Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Adeus a Sérgio Britto


Sérgio Maggio

Publicação: 18/12/2011 09:12 Atualização:

O ator na peça As pequenas raposas, em 2005 (Adauto Cruz/CB/D.A.Press)
O ator na peça As pequenas raposas, em 2005


Rio de Janeiro —
Nunca tinha ouvido tantas palmas se desdobrarem como uma melodia sem fim. A onda de energia tomava o Teatro Sesc Anchieta (São Paulo) como uma tradução de amor explícito. O palco já estava vazio. Há um minuto, Sérgio Britto tinha dado vida ao frágil Alberto, da peça Recordar é viver, de Eduardo Tolentino. O aplauso sem fim continuava, aumentava, pedia para que ele voltasse. Um dos maiores intérpretes do teatro brasileiro retornava, curvava-se e agradecia, com voz trêmula, o carinho infindável. “Desculpe, não lhe dar muita atenção. Você viu o que aconteceu ao fim? Quantas palmas? Estou muito emocionado. Nem falaria nada, mas resolvi voltar e agradecer a esse público contagiante, obrigado!”, contou Sérgio Britto, no foyer do teatro lotado, que marcou a estreia da temporada paulista em janeiro deste ano,

Alberto foi o último personagem de Sérgio Britto. A peça toda ele passava dizendo a frase “há tempo”, numa metáfora para a vida que se escoava minuto a minuto. Era um tipo caro porque dialogava com a própria condição humana do ator, com interface intensa com a velhice, com a fragilidade do corpo físico e a luta para vencer as barreiras da idade. Na manhã de ontem, o tempo se esgotou. Sérgio Britto não conseguiu sair de mais uma internação. Morreu aos 88 anos de insuficiência respiratória e deixou um legado espantoso à cultura brasileira. Ele estava internado há cerca de um mês, por conta de problemas cardiorrespiratórios.

Admiradores lotam a Assembleia Legislativa do Rio (Pedro Kirilos/Agência O Globo)
Admiradores lotam a Assembleia Legislativa do Rio


Pelo seu corpo, passaram dos tipos clássicos de Shakespeare aos suburbanos de Nelson Rodrigues. Não deixou de experimentar dramaturgias. Um dos grandes feitos contemporâneos foi a montagem de peças curtas de Samuel Beckett, no qual explorava a fragilidade do ser humano, correndo seminu e cambaleante no palco. “Por dentro, eu estou tinindo, estou forte como um rapaz cheio de tesão”, disse na época em que esteve com a peça em Brasília.

Formado em medicina, Sérgio Britto descobriu a vocação pelas mãos de Ester Leão, uma das primeiras mulheres a assumir a função de direção de ator no país. No Teatro Universitário, iniciou-se pelas palavras do clássico Romeu e Julieta, de Shakespeare. Depois, encaminhou-se para o Teatro do Estudante do Brasil, de Paschoal Carlos Magno. Ali viveu Horácio, na antológica montagem de Hamlet, que consagrou o talento de Sergio Cardoso. “Cada um precisa descobrir a sua paixão. A minha veio dos palcos.”

 (Arquivo CB/D.A.Press)


Tudo acontecia tão rapidamente que parecia não ter volta. Sergio olhava a medicina com distância e o teatro como urgência, o que levou a fundar companhias históricas, que ajudaram a modernizar o fazer teatro no Brasil, como o Teatro dos Sete, na companhia de Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Ítalo Rossi, Gianni Rato. Eles foram responsáveis por alguns feitos, como a primeira montagem de Beijo no asfalto, polêmico texto de Nelson Rodrigues, que resultou numa tumultuada temporada em 1961, com direito a protestos e gritos moralistas em plena sessão.

Evolução
Ator de composição, que se descobriu com essa capacidade na labuta de fazer teleteatro ao vivo na TV Tupi, Sérgio Britto sabia como poucos criar um RG para cada personagem que erguia no palco. Foram muitos e, por meio deles, é possível contar a evolução do teatro brasileiro. “A gente saía correndo do teatro e ia para o estúdio de tevê ensaiar e gravar o teleteatro de madrugada. Foi uma escola sem precedente que experimentei.”

Com essa formação intensa nos anos 1950 e 1960, Sérgio Britto desempenha, nas próximas décadas, um papel fundamental na consolidação do teatro de ator. Funda sua própria produtora e escolhe a dedo os personagens e as peças que ele deseja representar. Não é mais uma. Cada uma era única, em sua entrega absoluta e sacra ao palco. Foi assim, em 1974, com Os autos sacramentais, de Calderón de la Barca. Com produção de Ruth Escobar, Sérgio Britto surge nu em cena aos 51 anos, numa montagem que foi proibida pela ditadura brasileira, mas percorreu o mundo por seis meses, do Irã à Europa.

Inquieto, desdobra-se como ator, diretor, produtor e ativista cultural. É um dos fundadores da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e assume o papel de primeiro diretor artístico do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, em 1989. Consumidor voraz de cultural, apresentava um dos melhores programas do gênero na TV Brasil, A arte de Sérgio Britto, no qual compartilhava semanalmente o gosto por cinema, teatro, ópera, leitura e viagens. Nos bastidores, era o xodó das camareiras. Ano passado, lançou uma autobiografia, O teatro e eu, que venceu este ano o Prêmio Jabuti. O livro tem um texto picante, sincero, confessional e revelador dos bastidores da vida de um ator devotado. Ali se aprendem muitas lições. Uma delas como viver com 80 e muitos anos. Seu corpo será enterrado hoje no Cemitério do Caju.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um poema para Dina Sfat

Público se emocionou em homenagem a Dina Sfat no Mitos do Teatro Brasileiro

Mariana Moreira

Publicação: 24/11/2011 09:51 Atualização:

 (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )

A emoção, as imagens, a presença cênica, a humanidade, as ideias. Num mosaico composto por teatro, vídeos e depoimentos, a atriz Dina Sfat foi evocada em sua inteireza, durante o encerramento do projeto Mitos do Teatro Brasileiro, na noite da última terça-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Sua força feminina, artística e política estava por toda parte: na areia e no pôr do sol do deserto, origem de sua família, levados ao palco em uma das cenas. Nas inúmeras fotos projetadas, que derramaram sobre o público seus olhos grandes e expressivos. Na voz dos colegas Maria Alice Vergueiro e Ednei Giovenazzi, que reviraram seus baús de recordações ao lado da amiga e colega de ofício.

O primeiro ato da exaltação à atriz foi o miniespetáculo Arena conta Dina Sfat, biografia teatralizada com base no método curinga, criado por Augusto Boal. Algumas pessoas da plateia foram colocadas no palco e sorteavam a ordem das cenas, escritas pelo diretor-dramaturgo Sérgio Maggio e interpretadas por J. Abreu e Juliana Drummond. Durante 35 minutos, fizeram um passeio por fatos marcantes de sua trajetória.

No princípio, havia a força das mulheres da família Kutner. (Sua avó, vinda de Sfat, cidade israelense conhecida como centro artístico e berço da cabala, sempre dizia: “Goza, minha filha. Goza e aproveite tudo o que puder”). Outros fragmentos relembraram o encontro com o marido, o ator Paulo José, e o mergulho no teatro politizante do Arena (a atriz chegou a participar de uma temporada de Eles não usam black-tie. No início, ela não era politizada, mas adorava ser porta-voz daquelas ideias). Seu enfrentamento à ditadura ganhou um capítulo especial. Durante a participação em um programa de televisão, teve um confronto velado com um general. Enquanto ele se vangloriava do regime ditatorial, a atriz reagia silenciosamente, com as expressões faciais. Ao ser questionada pelo militar se teria alguma pergunta para ele, respondeu: “Tenho medo de generais.”

O desabafo da pantera
Em sua fala, a atriz Maria Alice Vergueiro emocionou-se e tocou a plateia, ao traçar um paralelo entre a sua trajetória e a da amiga. Separada, com filhos pequenos, vinda da alta sociedade, a musa do Tapa na pantera sequer sabia se queria mesmo ser atriz. Tímida e desajeitada no ambiente masculino do Arena, sentia-se rejeitada por seus pares. Dina, percebendo sua fragilidade, a acolheu e aconselhou: “Bota pra quebrar”. “Hoje, entendo bem o caminho que ela me indicou e é um prazer estar aqui com ela comemorando essa luta da mulher. Dina misturou a família, pulou no palco e botou pra quebrar”, reconhece.

