paulo Goulart começou a produção do espetáculo, com ele mesmo dirigindo, e Nicete Bruno e Walderez de Barros no elenco. Após uma consulta informal à Censura, veio a resposta negativa. Os ensaios foram interrompidos. E, em 1970, o texto foi proibido por cinco anos para todo o território nacional. Em 1975, portanto, o texto estaria liberado.]

1º dia de ensaio

“Começaram os ensaios. Com o Antônio Abujamra no comando. Um dos maiores diretores de todos os tempos. Com Lima Duarte, Walderez de Barros, Cacilda Lanuza, Ariclê Perez. E o Túlio de Lemos de assistente de direção. Eu sabia, e o Américo também sabia, que tudo corria bem. E veio afinal o dia do ensaio para a censura. Eles nos obrigaram a fazer o espetáculo como ia ser na estréia para público. Cenário, figurino, iluminação. Desconfiávamos que era armação das piranhas da censura pra atingirem economicamente a produção. E era. Esse espetáculo pra censura eu assisti. Escondido, porque era proibida a presença de qualquer pessoa, mesmo o autor. E era belo. Belíssimo. Mas... proibiram. Só quem passou por isso pode dizer como é uma sensação de frustração. Precisa uma fibra imensa pra aguentar um troço desse.”
[No dizer de Ilka Maria Zanotto, “As circunstâncias fizeram de O Abajur Lilás mais do que uma simples peça, uma bandeira.” A classe teatral organizou várias manifestações de protesto contra a censura da peça, e grande parte das companhias teatrais não trabalhou, na quinta-feira, dia 15 de maio de 1975, data da proibição da peça. E durante as semanas seguintes, era lido um manifesto contra a censura, em todos os teatros, antes do início dos espetáculos. O advogado Iberê Bandeira de Melo, amigo de infância de Plínio Marcos, entrou com um recurso contra a Censura. O próprio Ministro da Justiça, Armando Falcão, reiterou a proibição da peça, sob a alegação de que ela atentava contra a moral e os bons costumes. O Dr. Iberê e Plínio Marcos continuaram com a luta e foram, de instância em instância, até chegarem ao Supremo Tribunal Federal.]
“Perdemos em todos os lances. Perdemos. Com um, apenas um voto favorável. Havia um homem honrado entre os juízes. O Dr. Jarbas Nobre. Perdemos. Mas, era uma vitória.” “Eu voltei de Brasília certo de que tinha enchido o saco dos donos do poder. Cumpri com grandeza o meu papel.” “Ai, eu me organizei pro pior. E o pior veio. Muito pior do que eu imaginava: na base do maldito ninguém-me-procura. Mas, eu era mais eu. Editava meus livros, na base do crédito naturalmente. E saia vendendo. E ia tocando a catraia contra a maré.”

Plínio Marcos, sambista de Sampa

[Não foi importante apenas como escritor, mas como um conhecedor e defensor da cultura popular brasileira. Em Santos, já participava das festas populares da cidade, como o Carnaval.] “Não era mole o carnaval na Baixada Santista. Começava muito antes dos três dias. Primeiro eram as batalhas de confete. Era lenha pura. Uma em cada bairro. E não era um desfile de araque com meia dúzia de crioulos batendo no couro do falecido. E depois vinha o desfile da Dorotéia. E o desfile dos blocos.” “Quem viu, viu. Quem não viu não vê mais. É uma pena.” “Não era mole botar Carnaval na rua no tempo do Mestre Zagaia. A polícia acabava com os pagodes na base do chanfralho.
Mas, nem por isso a turma do samba se acanhava. Só saía nos cordões nego pedra noventa, gente que não fazia careta pra cego nem cerimônia com otário.”


[Já em São Paulo, em 1964, escreveu um texto para um espetáculo de música popular brasileira, Nossa Gente, Nossa Música, realizado pelo Grupo Quilombo, dirigido por Dalmo Ferreira, no Teatro de Arena. Sempre foi um defensor e divulgador do trabalho de sambistas das Escolas de Samba de São Paulo. Em 1970, escreveu e dirigiu Balbina de Iansã. As músicas do espetáculo, de compositores tradicionais do samba paulista, como Talismã, Sílvio Modesto, Jangada, foram gravadas em LP, em 1971. Em 1974, lança outro LP – Plínio Marcos em Prosa e Samba, Nas Quebradas do Mundaréu – com os sambistas Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro, disco considerado fundamental para quem quer estudar o samba da cidade de São Paulo. Esse disco é resultado de um show que já vinha fazendo com esses e outros músicos e que, com algumas variações, recebeu diferentes nomes: Plínio Marcos e os Pagodeiros, Humor Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu, Deixa Pra Mim que eu Engrosso.
Além desses e de outros shows, nesse mesmo período tinha programas em rádios e na Televisão Tupi, nos quais divulgava o trabalho dos sambistas paulistas. Durante vários anos, fez a cobertura do desfile das Escolas de Samba de São Paulo para jornal, rádio ou televisão.
Em 1972, é o fundador da primeira banda carnavalesca de São Paulo, a Banda Bandalha, que saía na quinta-feira da semana anterior ao Carnaval e, também, no sábado de Aleluia, e cujo ponto de partida era em frente ao Teatro de Arena, no Bar Redondo, reunindo artistas, intelectuais e sambistas de várias Escolas de Samba, que se misturavam a milhares de foliões. ]

