Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.

sábado, 1 de setembro de 2012

O ataque ao Roda Viva


Mesa Redonda "Roda Viva" discute a censura, o AI-5 e as críticas à peça

Na terça-feira (14/10), às 14 horas se deu a primeira sessão de debates do Seminário 1968: Liberdade e Repressão. Nela se pôde ver a diversidade de opiniões sobre o acirramento da censura e da ditadura militar, tendo como pano de fundo a invasão dos camarins e a agressão dos atores da peça Roda Vivapelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e o decreto do Ato Institucional 5 alguns meses depois.

Da esquerda para a direita: Valmir Santos, Prof. Dr. Sérgio Carvalho e a Profª Drª Maria Cristina Castilho Costa.

A mesa foi coordenada pela Profª. Drª. Maria Cristina Castilho Costa, que, já de início clamou à diversidade de 1968 para apresentar os presentes à mesa de debates: César Vieira, autor teatral e diretor do Teatro União Olho Vivo, Profª. Drª. Maria Arminda do Nascimento Arruda, Professora Titular do Departamento de Sociologia da FFLCH- USP, Prof. Dr. Sérgio de Carvalho, do Departamento de Artes Cênicas (CAC) da ECA-USP, Valmir Santos, jornalista e mestrando do CAC – ECA/USP, e Sérgio Salvia Coelho, diretor do Teatro da Lucidez e crítico de teatro do jornal Folha de S. Paulo.

César Vieira: a censura há 40 anos, e a censura hoje

César Vieira durante sua apresentação no debate da Sessão "Roda Viva"
César Vieira, homem do teatro, autor, e diretor de inúmeras peças, foi o primeiro a falar, e, deixou bem claro em sua fala, que a censura ainda existe, porém sob outras máscaras. A história de resistência de Vieira à Ditadura é duplamente importante: além de ser autor de peças, César foi um "advogado de presos políticos"( sob o nome, o seu verdadeiro, Idibal Almeida Piveta) responsável pela liberação de nomes como Augusto Boal e Luís Inácio Lula da Silva.
César explicou, passo a passo, como ocorria o processo de censura de uma peça do ponto de vista de um autor. Afirmou que os censores do Serviço Nacional de Censura tinham o objetivo de "defender a moral, os bons costumes e a ordem estabelecidas", dessa forma a censura era feita mais de maneira subjetiva, já que cabia a cada censor saber o que ia contra a moral, os bons costumes e a ordem estabelecida,o próprio César questionou "o que quer dizer isso tudo? Ninguém sabe".
Além daquela estabelecida, César apontou para um outro tipo de censura que surgiu na época: a auto-censura, que fazia com que o autor da peça pensasse duas vezes cada vez que colocasse na sua obra algum termo que pudesse dar discussão entre os censores. Essa auto-castração também atingia atores e produtores de teatro. Alguns autores, como Plinio Marcos conseguiam confrontá-la, segundo Vieira.
O diretor afirmou que hoje não existe a censura institucional, mas existe uma "censura econômica". Ele a classificou como "mais violenta, mais terrível e mais massacrante" que àquela dos anos 60, pois submete o teatro às leis de mercado. César apontou para o fato de apenas a cidade de São Paulo ter uma lei, no mínimo, satisfatória com relação ao financiamento de apresentações teatrais: a lei do fomento.
Vieira criticou a vigoração da lei Rouanet, que permite a apresentação de peças como Miss Saigon e O Fantasma da Ópera, peças que já vem montadas, e pasteurizadas, na visão do diretor. César ainda criticou o preço delas, "mais de meio salário mínimo" e apontou que as empresas financiadoras já receberão o dinheiro investido na peça, pela lei supracitada, por isso, não precisariam cobrar um preço tão alto nos ingressos.
César ainda rememorou os acontecimentos da época como, por exemplo, a repressão ao Congresso da UNE, em Ibiuna, que ocorreu em outubro de 1968. Contou que foi chamado para defender muitos estudantes que estavam presentes nesse congresso. César afirmou que 1968 foi o "golpe dentro do golpe": a ditadura se cristalizou.
"Toda a ditadura que se instala, desde os gregos até hoje, o primeiro inimigo, por 1001 motivos que eles encontram, que atacam e tentam destruir é o teatro", disse Vieira, que tentou explicar o porquê desse ato: "Talvez seja porque o teatro é direto (...) é um personagem falando a sua realidade, olho no olho, transmitindo alguma coisa, dizendo alguma coisa, questionando coisas e colocando opções."
Como não podia faltar, César contou um fato engraçado ocorrido durante a censura de uma de suas peças, o monólogo "Whisky para o rei Saul", quando o censor mandou "cortar" a palavra testículos da peça. O que gerou uma notícia com os seguintes dizeres : "peça em que rei Saul foi castrado por um censor".
Por fim, vieira afirmou que a luta continua hoje em dia, mesmo com um "inimigo velado". E que, o teatro é "um ato de amor, e, mais do que tudo, vai ser sempre um ato de rebeldia".