Ednei Giovenazzi (E) e Maria Alice Vergueiro emocionaram-se ao falar de Dina, enquanto Juliana Drummond e J. Abreu encenaram a biografia da atriz (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
Ednei Giovenazzi (E) e Maria Alice Vergueiro emocionaram-se ao falar de Dina, enquanto Juliana Drummond e J. Abreu encenaram a biografia da atriz
Surpreso com o teor da homenagem, Ednei Giovenazzi, colega da atriz em inúmeras novelas e montagens teatrais (como o clássico Hedda Gabler, que teve um trecho encenado) selecionou fatos históricos, mas decidiu dar um tom emocional à sua fala. Recordou a primeira vez em que a viu no palco, com o frescor de uma iniciante. “Quando vemos um ator pela primeira vez, temos a sensação de que ele está atuando como se fosse a sua estreia. Ela tinha uma espontaneidade física, gestos expressivos, nunca era demais ou de menos”, relata.

A aproximação dos dois se deu quando ela o convidou para o papel de mocinho em Hedda Gabler. Mas, nos ensaios, o ator sentia que não alcançava o tom e as expectativas da colega. Durante a temporada, alimentou uma certa insegurança, que só se dissipou na última sessão da peça, em Fortaleza. Na cena em que deveria lhe entregar uma arma, a atriz aproximou-se de seu rosto e lhe roçou os lábios suavemente. “Ali, nossa amizade estava selada para sempre. Foi o momento mais feliz da minha vida em cena”, reconhece.


O LADO MAMÃE
» As entrevistas em vídeo também completaram o relicário afetivo em torno de Dina. O cantor Milton Nascimento, fã confesso de teatro, teve a oportunidade de contracenar com ela no filme Os deuses e os mortos, de Ruy Guerra. “Ela fez o papel de uma louca, mas que dizia coisas muito sérias. Era uma atriz completamente divina”, conta ele, que se inspirou na musa para compor a canção Cravo e canela. Antônio Gilberto, que trabalhou durante anos com a atriz e é autor da biografia Dina Sfat: retratos de uma guerreira, montou uma exposição com retratos dela. Uma das curiosidades da noite foi a exibição de um vídeo da estrela, ao lado da cantora Elis Regina e da atriz Regina Duarte. As três brincam com os filhos, ainda bebês, enquanto interpretam o poema Enjoadinho, de Vinicius de Moraes (“Filhos, melhor não tê-los. Mas se não os temos, como sabê-lo?”).

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Musa Guerreira


Dina no papel de Heloísa de Lesbos, em O rei da vela, montagem do Oficina de 1966 que modernizou o teatro

Dina Sfat é homenageada na última edição do projeto Mitos do Teatro Brasileiro

Mariana Moreira


Durante uma entrevista, ela se comparou à sabra, fruto de cacto comum em Israel: espinhosa e angulosa por fora, doce de enjoar por dentro da casca. Autoanálises à parte, Dina Sfat carregou consigo esse traço de mulher do deserto, que vira a vida do avesso. De família judia, nascida em São Paulo, ela rompeu com as expectativas ao trilhar caminhos inesperados. Deixou a tradição de lado para tornar-se uma das atrizes mais admiradas e carismáticas do Brasil, além de artista com forte verve intelectual, engajada nas causas pertinentes a seu tempo e com senso de cidadania. Essa história tortuosa foi escolhida para encerrar o projeto Mitos do Teatro Brasileiro nesta terça-feira (22/11), às 20h, no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com entrada franca.

“É importante incluí-la entre os mitos do teatro, porque a maioria das pessoas a associa às novelas”, destaca J. Abreu, ator e codiretor do projeto. As participações televisivas foram profícuas, mas a dedicação ao teatro não ficou atrás. Ao longo da carreira, a atriz dedicou-se a clássicos da dramaturgia, como Mandrágora, de Maquiavel, Santo Inquérito, de Dias Gomes, e o grande sucesso Hedda Gabler, de Henrik Ibsen, além de integrar o elenco das duas maiores companhias de referência do teatro moderno no Brasil (Arena e Oficina).

No cinema, uma de suas personagens foi Cy, de Macunaíma, filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade com base na obra de Mario de Andrade. Tamanha versatilidade e capacidade de se desdobrar em vários papéis foi definida pela atriz Renata Sorrah como um “star system”: ela conseguia atuar com maestria na tevê, no cinema e nos palcos. Dina Sfat morreu em março de 1989, em consequência de um câncer de mama. Tinha 50 anos.

Seguindo a dinâmica estabelecida nas homenagens anteriores, a noite terá a presença de convidados e projeções de material de arquivo, além de atores da cidade (J. Abreu e Juliana Drummond) em cenas inéditas inspiradas na vida de Dina, escritas pelo jornalista e dramaturgo Sérgio Maggio. Os amigos a prestar tributo à atriz nesta edição são Maria Alice Vergueiro e Ednei Giovenazzi.

Colega de Dina em novelas e nos palcos, Giovenazzi se encantou com a beleza, personalidade e força daquela novata nos palcos. “Ela tinha um espírito revolucionário. Fiquei chapado. Suas técnicas gestual, vocal e sua medida eram perfeitas”, elogia ele, admitindo que atores não têm o hábito de enaltecer o trabalho dos colegas. “Quando recebi o convite para ir a Brasília, vi a oportunidade de dizer todas as coisas que não disse a ela em vida”, afirma.

Giovenazzi se encantava com a performance da atriz na novela Selva de pedra, em que contracenaram. “A minha personagem protegia a da Regina Duarte, e a dela maltratava. E como maltratava, com aquele olhar fulminante. Eu era artisticamente apaixonado por Dina”, revela.

Nos tempos de Teatro de Arena, a atriz aproximou-se de Maria Alice Vergueiro, outra diva do teatro, que esteve recentemente na cidade, com a peça As três velhas, e ressurgiu para o grande público com o vídeo Tapa na pantera, sucesso na internet. “Ela tinha uma personalidade interessante. Não era dada a muito sectarismo, numa fase em que a cabeça da moçada era radical. Era, antes de tudo, uma artista, tinha muito talento e cantava muito bem”, elogia Maria Alice.

Enquanto Maria Alice se sentia tímida, cheia de pudores, a amiga era mais livre. “Ela era mais Leila Diniz”, brinca. As afinidades entre as duas extrapolaram o espaço cênico. “Às vezes, uma atriz é correta, faz tudo direitinho, mas sem aquele brilho. Em Arena conta Tiradentes e Arena conta Zumbi, ela brilhava em cena”, destaca.

Arena conta
Inspirados nessas obras do dramaturgo Augusto Boal (outro homenageado do projeto), Sérgio Maggio e J. Abreu criaram uma versão da montagem para compartilhar com o público passagens importantes da biografia da atriz. Arena conta Dina Sfat será um miniespetáculo, com duração aproximada de meia hora, e seis esquetes. O público, convidado a formar uma semiarena no palco, escolherá a ordem das cenas, que contam um pouco de tudo: a carreira, o casamento com o ator Paulo José (eles tiveram três filhas, Isabel, Ana e Clara), o feminismo, o enfrentamento à ditadura, a luta pela legalização do aborto.

As cenas seguintes trarão o diálogo da atriz com um crítico teatral, nos bastidores de Hedda Gabler, e ainda uma sequência em que seus pensamentos de natureza artística, política e pessoal serão pendurados em uma árvore. Na pele de Dina, estará a atriz Juliana Drummond. “Ela fez essa fusão entre a atriz e a mulher cidadã para falar sobre questões importantes. É uma honra ser canal e instrumento para essa homenagem”, reconhece ela.

