Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.
sábado, 19 de janeiro de 2013
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Mil vidas: Paulo Gracindo
Sérgio Maggio
Pelópidas virou Paulo porque ninguém acertava chamá-lo como o nome de batismo. A gota d’água foi a
Um dos grandes personagens de Paulo no teatro foi Herodes em Salomé, de Oscar Wilde com direção de Martim Gonçalves. Havia um burburinho na plateia após as sessões. “Que ator é esse?”, referindo-se a Gracindo. “O seu Herodes era extraordinário! Ele se expunha, não tinha medo do ridículo, se atirava, ia com tudo dentro da cena. Parecia que não tinha nada a perder, nunca”, lembra Paulo José.
Um marco na carreira de Paulo Gracindo foi como Pimentel em A falecida, adaptação de Nelson Rodrigues para o cinema por Leon Hirszman. Para convencer Ziembinski a levar Paulo para O santo inquérito, mesmo com a indicação de Dias Gomes, foi preciso levá-lo para ver o filme. “Um trabalho magnífico de Paulo Gracindo”, resumia Ginaldo de Souza, um dos produtores.
Em A falecida, Paulo Gracindo contracenava com uma das patners preferidas, Fernanda Montenegro. “Na hora da ação, entrava um monstro de um ator altamente preparado, qualificado e com uma bagagem de estudo do seu personagem que não vi em nenhum outro ator com quem eu tenha trabalhado na vida”
Na televisão, se cometer um erro, volta atrás e refaz. O teatro é implacável. Você não pode pedir desculpas e voltar atrás de jeito nenhum”
Um dos grandes sucessos de Paulo Gracindo nos palcos foi Brasileiro, profissão: esperança, musical de Paulo Pontes com direção de Bibi Ferreira. Ele dividiu a cena com Clara Nunes.
O gigante Paulo Gracindo
Um dos maiores atores do rádio, teatro, cinema e televisão, Paulo Gracindo ganha livro que refaz a trajetória de um mito centenário
Sérgio Maggio
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| O eterno Odorico com as Cajazeiras |
A tevê não tinha se instituído como o elo de integração nacional, que consolidaria a indústria cultural no Brasil, mas o intérprete e locutor Paulo Gracindo (1911 - 1995) já fazia parte do cotidiano dos brasileiros. Ali, de ouvidos encostados no rádio, ele arrancava lágrimas como Albertinho Limonta, o mocinho da radionovela O direito de nascer, e gargalhadas no papel de o Primo Rico em Balança mas não cai. Já estava traçado aí o caminho para a construção de um mito de ator, amplificado pelo teatro, cinema e televisão.
No ano 1938, o jovem Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo já tinha se transformado no comunicador Paulo Gracindo, estrela da Rádio Nacional, testemunha ocular no nascimento de grandes estrelas da MPB. Até chegar ao status de apresentador e ator, empenhou uma luta pessoal contra a tradição familiar. Queria ser ator de teatro, mas o pai, Demócrito, político influente das Alagoas, tinha decretado que se o filho subisse no palco, ele subiria no palco e o arrancava de lá pela gola. Não havia outro jeito. O rapaz predestinado fugiu pro Recife, com a roupa do corpo e o dinheiro no bolso, e foi saciar a sede de liberdade. Meses depois, soube que o pai tinha ficado doente de tristeza. Voltou e o encontrou de coração manso.
— Infelizmente, meu pai não pôde curtir esse novo pai, que faleceu em 1928, quando o filho tinha apenas 17 anos, conta Gracindo Junior no livro Um século de Paulo Gracindo, o eterno bem-amado.
Escrita em parceria com o pesquisador Mauro Alencar, a obra é um registro importantíssimo para proteger a memória de um dos mais importantes intérpretes do Brasil no século 20. Ele que, quando pisou no palco ainda estava no útero da mãe, Argentina, na cerimônia de inauguração do Teatro Deodoro, construído pelo pai, Demócrito Gracindo, à época que era intendente da capital de Alagoas, é um dos protagonistas da nacionalização da dramaturgia brasileira (seja no teatro, no cinema, e na novela), aproximando-se, nos anos 1950 e 1960, de autores como Dias Gomes. Paulo Gracindo estava no elenco de Santo inquérito (1966), marco do teatro nacional, ao lado de Rubens Corrêa, Eva Wilma e Jayme Barcellos, todos sob a direção de Ziembinski.
