Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.

domingo, 16 de maio de 2010

Amor de toda vida


Uma paixão à porta do teatro uniu Dulcina e Odilon. Os dois se apaixonaram numa turnê em Salvador. O enlace foi imediato, e a Companhia Dulcina-Odilon nasceu em 1934, no Rival, com o estrondoso sucesso de Amor, de Oduvaldo Viana. A parceria é auge na carreira da atriz. Na década de 1940, a pedido do ministro da Educação, Gustavo Capanema, a atriz organiza repertório com peças de Bernard Shaw (César e Cleópatra) e Garcia Lorca (Bodas de sangue), no Theatro Municipal do Rio. É a primeira atriz a encenar Lorca em língua portuguesa. Conhece o sucesso absoluto com Chuva (1945) e viaja em turnê para Portugal, Uruguai e Argentina. É apontada como a maior atriz do teatro brasileiro. À frente da companhia, decide então abolir a figura do ponto. Depois, institui as folgas às segundas-feiras. O teatro brasileiro está prestes a entrar na modernidade.
— O teatro brasileiro precisa ser moralizado. Não falo da moral de cada um, que já é coisa particular e não entra no âmbito das minha cogitações. Estou falando de moral de classe. É preciso desenvolver, se já tivermos, ou criar, se não conhecermos, a ética profissional dentro do teatro. E para tanto só haverá um meio: unir e ajudar


Documento maldito



À Dulcina de Moraes, deve-se o fim da “carteira de prostituta” dada às atrizes. Era um documento maldito, retirado na polícia, que permitia a mulher trabalhar na área de diversão. O começo da profissionalização no teatro brasileiro passou pelos sonhos de menina de 15 anos, que integrou a Companhia Brasileira de Comédia de Viriato Correia, Oduvaldo Viana e Niccolino Viggiani, grupo obstinado em encenar autores nacionais. À época, ela dividia as coxias com o pai, a irmã Edith e estupendas atrizes como Belmira de Almeida, Iracema de Alencar e Lucilia Péres.
Dois anos depois, Dulcina de Moraes faria teste para a cobiçada companhia de Leopoldo Fróes, o intérprete mítico dos anos 1920. Dia 7 de julho de 1925, ela, aos 17 anos, subia ao palco como estrela de Lua cheia, do francês André Birabeau. Era a época das companhias teatrais, que cruzavam o país de ponta a ponta, levando ao povo arte feita por atores de fé no ofício.
— Eu conhecia minha gente muito bem. O que está prejudicando o nosso teatro hoje é essa mania horrorosa das companhias formarem elencos para uma ou duas peças apenas, onde a maioria dos atores nunca trabalhou em conjunto, ninguém se conhece, o resultado fica sendo uma grande salada. O espetáculo se transforma numa coisa heterogênea, cheia de altos e baixos, muito mais baixos do que altos.

Mulher de grandes feitos


A saga de Dulcina de Moraes, salvaguardada na biografia escrita pelo amigo e ator Sérgio Viotti, pode ser contada em atos de uma montagem teatral. Do bebê faceiro à personalidade mais importante do teatro brasileiro do século passado, posto reconhecido publicamente pela dama Fernanda Montenegro,
Dulcina foi mulher de grandes feitos:
a) Tornou-se atriz elogiada mundo afora, em tempos sem a mídia da televisão para propagar a imagem da intérprete.
b) Ergueu repertório de autores contemporâneos na Companhia Dulcina-Odilon, empresa administrada em parceria com o marido, o ator Odilon Azevedo.
c) Lançou as premissas do ensino superior de artes cênicas com a criação da Fundação Brasileira de Teatro.
d) Revolucionou os modos de trabalho, eliminando a figura do ponto (aquele profissional que soprava o texto aos ouvidos dos atores) e estabelecendo a folga semanal às segundas, numa época que se tinha teatro todos os dias.
—Eu nasci no teatro, para o teatro, do teatro, e me sinto felicíssima com isso. O teatro me deu todas as grandes alegrias da vida, todas as emoções… Creio, acima de tudo, na eternidade do teatro. O teatro permanecerá, e nós com ele.