A menina judia, que começou a vida profissional em um laboratório de análises clínicas — e, no auge da fama, desistiu do horário nobre para se dedicar à ribalta — também será lembrada em vídeos. Um deles, raridade, mostra Dina mocinha, em um programa de tevê. “Ela começou querendo ser atriz famosa, nos moldes de Hollywood. Mas, no Teatro de Arena, incorporou o discurso de que o papel do artista é também social, e isso mudou sua vida”, frisa J. Abreu. Vida que, com a ousadia do talento e a solidez do solo desértico, Dina Sfat virou do avesso.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Dina Sfat, atriz-cidadã


Analisando a trajetória da intérprete Dina Sfat, comenta o crítico Alberto Guzik: "Apaixonada e coerente, não poucas vezes Dina viu declarações suas transformadas em berços de polêmica. Mas sempre teve a coragem de sustentar suas idéias francamente e nunca se fechou ao diálogo. Quanto a seu trabalho em cena, embora fosse uma intérprete de bons recursos cênicos, voz trabalhada e evidente perícia na composição de caracteres, o que a destacava era a paixão. A vibração de sua presença, a imperiosa honestidade com que desenhava suas atuações, valeram-lhe uma posição de destaque, que a atriz manteve sempre com enorme dignidade".1

Dina Sfat, mulher de opinião



Não é possível desligar sua vida artística de sua ativa participação na vida cultural e política do país, seja integrando movimentos em prol da democracia ou da liberdade de expressão. Sua forte liderança neste campo é tão grande que, numa aula da Escola Superior de Guerra, um general a define como "líder feminista vinculada à estratégia de poder da extrema-esquerda". Ela, de fato, noticiou que sairia candidata ao cargo de vice-presidente do país pela sigla do Partido Comunista do Brasil - PCB, em 1984, mas jamais integra algum partido ou filia-se a qualquer facção política. Seu inconformismo e legítimo sentido de liberdade ancoram-se em generosa visão da vida e do mundo, sem sectarismos.

Ao descobrir-se com câncer, luta durante três anos contra a doença. Viaja para a Rússia, em tratamento, aproveitando para fazer um documentário para a TV, no momento em que a perestróika dava seus primeiros passos, levantando muita curiosidade sobre o assunto.

De seu casamento com Paulo José nascem três filhas. Ana e Bel Kutner tornam-se, igualmente, atrizes. Clara torna-se diretora.

Pouco antes de morrer lança uma autobiografia, Dina Sfat - Palmas pra que Te Quero, escrita em parceria com a jornalista Mara Caballero.

Dina, estrela do cinema e da tevê


Na televisão, Dina Sfat protagoniza novelas de grande projeção, tornando-se atriz de larga empatia e reconhecimento popular. Entre outras, destaca-se em Selva de Pedra, em 1972; Os Ossos do Barão, 1973; Saramandaia, 1976; O Astro, 1977; Bebê a Bordo, 1988; além das minisséries Avenida Paulista, em 1982, e Rabo de Saia, em 1984.

No cinema firma sua personalidade sempre densa, dramática e cheia de sutilezas em algumas películas de repercussão, lastreando seu prestígio. Como Jardim de Guerra, 1970; Tati, a Garota, 1973; Álbum de Família e Eros, o Deus do Amor, ambos em 1981; Das Tripas Coração, Tensão no Rio e O Homem do Pau Brasil, todos em 1982, sendo que neste último interpreta a pintora Tarsila do Amaral; deixa inacabado O Judeu, só concluído em 1995.

Dina Sfat, estrela independente




Dissolvidos os dois grandes conjuntos teatrais dos anos 1960, Dina passa a aceitar contratos com produções independentes, alternando sua vida artística entre a televisão e o cinema. Seu currículo teatral registra expressivos desempenhos em Dorotéia Vai à Guerra, de Carlos Alberto Ratton, 1973; A Mandrágora, de Maquiavel, 1975; ambos direção de Paulo José. Participa da montagem de O Santo Inquérito, de Dias Gomes (1923 - 1999), 1976, dirigida por Flávio Rangel. Está em Seis Personagens à Procura de uma Autor, de Luigi Pirandello, mais uma direção de Paulo José, em 1977. Integra o elenco em Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal, 1979, primeira peça abordando a problemática dos exilados políticos a chegar aos palcos.

Torna-se produtora dos espetáculos que protagoniza, em As Criadas, de Jean Genet, 1981, e Hedda Gabler, de Henrik Ibsen, 1982. Esse último espetáculo alcança grande adesão de público não só no Rio de Janeiro, onde estréia, mas também numa longa tournée por vários Estados. Sua despedida dos palcos ocorre com A Irresistível Aventura, quatro peças em um ato dirigidas por Domingos Oliveira, 1984.

Dina Sfat do Arena ao Oficina



Filma Corpos Ardentes, de Walter Hugo Kouri, com expressivos resultados; o que a conduz ao desempenho da guerrilheira Cy, de Macunaíma, filme de Joaquim Pedro de Andrade realizado em 1969, onde brilha ao lado de Paulo José, o protagonista. Eles se conhecem desde o Teatro de Arena, mas é a partir daí que passam a assumir uma relação marital estável.Integra os elencos de O Melhor Juiz, o Rei, de Lope de Vega, 1963; Tartufo, de Molière, 1964; e ganha o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de melhor atriz em Arena Conta Zumbi, 1965, musical de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, todas com direção de Augusto Boal. Em 1967, participa de Arena Conta Tiradentes, novamente autoria de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, no mesmo teatro.

No final desse ano aceita um desafio: substituir às pressas Ítala Nandi no papel de Heloisa de Lesbos de O Rei da Vela, texto de Oswald de Andrade (1890 - 1954) encenado por José Celso Martinez Corrêa para o Teatro Oficina, conquistando as atenções do Rio de Janeiro.

Filma Corpos Ardentes, de Walter Hugo Kouri, com expressivos resultados; o que a conduz ao desempenho da guerrilheira Cy, de Macunaíma, filme de Joaquim Pedro de Andrade realizado em 1969, onde brilha ao lado de Paulo José, o protagonista. Eles se conhecem desde o Teatro de Arena, mas é a partir daí que passam a assumir uma relação marital estável.

Dina Kutner vira Dina Sfat


Dina Kutner de Souza (São Paulo SP 1938 - Rio de Janeiro RJ 1989). Atriz. Inquieta, profunda, dona de uma presença física singularmente sedutora e de uma aguda inteligência interpretativa, Dina Sfat distingue-se, na sua carreira teatral, pela exigência e coerência com que seleciona os seus compromissos profissionais. É uma das artistas de proa que verbalizam e expressam as reivindicações nacionais contra a injustiça e a opressão durante o período da ditadura.

Filha de judeus poloneses, começa a trabalhar aos 16 anos em um laboratório de análises clínicas. Em 1962 faz uma ponta em Antígone América, de Carlos Henrique Escobar, montagem de Antônio Abujamra para Ruth Escobar. Volta ao amadorismo, como integrante de um grupo estudantil do centro acadêmico de engenharia da Universidade Mackenzie. Dessa experiência nasce seu contato com o Teatro de Arena, onde estréia profissionalmente substituindo a atriz que interpretava Manuela, a filha em Os Fuzis da Senhora Carrar, texto de Bertolt Brecht, dirigido por José Renato, em 1962. Adota, então, o nome artístico de Dina Sfat, homenageando a cidade natal de sua mãe.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Sol de Dulcina



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Vanessa Goulartt

Qui, 05 de Maio de 2011 12:35

O nosso país não tem memória, ou pelo menos ela anda tão fraca que precisa de uma dose cavalar de fosfosol. Será que o povo brasileiro sabe quem foi Dulcina de Moraes? Se perguntarmos pelas ruas sobre Dulcina garanto que poucos lembrariam da grande atriz, empresária e educadora.
Tive a oportunidade de assistir a estreia de um projeto extremamente importante e oportuno: "Mitos do Teatro Brasileiro", patrocinado e apresentado pelo Banco do Brasil, por enquanto só apresentado no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília. A proposta é trazer ao palco a trajetória de ícones do nosso teatro, na noite inicial a homenageada foi Dulcina de Moraes.
O diferencial é a mescla da linguagem teatral com a informação jornalística. A dramaturgia é assinada pelo jornalista Sergio Maggio e através de breves cenas a plateia conheceu momentos importantes e também curiosidades sobre a carreira de Dulcina.
Como convidadas da noite as atrizes Nicette Bruno e Françoise Fourton abrilhantaram a apresentação participando do talk - show que compõe a característica jornalística do evento. "Ela era um sol", disse Nicette sobre a homenageada em uma noite repleta de emoção. Como mestres de cerimônia os atores brasilienses Jones Schneider e Luciana Martuchelli, antigos alunos de Dulcina, combinaram leveza e sensibilidade.
Através desta linguagem inovadora a plateia presente pode conhecer ou relembrar o trabalho de uma das grandes damas do nosso teatro. Dulcina abriu mão de sua companhia teatral de grande sucesso e foi construir um sonho, a Faculdade Dulcina de Moraes (Fundação Brasileira de Teatro). Escolheu Brasília como chão, terra de pioneiros como ela e abriu a cortina do grande espetáculo de sua vida. Todos nós sentimos o calor do sol que ela era
Viva Dulcina, viva o teatro brasileiro!