— A peça teve uma receptividade fantástica e acabou por colocar Dias Gomes no lugar que sempre lhe coube, de grande autor, ele que, na ocasião, tentava sobreviver escrevendo novelas com pseudônimo, amparado pela mulher, Janete Clair, a maior novelista da Rádio Nacional na época. Suas carreiras, a dele e a de Paulo Gracindo, caminharam juntas a partir de O santo inquérito, conta Gracindo Júnior.Grandes companhias
Com 80 espetáculos, Paulo Gracindo passou por várias escolas teatrais. Começou com Dulcina de Moraes, passou pelas companhias de Alda Garrido, Procópio Ferreira e Elza Gomes, trabalhou com grandes diretores, a exemplo de Martim Gonçalves e Bibi Ferreira.— Paulo era um grande ator, um grande profissional, mas fez pouco teatro. Minha mágoa é essa, porque Paulo era daqueles que usa o teatro por felicidade, por amar, por gostar. O teatro era o grande amor da vida, defende Bibi Ferreira.
Foi, aliás, o primeiro ganha-pão, quando perambulava pelo Rio em busca de uma oportunidade nos palcos.
— Como é que um jovem que vem de Maceió estreia no teatro? Era muito complicado. E ele não tinha passado de pais atores, de tios… Não sabia nada da arte de representar, não tinha nenhuma manto sagrado na representação. Ele era apenas um ator. E bonito, com licença, era um homem muito bonito, e ele sabia! E era tomando um cafezinho que ele dizia: Olha o seu Procópio; olha o seu Jaime Costa. E assim ele foi entrando. Foi conquistando as pessoas socialmente que Paulo Gracindo começou a carreira dele no Rio de Janeiro, lembra Bibi.
De figurante a mito celebrizado em todas as linguagens, Paulo Gracindo foi virando uma unanimidade. A construção de tipos brasileiros, vindo, sobretudo, da matriz dramatúrgica de Dias Gomes, o celebrizou. Ícone das telenovelas, o personagem Odorico Paraguaçu (O bem amado) atravessa os dias. A imagem do prefeito populista, corrupto e enrolador ainda permanece como uma metáfora do político brasileiro, mesmo nessa fase de transição das eleições do Ficha Limpa. O bicheiro Tucão (Bandeira 2), o coronel Ramiro Bastos (Gabriela) e o aristocrata decadente Antenor (Os ossos do barão), numa época que a televisão bebia do teatro e da literatura.
Ator no camarim:

“Eu não tenho preocupação. Sou uma pessoa que entro frio, mas entro com a consciência do meu personagem. Não tenho essa preocupação de me preparar, entro e vivo o personagem com toda a naturalidade”
“É por isso que sempre estudei muito, precisava estudar pra suprir essa falta de memória. Tenho que insistir no texto. Horas, horas e horas repetindo”
“Sempre me perguntaram se eu fico nervoso a cada estreia. Todos nós ficamos nervosos, pelo respeito à atuação e pelo respeito ao público. A cada público, eu me sinto como um domador a cada leão diferente. O ator aprende todos os dias, ele morre aprendendo. Sempre que você leva uma peça ao público, você se sente num púlpito mandando a sua mensagem”
“Nós gostamos de nos exibir, porque o público gosta da gente. Essa ansiedade que tenho, de viver muito, extravaso através dos personagens que faço. É maravilhoso você viver muitas vidas. Tenho pena de quem vive uma vida só”
“Eu sempre espero o público. O público jamais esperou de mim”
“Tenho vontade de fazer teatro de Shakespeare. Já está na hora de encerrar minha carreira e eu não fiz Shakespeare, não tive essa oportunidade. Esse é um desafio que não tive”
CINCO BEM-AMADOS:
1 - O povo de Sucupira ficou diante de um prefeito que era a síntese do político brasileiro nos anos 1970, na novela O bem-amado, de Dias Gomes. Corrupto, enrolador, malandro, carismático e dono de um português próprio, Odorico Paraguaçu até hoje é um ícone da teledramaturgia.

ODORICO — É incrível que está cidade mui justamente chamada, apelidada e, por não dizer, cognominada “a pérola do norte” (…) ainda não tenha um lugar para enterrar os seus mortos.