Profª Drª Maria Arminda do Nascimento Arruda : a conjuntura que levou à 1968

Professora Maria Arminda Arruda: em países periféricos: "Há uma atmosfera libertária em 68"
A Profª Drª Maria Arminda do Nascimento Arruda classificou os acontecimentos de 1968 como um "grande evento histórico", e os comparou à 1848, o ano em que surgiram o feminismo, a idéia do povo como trabalhadores socialistas e a figura de Baudelaire. Assim, baseada na história, a professora começou a expor a parte que lhe competia da mesa redonda.
Maria Arminda procurou mostrar que, apesar de terem acontecido no mesmo ano, e sob uma atmosfera parecida, uma "atmosfera libertária" , os acontecimentos na França e no Brasil tiveram motivações e trejeitos diferentes. Enquanto no primeiro país a participação dos estudantes era massiva, no outro houve uma grande participação de trabalhadores. O enfrentamento dos problemas do Brasil eram mais visados que "as questões diretamente comportamentais", como foi no caso do movimento de 68 nos EUA.
Uma chave fundamental para se entender a conjuntura política, social e cultural de 68 no Brasil é, logicamente, o golpe militar de 1964. E toda a atmosfera que rondou o golpe foi inaugurada nos anos 50, principalmente do ponto de vista cultural. A professora apontou para o "novo período modernista" por qual o teatro passou após a criação do TBC, em 1948; citou ainda o trabalho de dois autores da época, Nelson Rodrigues e Jorge Andrade. Segundo ela, "o teatro é um gênero adequado às expressões políticas e sociais".
O conflito pelo qual o teatro passou em 64 é anterior a este período. A professora afirmou que "a datação das diferentes esferas da cultura é diferente da datação da política, embora tenham confluências"; ou seja, as tensões entre a visão de teatro já existiam, mesmo antes de 64. E permaneceram depois do golpe, o que culminou numa das épocas mais criativas do teatro brasileiro.
Maria Arminda afirmou que o AI-5 é parte de uma cultura em ebulição. O congresso da UNE, segundo a professora, foi o estopim, mas houve diferentes formas de repressão à cultura até então. Ainda sobre a cultura, Arminda provou que a frase de Robert Schwartz sobre o Brasil entre 64 e 69 "Parece que o Brasil ficou mais inteligente" não era um paradoxo, não do ponto de vista cultural. "Esse período inteligente não pode ser entendido sem a referência ao projeto moderno anterior, que não suprimiu todas as virtualidades contidas nas suas promessas em função das tensões internas da cultura"., tais tensões, segundo a professora, provém da precariedade do moderno em um país tão desiquilibrado quanto o Brasil, que de um lado oferece uma cultura viva e densa, e de outro mostra um "déficit democrático e político".
A professora terminou sua exposição, lendo um parágrafo que versava sobre o pós-64 e o pós-68, no contexto da modernidade, e da escolha que a cultura moderna capitalista teve que fazer entre o recuo ou o aprofundamento da dominação da indústria cultural. E terminou afirmando : "Voltar nesse tema [de 1968] é, sobretudo, pensar os nossos empasses".
Prof. Dr. Sérgio de Carvalho: análise de "Roda Viva"

Professor Sérgio Carvalho demonstrou as críticas presentes no texto de Chico Buarque

O Prof. Dr.Sérgio Carvalho usou seu tempo no debate para aprofundar as visões de Roda Viva como texto teatral e como obra musical. Isso porque segundo o professor, a agressão que "ela" sofreu e a encenação agressiva que Zé Celso criou para a peça, acabam por abafar as discussões sobre a obra em si (ler mais sobre a peça no último tópico dessa postagem : Contexto e a temática do debate).
Sérgio, primeiramente, apontou para o uso oblíquo que Zé Celso fez do coro da peça. Zé Celso transformou o coro num coro agressivo, contra-cultural, quase antropofágico, nas palavras do professor: "[Zé Celso]deslocou a função dramaturgica que ele [o coro] tem". Na encenação da peça o coro andava por entre as fileiras e interagia, às vezes de forma irônica, Às vezes de forma violenta, com a platéia. Já no texto, o coro traz uma "polifonia de vozes estranhas" ao discurso da peça. O professor apontou que o coro construído por Buarque ia desde um coro ultra-conservador, até um contra-ponto lúcido do processo que está em curso.
A peça conta a história de Benedito da Silva, um cantor que foi convertdido para ser um cantor de massa, se transformando em Ben Silver. Assim, o cantor passa a fazer parte, efetivamente, da Indústria Cultural, ele se torna "uma mercadoria. No primeiro ato, Ben Silver, com ajuda de um anjo, que faz as vezes de produtor, e de um capeta, que faz as vezes da mídia, consegue atingir o sucesso, mas é confrontado por seus amigos e por sua namorada que se recusam a observar tal mudança de homem para função. Benedito da Silva era um homem, Ben Silver é uma mercadoria, assim explicou Sérgio Carvalho.
No segundo ato, Ben Silver enxerga-se derrotado, e começa a perceber quais são as engrenagens daquilo que participa. Para não deixá-lo sem sucesso algum, o anjo tem uma idéia: transformá-lo em "Benedito Lampião", um cantor nacional popular, brasileiro de raiz pura. De qualquer forma, o sucesso já não era mais garantido, e Ben Silver, ou Benedito Lampião, não agrada ao capeta, nem aos fãs que, literalmente, o matam. Na verdade, a peça mostra que ele foi trocado, e não morto. Foi trocado por sua esposa, Juliana, que se transformou numa cantora "hippie".
O professor apontou para a semelhança entre a estrutura da peça, com a estrutura do teatro religioso alegórico da Idade Média, em que também se existiam um anjo, um capeta e um herói que se via em perigo, e era salvo porque seguia os conselhos do anjo. Apeça, segundo Sérgio, se vale de muitos recursos alegóricos e paródicos, alguns deles conhecidos como a sátira e a marchinha.
Por ser músico, Chico Buarque criou um segundo nível de ironização e de desvio do discurso textual na harmonização e nos aspectos melódicos das músicas da peça."No estilo musical e melódico de Roda Viva se tem a chave para entender o teatro de Chico Buarque ", disse Sérgio Carvalho um pouco antes de explicar como o uso da música que deu nome à peça conseguiu unir todos esses aspectos.
De acordo com o professor,"Roda Viva estabelece uma imagem sistêmica da indústria cultural" quando mostra um cantor passando por dois processos mercantis, ou seja, processo em que a pessoa se transforma numa mercadoria. A peça, dessa maneira, se mostrou um retratro contundente do espaço cultural brasileiro, e daquilo que se imaginava ser a cultura massificada do país.
Sérgio terminou sua apresentação, lendo uma parte do livro "Verdade Tropical", escrito por Caetano Veloso, em que o cantor critica a posição de Chico Buarque, e a classifica como "ingênua, e de puro "bom-mocismo".
Valmir Santos: o Teatro de Agressão hoje em dia