Vanessa Goulartt

Sou atriz e jornalista. Nascida em uma família de artistas, sou neta de Paulo Goulart e Nicette Bruno e filha de Bárbara Bruno, o universo teatral sempre foi o meu ambiente, a minha casa. Curiosa por natureza estou constantemente a procura de novidades e atenta aos acontecimentos. Procuro registrá-los com poesia e humor, que para mim são os temperos da vida. Bem vindos ao meu novo espaço! Entrem e comentem!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Guerrilheira dos palcos




CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL E MITOS DO TEATRO BRASILEIRO — ANO II ENCENAM A VIDA E OBRA DE DINA SFAT, ATRIZ ÍCONE DA MODERNIDADE

No gene de Dina Sfat, corre a força das mulheres do deserto judeu. A fibra de luta é uma característica permanente na trajetória de uma das mais inquietantes atrizes da história do teatro brasileiro. De secretária e menina criada para o casamento judeu, rompeu-se uma artista que politicamente pôs o destino pelo avesso. Com presença marcante nos dois coletivos que nacionalizaram o teatro brasileiro, Arena e Oficina, a menina judia que nasceu no Alto da Lapa (RJ) construiu uma carreira de repertório impecável no teatro, no cinema e na televisão. No dia 22 de novembro, terça-feira, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o projeto Mitos do Teatro Brasileiro rende-se à memória da jovem dama, morta aos 50 anos, com as presenças de Maria Alice Vergueiro e Ednei Giovenazzi. A entrada é franca e as senhas serão distribuídas uma hora antes da apresentação.

A arte de Dina Sfat foi semeada pela dedicação e pela descoberta de um teatro potente capaz de dialogar com o mundo presente. Ela começa encenando textos de Brecht no Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, até entrar, pelas mãos de Augusto Boal, no Arena, onde se faz presente nas antológicas montagens Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes. Ali, em ambiente predominantemente masculino, desbrava a atuação feminina e política no teatro nacional, uma das bandeiras que carrega até a morte precoce em 1989. A atriz está também associada à histórica temporada de O rei da vela, do Teatro Oficina, em 1968, que associa o movimento teatral à Tropicália.

Para testemunhar sobre os caminhos artísticos de Dina Sfat, Maria Alice Vergueiro volta a Brasília a fim de relembrar a antropofagia de O rei da vela e a presença marcante de Dina Sfat no teatro. “Adoro ela, tenho carinho e boas lembranças de trabalhos divididos”, lembra a dama do teatro cult no Brasil, que recentemente fez estrondoso sucesso no palco do CCBB com As três velhas. Ao seu lado, estará um dos atores mais talentosos e dedicados à arte teatral no país, Ednei Giovenazzi, que fez, com Dina Sfat, um dos seus maiores sucessos: Hedda Gabler. “Sempre penso em Dina, é como uma oração”, confessa. No formato de teatro-documentário, os depoimentos de Maria Alice Vergueiro e Ednei Giovenazzi estarão misturados a cenas escritas pelo diretor-dramaturgo Sérgio Maggio e vividas pelos atores J. Abreu e Juliana Drummond.

Mitos do Teatro Brasileiro é projeto alicerçado na memória daqueles que fizeram do teatro uma missão de vida e de expressão. Durante dois anos, encenou biografias cênicas de Dulcina de Moraes, Dercy Gonçalves, Procópio Ferreira, Cacilda Becker, Nelson Rodrigues, Chico Anysio, Maria Clara Machado, Plínio Marcos, Paulo Autran, Lélia Abramo e Augusto Boal. “Pelo palco do CCBB Brasília, montamos uma panorama profundo e sensorial sobre a saga do teatro nacional do século 20, das companhias aos coletivos modernos. Além do sucesso de público e crítica, vimos surgir diante dos nossos olhos um profundo amor da plateia ao teatro brasileiro ”, aponta Maggio.


 Acompanhe a pesquisa do projeto no blog
 www.mitosdoteatrobrasileiro.blogspot.com e siga-o no Twitter @mitosdoteatro


SERVIÇO:

Mitos do Teatro Brasileiro — Dina Sfat
Data: 22 de novembro
Horário: terça-feira, às 20h
Duração: 100 minutos
Ingressos: Entrada franca. Senhas serão distribuídas na bilheteria com uma hora antecedência.
Direção e dramaturgia: Sérgio Maggio
Com: J. Abreu e Juliana Drummond
Debatedores: Maria Alice Vergueiro e Ednei Giovenazzi
Classificação indicativa: 12 anos
Local: Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (CCBB) – SCES, Trecho 2, Lote 22, Brasília
Telefone: (61) ) 3108-7600


O CCBB disponibiliza ônibus gratuito, identificado com a marca do Centro Cultural. O transporte funciona de terça a domingo, saindo do Teatro Nacional a partir das 11h.

Trajeto e Horários


Teatro Nacional: 11h, 12h25, 13h50, 15h15, 16h40, 18h05, 19h30, 20h55, 22h
SHN – Manhattan: 11h05, 12h30, 13h55, 15h20, 16h45, 18h10, 19h35, 21h, 22h05
SHS – Hotel Nacional: 11h10, 12h35, 14h, 15h25, 16h50, 18h15, 19h40, 21h05, 22h10
SBS – Galeria dos Estados: 11h15, 12h40, 14h05, 15h30, 16h55, 18h20, 19h45, 21h10, 22h15
Biblioteca Nacional: 11h20, 12h45, 14h10, 15h35, 17h, 18h25, 19h50, 21h15, 22h20
UNB – Inst. Artes: 11h30, 12h55, 14h20, 15h45, 17h10, 18h35, 20h, 21h25, 22h30
UNB – Biblioteca: 11h35, 13h, 14h25, 15h50, 17h15, 18h40, 20h05, 21h30, 22h35
CCBB: 12h10, 13h35, 15h, 16h25, 17h50, 19h15, 20h40, 21h45, 22h45


Assessoria de Comunicação


Âncora Comunicação
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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mil Dinas