2 - O bicheiro Tucão, de Bandeira 2, de Dias Gomes, trouxe um Paulo Gracindo mais solto, mais brasileiro, diferente dos tipos que estava fazendo sob a batuta da cubana Glória Magadan. O ator dominou a novela de ponta a ponta e, nas ruas, só se falavam em Tucão.
TUCÂO — Misturar bicho com defunto… Até que é bem bolado. E o dono topa? É bem bolado, hein! Negócio é joia. Sabe que tu tá ficando inteligente? Eu acho que é a convivência comigo.
3 - Um quatrocentão paulista, cheio de tradição, marcou a carreira de Paulo Gracindo, pela interpretação sofisticada como Antenor em Os ossos do barão, de Jorge Andrade. O personagem era ápice do conflito de gerações e se debatia com a mudança dos costumes.

ANTENOR — Eu vou acabar com essa estrangeira toda na minha família!
4 - O coronel, símbolo maior do poder feudal da obra de Jorge Amado, esteve nas mãos de um ator que o enriqueceu de contradições, afastando a possibilidade de torná-lo um vilão estereotipado. O sofrimento dele diante das regras severas que impõem à neta Gerusa é um dos grandes trunfos da novela.

RAMIRO BASTOS — Me perdoe, minha neta. É isso mesmo, é como se diz, a vida não é mais do que isso. É só fazer sofrer os que mais a gente ama.
5 - Uma das novelas mais engenhosas dos anos 1970, O casarão, de Lauro César Muniz, deu a Paulo Gracindo um personagem rico de afetos. João Maciel era um boêmio apaixonado pela vida, que amava ternamente, na velhice, Carolina (Yara Cortes)

JOÂO MACIEL — Eu vim a esta cidade à procura de uma verdade. Eu vim em busca de mim mesmo, de uma sensação de felicidade que ficou perdida no tempo. Uma sensação que eu tenho em plena consciência de que existiu e que nunca mais eu pude… curtir.
UM SÉCULO DE PAULO GRACINDO

De Gracindo Júnior e Mauro Alencar. Gutenberg Editora. 256 páginas. R$ 57.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Thelma Reston, uma atriz de todos os tempos
Sérgio Maggio
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| Foto: TV Globo/Divulgação Na ativa, Thelma Reston tinha acabado de brilhar no teatro e na tevê: vida dedicada à arte |
Thelma Reston estava feliz com os mimos profissionais colhidos em uma vida dedicada ao ofício de atriz de teatro, de cinema e de televisão. A última personagem de novelas, Dona Violante, de Aquele beijo, a enchia de orgulho. A cada capítulo, a velha senhora crescia em cena a ponto do autor Miguel Falabella ter que aumentar mais e mais a sua participação. “Ele está escrevendo mais falas para mim. Adoro. Aliás, aquele núcleo dos gordos é maravilhoso. São atores fantásticos”, comentava. Thelma era assim, extremamente generosa com antigos e novos amigos. Se alguém ligava para ela com um convite de trabalho e por algum motivo ela não podia fazer, rapidamente sugeria alguma substituta à altura. Esse companheirismo era uma das marcas dessa grandiosa atriz goiana, que morreu ontem aos 73 anos, vítima de câncer.
Durante as gravações de Aquele beijo, Thelma chegou a ser afastada. Tinha passado por uma cirurgia no útero, mas se recuperava bem. “Falei com ela faz pouco tempo. Estava ótima, bem-humorada e cheia de energia. No começo de 2013, íamos fazer, aqui no meu apartamento, a leitura do roteiro de Cabaré das Donzelas Inocentes”, conta o cineasta Dannon Lacerda, referindo-se ao primeiro longa-metragem dele, no qual ela teria um papel de destaque.A morte de Thelma Reston pegou a todos de surpresa. “Minha amiga de tantos anos foi pro andar de cima. Ainda pude homenageá-la em Aquele beijo, na qual ela fez a hilária Dona Violante, a ladra contumaz. Eternas saudades desse seu amigo, que hoje apenas recolhe as lembranças de toda uma vida e chora”, lamentou Miguel Falabella em seu perfil no Facebook.