Fuga nos livros

“Eu fui escrever literatura porque a censura não estava liberando nenhuma peça minha. O Querô ia ser mais uma peça de teatro. [Uma Reportagem Maldita – Querô, publicado em 1976, ganhou o Prêmio APCA de melhor romance desse ano.] Só escrevi em forma de romance porque não achei que iria passar na censura. Tanto é que ele está adaptado para teatro. Dentro da Noite, outra novela para televisão, também foi proibida. Nas Quebradas do Mundaréu é conseqüência das historietas que escrevi na Última Hora. Virou um livro.”
[Desde 1968, tinha uma coluna diária no jornal Última Hora, SP, no qual trabalhou até 1978, não ininterruptamente. Assinou também uma coluna nos jornais Diário da Noite, Folha de SP, Movimento, Diário Popular, Jornal da Orla, entre outros; escreveu crônicas sobre futebol na revista Veja (1975/76), além de colaborações para outros jornais e revistas. Escrevia contos, reportagens, entrevistas, crônicas sobre vários assuntos.]

Autografando

“E o Inútil Pranto, Inútil Canto para os Anjos Caídos são contos.” [Escreveu ainda outro conto, O Assassinato do Anão do Caralho Grande, que também adaptou para teatro. Publicou ainda outros livros de pequenos contos ou relatos autobiográficos: Prisioneiro de uma Canção, Canções e Reflexões de um Palhaço, Figurinha Difícil, O Truque dos Espelhos.]
“A Barra do Catimbó, que é outro romance meu, também foi proibido como novela de televisão.” [Começou a escrever histórias da Barra do Catimbó em jornal, antes de lhes dar a forma de romance.] “Pra evitar esculacho, criei a Barra do Catimbó, onde passei a fazer acontecer todos os salseiros. E, aos poucos, me apaixonei pela Barra do Catimbó. Fui criando personagens que, de início, eram baseados nos tipos que conheci na minha cidade querida, mas que, aos poucos, foram crescendo, ganhando características próprias e, acreditem ou não, se formavam sozinhos, indiferentes à minha influência. Mestre Zagaia e os ensinamentos da sua Tabuada das Candongas, colhidos nos estreitos, esquisitos e escamosos caminhos do roçado do bom Deus. Nega Bina Calcanhar de Frigideira, que no começo era só mulher do crioulo Catimbó, fundador da Barra, e que ganhou importância quando mataram seu marido. Oscarino Vaselina, eterno candidato a vereador, Seu Olegário, Seu Azulão, Mané Cheiro de Peixe, Mãe Begum de Obá, Chupim, Pé de Bicho, Intrujão Guegué, Bolinha do Mobral, Dona Cotinha Fofoqueira, Quim Ilhéu, Azevedo do Apito, Valdo Camelô, Catulé Sambista, e tantos outros.” “Eu os amo por serem frágeis diante dos duros combates do dia-a-dia, mas que não se rendem nunca. Porém (e sempre tem um porém), o que quero dizer e o que pesa na balança é que já pensei, e penso muito, chego a ser atormentado por essas figuras, em meter tudo isso no palco de um teatro.” [O que, infelizmente, nunca chegou a fazer.]
“Não tem tu, vai tu mesmo. Era assim. Eu ia vendendo meus livros nas ruas, feiras de livros, nas portas dos teatros, nos restaurantes Gigeto, Giovani Bruno, Orvieto, Piolim. Um pouco aqui, um pouco ali. Batendo papo, contando histórias e faturando uma grana. Sabe, não é fácil vender livros em terra de analfabeto com fome. A maioria das pessoas reconhecia que aquilo era uma forma de resistência. Uma parada dura. Mas, eu não me acanhava. Não me queixava. Conheço bem a lei do choque do retorno: Quem planta vento colhe tempestade. E eu incomodava mesmo. Era perseguido, mas fiz por merecer. Eu encarava todas do jeito que viessem. Às vezes, apareciam uns e outros querendo me humilhar. Era péssima viagem. Eu pegava bem. Dava duro.”