DINA SFAT - MAGNETISMO E SEDUÇÃO

Dina Sfat foi uma das maiores atrizes brasileiras que teve o teatro, cinema e televisão. Dona de uma interpretação singular, com fortes emoções à flor da pele, dosadas por uma construção de texto numa voz inteligente, um olhar magnético e forte sedução na presença física tanto no palco, como através das lentes do cinema ou da televisão.
Falar de Dina Sfat traz sempre uma dor movida pela saudade. Seu magnetismo pessoal torna-a inesquecível, seu talento profissional fez dela uma das atrizes mais amadas e cultuadas pelo grande público e pela crítica. Viveu a maior parte da sua juventude e início da maturidade sob a mão pesada da ditadura militar, a qual combateu energicamente, sempre apoiando a esquerda perseguida na época, sem jamais se filiar a qualquer partido ou tendência.
Figura inquieta e polêmica, Dina Sfat sempre teve a coragem de dizer o que pensava e sustentar a sua visão de mundo e de Brasil, mesmo quando não agradava às correntes sociais ou ideológicas. Na sua vida particular era discreta, não se deixando levar pelos escândalos amorosos e pelo sensacionalismo dos holofotes da mídia. Foi casada 17 anos com o ator Paulo José, com quem teve três filhas: Bel Kutner, Ana e Clara.
Dina Sfat pertence à geração de atrizes que surgiu com o teatro engajado do início dos anos sessenta, que depois conquistou a televisão quando esta se firmou como veículo cultural no Brasil. Tornou-se a atriz preferida da mítica autora Janete Clair, e uma das mais requisitadas por Dias Gomes. Jamais se furtou a fazer papéis diferentes, rompendo com a tradição maniqueísta das heroínas das telenovelas, interpretando vilãs, prostitutas, mulheres sofredoras, todas centradas no seu jeito agudo e inteligente de ser e transmitir a sua arte.
Dina Sfat trazia uma beleza misteriosa, moldada a partir da personalidade. Olhos grandes, que portavam um olhar que penetrava na alma dos que se lhe pusesse na frente e do público, que por ela se deixava fascinar.
Infelizmente Dina Sfat partiu muito cedo, no auge da sua essência de mulher que se abria para a maturidade da vida. Em um país de pouca memória, deixou um legado rico e pronto para ser sempre redescoberto. Aos 50 anos de idade, Dina Sfat atravessou os palcos além das cortinas da vida, entrando para a galeria dos mitos do Brasil, sendo uma das mais carismática e talentosa atriz que já tivemos. Levou consigo a sua voz penetrante, a sua inquietude diante da vida, deixando-nos presos a uma saudade latente de uma grande mulher. Dina Sfat, com os seus olhos grandes e infinitos, seduz hoje os palcos do céu, os anjos da arte!

A Estréia no Teatro na Década de 1960

Dina Kutner de Souza nasceu em São Paulo, em 28 de outubro de 1938. Filha de imigrantes judeus poloneses, ninguém poderia imaginar que aquela menina aos 16 anos, quando começou a trabalhar em um laboratório de análises, tornar-se-ia uma das mais importantes atrizes brasileiras do século XX.
Sua estréia oficial seria na peça “A Rainha e os Rebeldes”, em São Paulo, em 1957, sob a direção de Maurice Francini. Profissionalizou-se a partir da peça “Antígone América”, em 1960, sob a direção de Antônio Abujamra. Depois do espetáculo, voltou ao amadorismo teatral, fazendo parte de um grupo estudantil do centro acadêmico da faculdade de engenharia da Universidade Mackenzie. No grupo fez, em 1962, duas peças de Bertolt Brecht: “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, sob a direção de Antônio Ghigonetto e “Os Fuzis da Senhora Carrar”, sob a direção de Emílio Di Biasi.
Desde sempre, Dina Sfat descobrira o talento para as artes, sonhando sempre em ser uma atriz. Em 1962 entrou em contacto com o histórico Teatro de Arena. Foi chamada, em 1963, para integrar o elenco da peça “O Melhor Juiz, o Rei”, de Lope de Vega, sob a direção de Augusto Boal. Muito jovem, e para evitar a exposição da família, a atriz mudou o nome Kutner para Sfat, uma homenagem à cidade natal da sua mãe. Nascia oficialmente, a atriz Dina Sfat.

Do Teatro Engajado à Luta Contra a Ditadura Militar

No Teatro de Arena, integraria o elenco de peças famosas dos anos 1960, como “Tartufo” (1964), de Molière; “Arena Conta Zumbi” (1965), musical de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, que lhe renderia o Prêmio Governador do Estado de São Paulo como melhor atriz. Ainda sob a direção de Augusto Boal, faria “O Inspetor Geral” (1966), de Nikolai Gogol; e, “Arena Conta Tiradentes” (1967), de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.
Em 1967, Dina Sfat aceitaria um grande desafio, substituir a atriz Ítala Nandi no elenco da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, encenada para o mítico Teatro Oficina, por José Celso Martinez Corrêa. Com esta peça, a atriz conquistaria não só o público paulistano, como a crítica do Rio de Janeiro.
No cenário político, o Brasil entrava para a fase mais obscura da sua história, quando os militares tomaram o poder através de um golpe de estado, em 1964.
As intervenções do Teatro de Arena e do Teatro Oficina, foram fundamentais para que não se calasse o artista, atuando sob o julgo da ditadura. É o chamado teatro engajado e politizado daquela década conturbada. Dina Sfat foi uma das atrizes do grupo que foi veemente em expressar as reivindicações pela liberdade e contra a opressão do regime. Sua inquietação diante da vida fez com que não abandonasse jamais a luta pela redemocratização do país enquanto a ditadura militar estivesse no poder; sua coerência inteligente, fez com que não se associasse a partido de esquerda algum, apesar de assumir as suas bandeiras publicamente.
Já nos anos 1980, quando a ditadura dava os seus últimos suspiros, Dina Sfat, então grande ícone da dramaturgia brasileira, ousava a dizer em público, a um poderoso militar, que tinha medo deles. Era uma afronta corajosa à truculência de um governo ilegítimo. Em 1984, chegou a anunciar que sairia candidata ao cargo de vice-presidente do Brasil pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), uma verdadeira declaração provocativa, visto que a sigla estava na clandestinidade, fazendo parte da chamada frente democrática do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Mesmo sendo vista pelos militares como líder feminista ligada à extrema esquerda, Dina Sfat jamais se filiou a qualquer sigla ou facção partidária. Foi uma mulher que soube observar o seu tempo e lutar contra a opressão, visando sempre a liberdade de um mundo melhor. Viveria poucos anos para ver os frutos da sua luta quando a democracia floresceu novamente no país, com o fim do regime militar em 1985.

A Atriz no Cinema

Já no inicio da carreira, Dina Sfat revelou o seu grande talento para atuar diante das câmeras. Marcou a sua estréia no cinema, em 1966, no filme “O Corpo Ardente”, de Walter Hugo Khouri.
Em 1969, Dina Sfat viveu com grande destaque e talento, a guerrilheira Cy, de “Macunaíma”, filme inspirado na obra homônima de Mário de Andrade, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Na película, contracenava com o ator Paulo José, velho conhecido dos tempos do Teatro de Arena, e a partir de então, oficializam uma relação estável de marido e mulher.
No cinema, a atriz atuaria em clássicos como “Álbum de Família” (1981), filme de Braz Chediak, baseado na obra homônima de Nelson Rodrigues; “Eros, o Deus do Amor” (1981), de Walter Hugo Khouri; “Das Tripas Coração” (1982), de Ana Carolina. Seu último filme, “O Judeu”, de Jom Tob Azulay, baseado na vida de Antônio José da Silva, escritor luso-brasileiro do século XVIII que morreu na fogueira da inquisição, foi feito em Portugal, na segunda metade da década de 1980, já com a atriz doente. Inacabado por falta de verba, o filme só iria estrear em 1996, sete anos após a morte da atriz.
A dimensão dramática de Dina Sfat alcançava a luz das telas com um magnetismo que poucas atrizes brasileiras conseguiu. Seu olhar domina o grande ecrã como se hipnotizasse a platéia em um fascínio singular.