Neste ano, centenário de Nelson Rodrigues, Thelma Reston era uma das personalidades mais requisitadas para entrevistas e participações em palestras. Ela foi uma atriz que passou por quase todas as estreias da dramaturgia do autor de Vestido de noiva. Ela estava lá, em 1960, em A falecida, numa ousada direção de Rubens Corrêa. “Há uma predestinação que traz Thelma Reston para o meu teatro e meus filmes. Posso dizer que ela percorreu meus textos. Faço também questão de confessar que sou seu admirador há muito tempo. Bem sei que o brasileiro admira pouco. Não tenho este defeito horrendo. Admiro Thelma Reston e cada vez mais. Direi, por fim, que é uma grande atriz”, avaliava Nelson Rodrigues.
Os filmes baseados na obra de Nelson Rodrigues também foram palco para Thelma Reston brilhar. Em Os sete gatinhos, de Neville D’Almeida, ela fez A Gorda. E é dona de uma das cenas antológicas na cinematografia nacional ao se revelar quem era o verdadeiro autor dos “caralhinhos de asas” desenhados na parede da casa. Fez ainda Terra transe, de Glauber Rocha, numa filmografia ímpar com mais de 40 obras.
Revolucionária
Thelma Reston é uma atriz que está na base da renovação do teatro brasileiro. Estreou sob a direção de duas divas, Dulcina de Moraes e Henriette Morineau, com Tia Mame, em 1959. Depois, lançou-se nos palcos como os novos, passando pelos grupos Teatro Ipanema, de Rubens Corrêa e Ivan Albuquerque; Centro Popular de Cultura (CPC), Teatro Jovem, Grupo Opinião e Teatro Oficina. Intuitiva e autodidata, era uma atriz desejada por diretores do porte de Ziembinski, Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, Martim Gonçalves e Flávio Rangel. Entre as dezenas de montagens, estão as históricas O balcão, de Jean Genet, com produção de Ruth Escobar e direção de Victor Garcia; O casamento do pequeno burguês, de Luis Antônio Martinez Corrêa; e A Ópera do Malandro, de Chico Buarque.
Mesmo cobiçada pelo cinema e pela tevê, seguiu firme no teatro, trabalhando, nos anos 1970, na Companhia de Dina Sfat, que a tinha como uma atriz “pé de coelho” e uma amiga de todas as horas, da qual não podia abrir mão. O último trabalho nos palcos foi em A cantora careca (2011), dirigido pela amiga Camila Amado e com outra “irmã” em cena, Maria Gladys. A peça fez temporada de casa cheia no Rio o que deixou Thelma Reston em estado de graça.
domingo, 25 de novembro de 2012
domingo, 18 de novembro de 2012
Grandes Atrizes que o Brasil Esqueceu - Lucília Peres
Lucília Peres na Grande Companhia Dramática do Teatro da Exposição Nacional, empresa fundada por Artur Azevedo. Belém, Pará (1908).
Atrizes que o Brasil esqueceu - Lucília Peres: Filha do ator Gil Ribeiro e da atriz Olívia Montani, nasceu em Lorena (SP) a 6 de março de 1881. Casou-se com o escritor teatral Álvaro Peres, de quem logo ficou viúva. Trabalhou nas companhias de Cristiano de Souza e Dias Braga, tornando-se rapidamente uma estrela. Tornou-se uma promissora empresária teatral no século 20. Primeiro montou a Companhia Lucília Peres. Depois, aliou-se ao astro Leopoldo Fróes, e, juntos, abriram uma grandiosa empresa teatral. O grande Arthur Azevedo, encantado com sua versatilidade de atriz, escreveu para ela a peça "O dote e fonte da castália". Durante anos, Lucília foi a primeira atriz de sua companhia. No Rio, ela ocupava os principais teatros da época (Ápolo, João Caetano, Trianon) com espetáculos variados que emendavam um no outro. Às vezes, com uma semana em cartaz. Às vezes, com uma semana em cartaz. Lucília, que morreu em 1962, estava no elenco da peça Loucuras do imperador (1958), na qual estreava Fernanda Montenegro. Na estreia, após a sessão, ela fez um discurso comovido sobre a atuação daquela moça, anunciando que nascia ali uma grande atriz. O espetáculo tinha o Ponto e Fernanda ficou atrapalhada, ela já vinha de um teatro amador moderno. Mas Lucília precisa do Ponto e foi uma loucura. O público gritava ao final do espetáculo. Ave, Lucília Peres.
Por Cafu
Essa grande dama do teatro brasileiro nasceu em Lorena-SP, sendo seus pais o ator Gil Ribeiro e a atriz Olimpia Montani. Foi casada com o dramaturgo e teatrólogo Álvaro Peres.