Menina predestinada


Nascida em 3 de fevereiro de 1908, em seio de família que carregava no gene 250 anos de tablado e sete gerações consecutivas de atrizes, a menina estava predestinada aos palcos. O casal Átila e Conchita de Moraes, intérpretes respeitados, viajava em turnê pelo interior do Rio de Janeiro, quando as dores de parto irromperam o trabalho no palco.
Em Valença, vinha ao mundo Dulcina, com o nome que homenageava a avó, também atriz. Com um mês de vida, ela já estava em cena no papel de uma boneca. A mãe enfeitou o berço com fitas coloridas, guizos e bolinhas. No auge da dramaticidade, com a briga dos protagonistas no palco, o bebê mexeu as pernas, os braços e soltou choro fraco. A platéia, que pensava em se tratar de um bibelô inanimado, desconfiou e dobrou-se de rir.
— Foi a primeira vez e única que, na minha carreira, não agi como profissional. Talvez seja por isso que eu seja uma das atrizes mais disciplinadas do teatro brasileiro.

Os sonhos de Dulcina


Sustentados por manequins de plásticos, os figurinos de uma atriz são expostos como obra de arte. Um deles, lê-se na etiqueta, foi prova para a personagem Sadie Thompson, cortesã da montagem Chuva (1945), texto de Somerset Maugham. Com apliques de bolas vermelhas costurados a mão em fino tecido branco e saia preta justíssima afunilada à cintura, o modelo foi copiado à exaustão por madames e inspirou confecção de boneca vendida à escadaria de um secular teatro em Lisboa, nos idos dos anos 1940. Ao lado dessa histórica peça, vestido amarelo-ouro de rabo de sereia cai até o chão, expondo apliques negros aveludados. A vestimenta serviu à sedutora Domitila de Castro, heroína de O imperador galante (1967), do dramaturgo brasileiro Raimundo Magalhães Jr.
Os dois modelitos são vestígios de memória daquela que foi a primeira dama do teatro brasileiro no século 20. Fazem parte do relicário de Dulcina de Moraes (1908 – 1996), atriz, diretora, educadora e empreendedora, que ajudou a modernizar as artes cênicas do país. Estão abrigados no terceiro andar da Fundação Brasileira de Teatro (FBT), situada no coração de Brasília. Higienizadas e recuperadas, as peças compõem pequeno lote que foi, recentemente, retirado da ação voraz do mofo e das traças. A maior parte, no entanto, está condenada a desaparecer com o passar dos dias. São cartas, diários, fotografias, documentos públicos, adereços e figurinos que se confundem com a evolução do teatro nacional. Fragmentos que ajudam a compor seis décadas dedicadas à arte de atuar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O primeiro dia de aula

No primeiro dia de aula, Dulcina de Moraes entrava altiva e, com “olhar enigmático”, perguntava:
— O que você veio fazer aqui? Por que você quer fazer teatro? Só existe uma razão certa: o amor. Amor pelo teatro e pela profissão.
Os alunos ficavam desconcertados, entreolhavam-se “num silêncio trágico”.
— Ela entrava para assombrar nossas fisionomias… tentando arrancar alguma fagulha de inteligência de nosso mais tenro semblante. Dulcina tinha as respostas que eu queria ouvir. A esfinge de cabelo escarlate era uma mulher de altivez generosa sobre nossas convicções rudimentares, narra o ator, diretor e dramaturgo André Amaro, no livro Teatro Caleidoscópio.

A mestra Dulcina

Foto/Arquivo/FTB

Ao evocar a memória dos tempos de sala de aula na FBT, em Brasília, a atriz Françoise Forton começa a visualizar Dulcina de Moraes. Ela aparece vivíssima aos seus olhos. De óculos enormes, toda arrumada, com a boca vermelha de batom. Junto à imagem física, forma-se a mulher agitada, com sede para ensinar aos aprendizes o valor da ética, o amor e o respeito ao teatro.
— Sinto a minha perplexidade em estar diante dela. Lembro de ler para a classe uma peça fazendo todos os personagens, com a emoção de cada um deles. Era fantástico. Ela me levava ao palco e mostrava o cajado de Molière e o significado das três batidas. Depois, mostrava o seu acervo. Era fantástico, suspira a atriz que integrou a primeira turma de 1981.