Grande Estrela da Televisão Brasileira

Mas foi através da televisão, que Dina Sfat conquistou o amor de todos os brasileiros. Viveu personagens que marcaram época na história das telenovelas. Mesmo diante do grande sucesso televisivo, jamais se deixou seduzir por personagens lineares e caricatos. Arriscou grandes papéis, sem as amarras das heroínas habituais dos teledramas.
Sua estréia na televisão brasileira foi na novela “O Amor Tem Cara de Mulher”, em 1966, de Cassiano Gabus Mendes, baseada no original de Nenê Castellar, produzida pela extinta TV Tupi. Para a emissora paulista, fez ainda “Ciúme” (1966), de Thalma de Oliveira, e “A Intrusa” (1967), escrita por Geraldo Vietri. Passou pela extinta TV Excelsior, em “Os Fantoches” (1967), de Ivani Ribeiro. Em 1969, foi dirigida por Daniel Filho, na novela “Os Acorrentados”, de Janete Clair, feita sob encomenda do diretor no período que se desentendeu com a TV Globo, e, exibida pela TV Record e pela TV Rio.
A atuação de Dina Sfat no filme “Macunaíma” chamou a atenção de Dias Gomes, que a convidou, em 1970, para protagonizar a sua novela “Verão Vermelho”. Foi a estréia da atriz na TV Globo, coberta de grande sucesso, fazendo com que ela permanecesse na emissora carioca até a sua morte, em 1989. Durante as gravações da novela, a atriz ficou grávida da sua primeira filha, Bel Kutner. Magistralmente, fez outra grande personagem de Dias Gomes, na novela “Assim na Terra Como no Céu” (1970), tornando-se uma das atrizes preferidas do dramaturgo.
Em 1971, voltaria a interpretar uma personagem de Janete Clair, em “O Homem Que Deve Morrer”, ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes. A partir de então, a autora requisitaria a sua presença em vários papéis marcantes, feitos sob medida para ela, como a densa e louca Fernanda, de “Selva de Pedra” (1972), personagem que ganhou grande popularidade na época, abalando o público brasileiro com a sua insanidade passional. Dina Sfat teve nesta personagem, a possibilidade de desenvolver todo o seu potencial delineado pela paixão que emanava do seu eu.
Em 1975, fez uma pequena participação especial na novela “Gabriela”, de Walter George Durst, baseada na obra de Jorge Amado. Apesar de aparecer apenas nos primeiros capítulos, vivendo a prostituta Zarolha, a atriz dominou a cena, obtendo um grande sucesso entre o público. Walter Avancini, o diretor da novela, era o preferido de Dina Sfat, que dizia, jamais recusar qualquer papel sendo proposto por ele.
Em 1977, Janete Clair escreveu um papel sob medida para a atriz, a fascinante Amanda, protagonista da novela “O Astro”. O folhetim tornou-se um clássico da teledramaturgia brasileira. Dina Sfat terminou a década de 1970 como contratada exclusiva da TV Globo, uma honra só para os grandes astros da época, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Francisco Cuoco e Regina Duarte.
Dina Sfat participou da última novela escrita por Janete Clair, “Eu Prometo”, em 1983. Na trama, tinha como uma das suas filhas, a então estreante Malu Mader.
Em 1979 aceitou o desafio de fazer Paloma Gurgel, personagem central da novela "Os Gigantes", de Lauro César Muniz. Texto difícil, pouco carismático, teve a rejeição do público e da própria atriz. Mesmo assim, no papel de uma mulher que cometia eutanásia no irmão gêmeo e suicidava-se para fugir às leis e à prisão, Dina Sfat teve um dos momentos mais densos e sublime do seu esplendor dramático dentro da televisão brasileira.
Seu último trabalho na televisão foi a Laura de “Bebê a Bordo”, em 1988, novela de Carlos Lombardi. Bastante debilitada pelo câncer, a atriz lutou bravamente para concluir este que ela sabia, seria o seu último trabalho. Acometida por fortes dores, a sua participação foi bastante reduzida na trama, que ela concluiu bravamente poucos meses antes de vir a falecer. Sua passagem pela televisão, foi um dos maiores marcos da história das telenovelas. Daniel Filho costuma dizer que, Dina Sfat muitas vezes reclamava e odiava fazer determinados personagens, mas jamais os interpretara mal.

A Personalidade

Preferida dos grandes autores, diretores, críticos e público, Dina Sfat seduziu o Brasil e os países para onde a teledramaturgia brasileira foi exportada. Era uma mulher que jamais deixou que se lhe invadisse a privacidade, sendo uma mãe atenciosa e dedicada às três filhas, Bel, Ana e Clara, frutos do seu casamento com Paulo José, que durou 17 anos. Na intimidade, a estrela dava passagem para a mãe amorosa e atenciosa.
Na vida pública, suas frases desencadearam grandes polêmicas, como a criada com os homossexuais, quando declarou que os teatros estavam a ser tomados por eles, não restando mais espaço para ninguém. A declaração foi feita com humor, não com homofobia, numa época que estreavam várias peças com temática homossexual pelos palcos do Brasil. O público gay, que lhe tinha grande adoração, reagiu e ela, inteligentemente, explicou o que tinha dito.
Em 1985, tentando uma pausa nas novelas e no teatro, ela decidiu dedicar o ano às filhas, partindo com elas para Portugal, onde fixaria residência por algum tempo. Sua viagem pela Europa foi interrompida pela descoberta de um câncer, em 1986. Lutadora, Dina Sfat decidiu por adotar tratamentos não convencionais no combate à doença, o que teve a desaprovação dos amigos, tementes por sua saúde e pela expansão da doença.
Mesmo doente, a atriz jamais deixou de trabalhar. Em viagem de tratamento à União Soviética, ao lado de Daniel Filho, realizou o documentário “Dina Sfat na União Soviética” (1988), que falava entre outras coisas, da então incipiente Perestroika.
De volta ao Brasil, lançou-se de cabeça na novela “Bebê a Bordo”, onde atuou já bastante debilitada. A atriz sabia que tinha chegado ao crepúsculo de uma vida excepcional, voltada para os palcos e à arte, e trazia como sonho encerrar aquele, que seria o seu último trabalho. Aos poucos, a sua participação na novela foi reduzida, mas ela encerrou o trabalho bravamente, com a dignidade que lhe era peculiar. O último capítulo de “Bebê a Bordo” foi ao ar em 11 de fevereiro de 1989, Dina Sfat veio a falecer em 20 de março daquele ano, aos 50 anos de idade. Pouco tempo antes de morrer, lançou a sua autobiografia “Dina Sfat – Palmas Pra Que Te Quero”, escrita em parceria com a jornalista Mara Caballero, mais uma vez lançando polêmicas, a última de uma grande carreira, feita por uma grande mulher, movida pela arte e pela paixão. Ninguém lhe herdou a técnica cênica, Dina Sfat foi única no cenário brasileiro. Sedutoramente inesquecível!

Televisão

Telenovelas:

1966 – O Amor Tem Cara de Mulher (TV Tupi)
1966 – Ciúme (TV Tupi)
1967 – A Intrusa (TV Tupi)
1967/1968 – Os Fantoches (TV Excelsior)
1969 – Os Acorrentados (TV Record)
1970 – Verão Vermelho (TV Globo)
1970/1971 – Assim na Terra Como no Céu (TV Globo)
1971/1972 – O Homem Que Deve Morrer (TV Globo)
1972/1973 – Selva de Pedra (TV Globo)
1973/1974 – Os Ossos do Barão (TV Globo)
1974/1975 – Fogo Sobre Terra (TV Globo)
1975 – Gabriela (TV Globo)
1976 – Saramandaia (TV Globo)
1977/1978 – O Astro (TV Globo)
1979/1980 – Os Gigantes (TV Globo)
1983/1984 – Eu Prometo (TV Globo)
1988/1989 – Bebê a Bordo (TV Globo)

Minisséries:

1982 – Avenida Paulista (TV Globo)
1984 – Rabo de Saia (TV Globo)

Séries:

1971 – A Pérola (Caso Especial – TV Globo)
1972 – Sombra de Suspeita (Caso Especial – TV Globo)
1973 – As Praias Desertas (Caso Especial – TV Globo)
1973 – O Preço de Cada Um (Caso Especial – TV Globo)
1976 – Quem Era Shirley Temple? (Caso Especial – TV Globo)
1978 – O Caminho das Pedras Verdes (Caso Especial – TV Globo)
1978 – A Morte E a Morte de Quincas Berro D’Água (Caso Especial – TV Globo)
1979 – Aplauso – Episódio Véu de Noiva (TV Globo)
1980 – Malu Mulher – Episódio A Trambiqueira (TV Globo)
1983 – Mandrake (Caso Especial – TV Globo)

Cinema

1966 – O Corpo Ardente
1966 – Três Histórias de Amor
1968 – Edu, Coração de Ouro
1968 – A Vida Provisória
1969 – Macunaíma
1970 – Perdidos e Malditos
1970 – Jardim de Guerra
1970 – Os Deuses e Os Mortos
1971 – O Barão Otelo no Barato dos Bilhões
1971 – Gaudêncio, o Centauro dos Pampas
1971 – O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil
1971 – A Culpa
1973 – Tati, A Garota
1981 – Eros, O Deus do Amor
1981 – Álbum de Família
1982 – O Homem do Pau-Brasil
1982 – Tensão no Rio
1982 – Das Tripas Coração
1988 – Fábula de la Bella Palomera
1996 – O Judeu (feito em 1988)