Artur Azevedo escreveu para ela representar A Fonte Castalia e O Dote.
A Fonte Castalia é uma comédia desenvolvida de um quadro da sua revista Viagem ao Parnaso e estreou no Teatro Recreio a 7 de julho de 1904. No elenco constavam: Lucília Peres, Ferreira de Souza, Olimpio Nogueira, Alfredo Silva, João Barbosa, Delorme, Marzullo, Bragança, Helena Cavalier, Pepa Delgado.
De acordo com Lafayette Silva, em seu livro História do Teatro Brasileiro, a peça conta “a história de um rapaz, Gilberto, pretendente à mão de Laura, filha de um burguês que tinha preocupação de ser poeta e adorava os favoritos das musas. O pai da menina exige que o pedido de noivado lhe seja feito em verso. Condição sine qua non... Gilberto embaraça-se, desanima, mas Vênus providencialmente apresenta-se em seu auxílio e conduz o rapaz enamorado ao monte Parnaso, onde ele, sofregamente, bebe a água milagrosa da fonte Castalia e ganha o dom da poesia. Graças a isso, não só consegue Gilberto a mão de Laura, como transmite o dom da poesia ao sogro, para quem trouxe uma garrafa do precioso líquido.”
O Dote estreou em 2 de abril de 1907, também no Teatro Recreio. A idéia nasceu de uma crônica, Reflexões de um Marido, de Julia Lopes de Almeida, publicada em dezembro do ano anterior no O País.
Lucília Peres também foi a atriz principal da Companhia Dramática, fundada por Artur Azevedo, e que ocupou, em agosto de 1908, o Teatro João Caetano, no recinto da Exposição Nacional, na Praia Vermelha. A companhia estreou, em récita de gala, com a peça O Quebranto, comédia em três atos de Coelho Neto. O elenco era composto por alguns dos melhores nomes do drama e da comédia da época. Os atores: Ferreira de Souza, Alfredo Silva, Francisco Marzullo, Antônio Ramos, João de Deus, Cândido Nazareth e Tavares. As atrizes: Lucília Peres, Cinira Apolônio, Gabriela Montani, Luiza de Oliveira, Natalina Serra, Estefânia Louro e Julieta Pinto. O diretor, seu marido, Álvaro Peres.
Por três meses seguidos foram levados à cena, para os visitantes da Exposição, os seguintes originais brasileiros: O Quebranto, Coelho Neto; Sonata ao Luar, Goulart de Andrade; A Herança, Júlia Lopes de Almeida; As Doutoras, França Júnior; O Noviço, Martins Pena; Romançe de uma Moça Rica, Pinheiro Guimarães; O Defunto, Felinto de Almeida; Não Consultes Médico, Machado de Assis; Os Irmãos das Almas, Martins Pena; Vida e Morte, a última peça de Artur de Azevedo; Duelo no Leme, José Piza; O Dote, Artur de Azevedo; A Nuvem, Coelho Neto; Eterno Romance, lever de rideau, Agenor de Carvoliva; Carta Anônima, Figueiredo Coimbra; e Desencanto, Carmem Dolores.
Segundo Mario Nunes, “Algumas dessas peças foram levadas à cena mais de uma vez. O teatro era ocupado por outras companhias itinerantes, nele se realizavam concertos e conferências; a falta de continuidade dos espetáculos da companhia influía prejudicialmente na freqüência do público; e bem assim, as outras diversões no recinto da Exposição.
Artisticamente porém, o êxito foi satisfatório. Trabalhava ainda ali a companhia quando Artur faleceu; adotou ela então, como justa homenagem, o nome do ilustre homem de teatro, realizando, depois, espetáculos no Carlos Gomes, dissolvendo-se em seguida.”
Ao que tudo indica, o elenco tentou, por mais uns meses, resistir à dissolução da companhia. Saiu em turnê pelos estados do Norte e Nordeste e se apresentou em São Paulo, em março de 1909, conforme registro de O Estado, citado por Sábato Magali e Maria Thereza Vargas no livro Cem Anos de Teatro em São Paulo: “Apesar da crise por que está passando o teatro nacional, os artistas constituíram-se em empresa, de que todos são societários, e empreenderam a louvável tarefa de representar de preferência peças nacionais e uma ou outra estrangeira” (24/03/1909).