Teatro

Interpretação:

1957 – A Rainha e os Rebeldes
1960 – Antígone América
1962 – Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz não
1962 – Os Fuzis da Senhora Carrar
1963 – O Melhor Juiz, o Rei
1964 – O Filho do Cão
1964 – Depois da Queda
1964 – Tartufo
1965 – Arena Conta Zumbi
1966 – O Inspetor Geral
1967 – Arena Conta Tiradentes
1967 – O Rei da Vela
1967 – Os Inconfidentes
1970 – Black Comedy
1973 – Dorotéia Vai à Guerra
1974 – O Colecionador
1975 – A Mandrágora
1977 – Seis Personagens à Procura de Um Autor
1979 – Murro em Ponta de Faca
1980 – Transaminases
1981 – As Criadas
1982 – Hedda Gabler
1984 – A Irresistível Aventura
1986 – Florbela Espanca (Encenada em Portugal)

Produção:

1982 – Hedda Gabler
1986 – Ninguém Paga, Ninguém Paga

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domingo, 30 de outubro de 2011

Dina Sfat brilhou em O rei da Vela

O rei da vela

Manifesto Oficina

José Celso Martinez

Última Hora, 5 de fevereiro de 1968.

Nós somos muito desenvolvidos para reconhecer a genialidade da obra de Oswald. Nosso ufanismo vai mais facilmente para a badalação do óbvio sem risco do que para a descoberta de algo que mostre a realidade de nossa cara verdadeira. E é verdade que a peça não foi levada nem até agora, nem a sério. Mas hoje que a cultura internacional se volta para o sentido da arte como linguagem, como leitura da realidade através das próprias expressões de superestrutura que a sociedade espontaneamente cria, sem mediação do intelectual (história em quadrinhos, por exemplo) a arte nacional pode subdesenvolvidamente também, se quiser, e pelo óbvio, redescobrir Oswald. Sua peça está surpreendentemente dentro da estética mais moderna do teatro e da arte visual. A superteatralidade, a superação mesmo do racionalismo brechtiano através de uma arte teatral síntese de todas as artes e não-artes, circo, show, teatro de revista etc.

A direção será uma leitura minha do texto de Oswald e vou me utilizar de tudo que Oswald utilizou, principalmente de sua liberdade de criação. Uma montagem tipo fidelidade ao autor em Oswald é um contra-senso. Fidelidade ao autor no caso é tentar reencontrar um clima de criação violenta em estado selvagem na criação dos atores, do cenário, do figurino, da música etc. Ele quis dizer muita coisa, mas como mergulhou de cabeça, tentando fazer uma síntese afetiva e conceitual do seu tempo, acabou dizendo muito mais do que queria dizer.

A peça é fundamental para a timidez artesanal do teatro brasileiro de hoje, tão distante do arrojo estético do Cinema Novo. Eu posso cair no mesmo artesanato, já que há um certo clima no teatro brasileiro que se respira, na falta de coragem de dizer e mesmo possibilidade de dizer o que se quer e como se quer.

Eu padeço talvez do mesmo mal do teatro do meu tempo, mas dirigindo Oswald eu confio me contagiar um pouco, como a todo o elenco, com sua liberdade. Ele deflorou a barreira da criação no teatro e nos mostrou as possibilidades do teatro como forma, isto é, como arte. Como expressão audio-visual. E principalmente como mau gosto. Única forma de expressar o surrealismo brasileiro. Fora Nelson Rodrigues, Chacrinha talvez seja o seu único seguidor sem sabê-lo.

O primeiro ato se passa num São Paulo, cidade símbolo da grande urbe subdesenvolvida, coração do capitalismo caboclo onde uma massa enorme, estabelecida ou marginal, procura através da gravata ensebada se ligar ao mundo civilizado europeu. Um São Paulo de dobrado quatrocentão, que somente o olho de Primo Carbonari consegue apanhar sem mistificar. O local da ação é um escritório de usura, que passa a ser a metáfora de todo um país hipotecado ao imperialismo. A burguesia brasileira lá está retratada com sua caricatura – um escritório de usura onde o amor, os juros, a criação intelectual, as palmeiras, as quedas d’água, cardeais, o socialismo, tudo entra em hipoteca e dívida ao grande patrão ausente em toda ação e que faz no final do ato sua entrada gloriosa. É um mundo kafkiano, onde impera o sistema da casa. Todo ato tem uma forma pluridimensional, futurista, na base do movimento e da confusão da cidade grande. O estilo vai desde a demonstração brechtiana (cena do cliente) ao estilo circense (jaula), ao estilo de conferência, teatro de variedades, teatro no teatro.

O segundo ato é o ato da Frente Única Sexual passado numa Guanabara. Utopia de farra brasileira, uma Guanabara de telão pintado made in the States, verde e amarela. É o ato de come vive, como é o ócio do burguês brasileiro. O ócio utilizado para os conchavos. A burguesia rural paulista decadente, os caipiras trágicos, personagens de Jorge de Andrade e Tenessee Williams vão para conchavar com a nova classe, com os reis da vela e tudo sob os auspícios do americano. A única forma de interpretar essa falsa ação, essa maneira de viver pop e irreal, é o teatro de revista, a Praça Tiradentes. Assim como São Paulo é a capital de como opera a burguesia progressista, na comédia da seriedade da vida do businessman paulistano, na representação através dos figurinos engravatados e da arquitetura que, como diz Levy-Strauss, parece ter sido feita para se rodar um filme. O Rio, ao contrário, é a representação, a farsa de revista de como vive o burguês, a representação de uma falsa alegria, de vitalidade que na época começava na Urca e hoje se enfossa na bossa de Ipanema.

O terceiro ato é a tragicomédia da morte, da agonia perene da burguesia brasileira, das tragédias de todas as repúblicas latino-americanas com seus reis tragicômicos vítimas do pequeno mecanismo da engrenagem. Um cai, o outro o substitui. Forças ocultas, suicídios, renúncias, numa sucessão de abelardos que não modifica em nada as regras do jogo. O estilo shakespeareano interpreta em parte principalmente através de análises do polonês Jan Kott esse processo, mas o mecanismo das engrenagens imperialistas – um mecanismo não é o da história feudal, mas o mecanismo um pouco mais grotesco, mesmo porque se sabe hoje que ele é superável, passível de destruição. A ópera passou a ser forma de melhor comunicar este mundo. E a música do Verdi brasileiro, Carlos Gomes, “O Escravo” e o nosso pobre teatro de ópera, com a cortina econômica de franjas, douradas, pintadas, passam a ser a moldura desse ato.

Aparentemente há desunificação. Mas tudo é ligado às várias opções de teatralizar, mistificar um mundo onde a história não passa do prolongamento da história das grandes potências. E onde não há ação real modificação na matéria do mundo, somente o mundo onírico onde só o faz-de-conta tem vez.

A unificação de tudo formalmente se dará no espetáculo através das várias metáforas presentes no texto, nos acessórios, no cenário, nas músicas. Tudo procura transmitir essa realidade de muito barulho por nada, onde todos os caminhos tentados para superá-la até agora se mostram inviáveis. Tudo procura mostrar o imenso cadáver que tem sido a não-história do Brasil destes últimos anos, à qual nós todos acendemos nossa vela para trazer, através de nossa atividade cotidiana, alento. 1933-1967: são 34 anos. Duas gerações pelo menos levaram suas velas. E o corpo continua gangrenado.

Minha geração, tenho impressão, apanhará a bola que Oswald lançou com sua consciência cruel e anti-festiva da realidade nacional e dos difíceis caminhos de revolucioná-la. Ela não está ainda totalmente conformada em somente levar sua vela. São os dados que procuramos tornar legíveis em nosso espetáculo. E volto para meu trabalho. E volto para meu trabalho, para a redação do espetáculo manifesto do Oficina. Espero passar a bola para frente com o mesmo impulso que a recebi. Força total. Chega de palavras: volto para o ensaio.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Augusto Boal - Força nas redes sociais

O teatro brasileiro no mundo tem um nome: Augusto Boal.
Acabei de assistir a uma belíssima homenagem do projeto Mitos do Teatro Brasileiro a Augusto Boal. Sérgio Maggio, se superou em todas as homenagens anteriores com um trabalho de direção, pesquisa e dramaturgia. Parabéns aos grandes atores Silvia Paes e J. Abreu, grande trabalho e também parabéns a todos nós que fomos atores nesta noite deste grande espetáculo.
Rose Gonçalves
Valeu muito, Sérgio Maggio! Obrigada Ccbb Brasília! Gostei de ver a querida Silvia Paes em ação e de saber que ela oferecerá curso de extensão sobre Teatro do Oprimido, na UnB. Adorei saber das novidades sobre o Instituto Augusto Boal ceder o acervo em comodato à UFRJ. Grande, profa Dra. Eleonora Camenietzki! Me diverti (e, como sempre aprendi) muuuuito, com os mestres Amir Haddad e Aderbal Freire Filho. E ainda bati papo sobe o Théâtre du Soleil com Cecília Boal, finíssima!!! Serginho, beijos mil! Precisamos tomar um café e pensar em coisas a fazer juntos.

Flávio Monteiro Rocha
Eu só queria Parabeniza-lo mais uma vez pelo belissimo trabalho que leva ao público brasileiro, mostrando suas grandes reliquias do Teatro Brasileiro, juntando as várias formas de fazer teatro! Colocando para nós artistas essa porta mágica que ao abrirmos descobriremos um mundo belissimo que nos faz crescer como atores e atrizes.

Michelle Bastos
Poucas vezes este ano eu tive o prazer de passar uma noite tão sublime e inspiradora dentro de um teatro. Parabéns Sérgio Maggio pela ideia e excelente execução do MITOS DO TEATRO BRASILEIRO! Estou torcendo para que o projeto ainda tenha muitos e muitos anos de edição!

Adeilton Lima Querido, posta as fotos!!! =)
19 de Outubro às 02:51 · Curtir (desfazer) · 2 pessoas

Doriel Francisco Parabens Sérgio Maggio, esse projeto é maravilhoso ontem foi fantastico. Boal é de maissssssssss
19 de Outubro às 08:32 · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Nirton Venancio Foi realmente uma noite inesquecível, meu caroSérgio! Queria que a noite não acabasse. Boal estava ali, em todos nós atores e espectadores. Lembrei-me muito de você, Adeilton: lembrança recorrente quando me encontro com o Teatro. Parabéns mais uma vez, Sérgio, pela idealização desse projeto.
19 de Outubro às 09:25 · Curtir (desfazer) · 3 pessoas

Áurea Liz Carvalho Parabéns Sérgio Maggio, por esse projeto maravilhoso, que movimenta Brasília. Beijo grande e Merda sempre!
19 de Outubro às 09:42 · Curtir (desfazer) · 2 pessoas

Jeff Moreira sucesso sempre
19 de Outubro às 10:10 · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Juliana Drummond Saí novamente inundada de emoções e muitas reflexões...! Quero um mundo melhor! Quero verde-vida esperança! Chorei na mesma intensidade da chuva da especial noite! Muito, muito, muito grata! Evoé amados amigos de palco e vida!
19 de Outubro às 10:38 · Curtir (desfazer) · 2 pessoas

Luana Fonteles Ontem foi um presente muito especial! Comovida até agora com tudo o que foi dito e vivido, e muito impressionada com o depoimento de Sérgio Maggio, um guerreiro! Muito feliz em fazer parte deste trabalho grandioso!
19 de Outubro às 13:02 · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Teí Silva Buaaaaaaaa, não pude ir....mais no próximo....
19 de Outubro às 13:09 · Curtir (desfazer) · 2 pessoas

Reduto Das Estrelas PARABÉNS PELO SUCESSO!!! ;)
19 de Outubro às 13:42 · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Camila Guerra Foi lindo!!!
19 de Outubro às 17:19 · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Moratto Paulo Rodrigues Pena eu não ter ido. Fiquei na duvida se matava aula de ZÉ REGINO ou se ia ao CCBB. Lamento pra mim. Sei que foi genial.
19 de Outubro às 19:51 · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Catarina Accioly Ahhh... louca pra ir, mas sem conseguir me desligar do trampo!!! Sorte Ouro Axé, amigo querido! Sinta-se beijado! Mande bjs para a equipe. ARREBENTEM!!!
19 de Outubro às 20:58 · Curtir (desfazer) · 2 pessoas
Sérgio Maggio Obrigado por tudo Carla Spegiorin Patrocínio;Âncora Comunicação/; Camila Costa
19 de Outubro às 22:11 · Curtir · 2 pessoas

Rogélia Heriberta Nós é que agradecemos por tudo e eu por me aturar... Bjjjj
19 de Outubro às 23:25 · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Silvia Paes Estou sem palavras pra dizer tudo que senti nesse evento de uma grandiosidade infinita! Agora só me resta agradecer por ter tido a oportunidade de atuar nesta linda homenagem a Boal. Beijos!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Teatro Subversão de palco e plateia


Foto Ronaldo Oliveira
Mariana Moreira
Acostumados a serem receptores da ação teatral, os espectadores do projeto Mitos do Teatro Brasileiro, que homenageou o diretor e dramaturgo Augusto Boal nesta terça-feira, viveram uma experiência diferente. Durante alguns instantes, foram deslocados para a posição de atores, ou espect-atores, para usar expressão cunhada pelo próprio homenageado. Antes dos depoimentos da noite, feitos por Amir Haddad, Aderbal Freire Filho e pela viúva do teatrólogo, Cecília Boal, os comandantes da parte cênica da homenagem, os atores J. Abreu e Sílvia Paes, apresentaram um impasse, baseado no Teatro do Oprimido, criado por Boal.
Diante do impasse, uma mulher que quer ensaiar um espetáculo mas é reprimida pelo marido, a plateia foi convidada a debater soluções possíveis, além de subir ao palco e encenar sua sugestão. O exercício rendeu cinco alternativas apresentadas pelo público.
Antes de relembrar o amigo, o diretor e professor de teatro Amir Haddad, pediu que as luzes do Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), fossem acesas. “Não combina com o Boal deixar a plateia mergulhada no escuro e o palco superavalorizado”, explicou.
Em seu tributo, Haddad ressaltou a grande contribuição dada pelo amigo ao teatro. “O teatro não depende do mistério. Essa desilusão faz parte da desmistificação. Todo mundo pode fazer teatro. Ele é uma atividade pública feita por particulares”, defendeu. Seu depoimento, de forte teor político, atribuiu a Boal um esforço para liberar o teatro de uma opressão ideológica imposta pela sociedade burguesa capitalista.
Após assistir à cena que evoca os tempos em que o homenageado dirigiu o show Opinião, Aderbal Freire-Filho fez questão de incluir Boal no panteão de mestres universais da cena. “O Teatro do Oprimido é, merecidamente, seu legado mais conhecido. Mas ele era um mestre e mestres não podem ser contidos em uma criação. O autor Boal eram muitos. O diretor, também”, exemplificou Freire-Filho, que citou a criação do artista-cidadão como uma das principais contribuições do diretor.
O desfecho ficou por conta da mulher do artista, Cecília Boal, que revelou sua preocupação com uma abordagem menos política e mais superficial do legado do marido. “Essa quebra dos limites entre o palco e a plateia é um convite à transgressão, mas precisa seguir regras. É importante que seja uma assembleia onde se pensa junto, e de onde se pode sair com uma possibilidade de ação concreta”, reforçou ela. “ Augusto Boal é como Raul Seixas: vai ficando cada vez melhor”, concluiu Amir Haddad.
Tributos -- O projeto, que revisita as trajetórias de grandes nomes das artes cênicas nacionais, já homenageou Dulcina de Moraes, Dercy Gonçalves, Procópio Ferreira, Nelson Rodrigues, Cacilda Becker, Chico Anysio, Maria Clara Machado, Plínio Marcos, Lélia Abramo e Paulo Autran. A temporada se encerra em 22 de novembro, com um tributo à atriz Dina Sfat.