Em 1911, nasceu a Companhia Lucília Peres, que encenou várias peças no Teatro Apolo, levando a série, acrescida de outras, ao Teatro Carlos Gomes. Lucília foi, ainda, a primeira figura da temporada do Municipal de 1912 e da Companhia Cristiano de Souza, no São Pedro, quando saiu Maria Falcão. Trabalhou com Leopoldo Fróes no Pathé, e com Alexandre Azevedo no Trianon. Ao lado de Dias Braga teve grande destaque no Recreio. Com Leopoldo Froés chegou a fundar a Companhia Lucília Peres - Leopoldo Froés, criada em 1915 e desfeita em outubro de 1916.
Sua carreira prosseguiu por muito tempo pelos palcos brasileiros ao lado de colegas famosos e em companhias renomadas. Uma grande artista que merece o reconhecimento da posteridade, aplausos calorosos e justas homenagens.
Foto:
Levi, Clovis - História Visual - Teatro Brasileiro, um panorama do século XX. FUNARTE; Rio de Janeiro e Atração Produções Ilimitadas; São Paulo, 1997.
Nunes, Mario - 40 Anos de Teatro - 1º Volume . Departamento de Imprensa Nacional; Rio de Janeiro, 1956.
Silva, Lafayette - História do Teatro Brasileiro. Serviço Gráfico do Ministério da Educação e Saúde. Rio de Janeiro, 1938.
sábado, 17 de novembro de 2012
Grandes Atrizes que o Brasil Esqueceu/Ismênia dos Santos
Atrizes que o Brasil esqueceu - Ismênia dos Santos: nasceu na Bahia em 21 de novembro de 1840 Estreou como amadora em terras baianas. Em 1865, migrou para o Rio, com o marido, também ator, Augusto dos Santos. Trabalhou sob a direção do grandioso Furtado Coelho, na comédia "Não é com essas", de 3 atos. Foi um acontecimento nos palcos naquele ano de 1865. Depois, tornou-se empresária teatral (Grande Companhia de Teatro de Variedades), comandando grandes sucessos do fim do sécu
lo 19 começo do 20, como "O Barbeiro de Servilha", "Helena" e "Mariquinhas". No palco, chamava a atenção a interpretação de gestos largos, que atraía um séquito de fãs. Era uma mulher ligada ao seu tempo. Recitou poemas abolicionistas no glorioso Theatro Santa Isabe,l em Recife, e foi ovacionada na cidade. Assim como, colhia notícias dos acontecimentos teatrais em Paris do século 19 para montar textos inéditos no Rio. As cidades que recebiam a sua companhia eram tidas como prestigiadas. Ave, Ismênia dos Santos!
"Em 1881, encorajada pelas notícias que vinham da França, a respeito do enorme sucesso das adaptações teatrais dos romances L’assommoir e Nana, a atriz e empresária Ismênia dos Santos resolveu encená-las no Rio de Janeiro. Com direção artística do ator e ensaiador Guilherme da Siveira, ambas tiveram praticamente o mesmo número de representações atingido por Thérèse Raquin, entre doze e quinze, o que significa para a época uma acolhida não desprezível. Além disso, foram amplamente discutidas na imprensa (...) (A Recepção de Zola e do Naturalismo nos Palcos Brasileiros João Roberto FariaTexto disponível em www.iea.usp.br/artigos)" O poema Ave libertas, obteve uma estréia promissora na época era engajado na causa abolicionista, e mereceu apoio da atriz Ismênia dos Santos que o recitou, em 1887, no Theatro Santa Isabel, no Recife e obteve grande consagração do público. Por tal desempenho Ismenia foi homenageada por Amando Goulart, proprietário do Centro dos Fumantes, uma tradicional fabrica de cigarros de Pernambuco. Uma grande homenagem segundo o modismo da época.
Na gravura acima observamos a litrogravura de Ismenia em um rótulo de cigarros, pertencente a Coleção Brito Alves, propriedade da Fundação Joaquim Nabuco, Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.
Fonte:
O Teatro no Brasil, de J. Galante de Souza
Petrópolis do século 20
Na gravura acima observamos a litrogravura de Ismenia em um rótulo de cigarros, pertencente a Coleção Brito Alves, propriedade da Fundação Joaquim Nabuco, Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.
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