Valmir Santos (primeiro da esq. p/ a dir.) tentou mostrar como o Roda Viva seria visto hoje em dia
O jornalista Valmir Santos se valeu de dois exemplos atuais para explicitar a visão que as pessoas tiveram da encenação de Roda Viva em 1968. Mas, para isso, precisou colocar em perspectiva o conceito de "teatro de agressão", usado por Anatol Rosenfeld em sua crítica à peça.
Zé Celso criou uma passarela entre o palco e a platéia, por onde os atores do coro passavam, e assim, interagiam com a platéia. Essa interação, era, porém, agressiva. O que fez com que Rosenfeld usasse tal designação para a peça. Rosenfeld achou que a encenação de Roda Viva se encerrava em si mesma, não criava nennhum conflito externo, por isso, a sua agressividade apenas deixava o público anestesiado.
Para mostrar as duas facetas do Teatro de Agressão, Valmir se valeu de dois exemplos: um em que a proposta era feita de maneira a levar a platéia a um questionamento; e outra em que a agressividade era apenas um recurso para deixar a platéia mesmerizada e anestesiada.
O primeiro é o Trabalho do grupo Teatro da Vertigem, na peçaApocalipse 1,11 (foto a dir.), encenada em 2000 no antigo Presídio do Hipódramo, em São Paulo; há no título d apeça uma alusão ao massacre do Carandiru em 1992, em que 11 presidiários morreram. O jornalista esmiuçou a cena da boate Nova Jerusalém, que é um espaço em que se flagram muitas personagens e temas: "um apresentador que é uma besta travestida, interafindo com uma personagem da Babilônia, uma mulher prostituida, uma cena de ligação ao negro, uma cena de sexo explícito por um casal profissional, outra cena em que há um pastor evangélico bem alterado na sua posição de arrebanhar seus seguidores fiéis". Partes da Constituição Brasileira são lidas por uma mulher gaga. Valmir arremata :"a cena é interrompida, é desmontada, por um ataque dos anjos revoltosos que chegam (...) empurrando os atores que estão ali como personagens e o próprio público, empurrando-o para a parede".
Essa peça, segundo o jornalista, produz um choque cultural. É um "teatro de agressão em que a afirmação simbólica da teatralidade está imposta, colocada, e, de alguma forma, está trans-criando e trans-cruzando o ator e o público", afirmou Valmir.
O segundo exemplo é de como esse tipo de teatro foi "re-embalado, refeito e apresentado de uma forma mais agradável". É o caso do espetáculo Fuerza Bruta (foto à esq.), do grupo de teatro Argentino, . O jornalista disse que o espetáculo é "bastante radical na interação com o público, na ocupação do espaço aéreo", mas que o discurso apropriado pela publicidade para vender o espetáculo se vale do anestesiamento de forma "sem vergonha". Segundo Valmir, quando um espetáculo desse tem um ingresso de 120 a 150 reais, e se tem um público tão delimitado, dá para se entender o que que Anatol Rosenfeld quis dizer com o anestesiamento causado pelo Teatro de Agressão.
Valmir terminou sua explicação com um questionamento, tirado da música Roda Viva : "A gente estancou de repente, ou foi o mundo então que cresceu?"

Sérgio Salvia Coelho: a provocação e o contraponto da barbárie

Sérgio Coelho (de vermelho) questionou a devolução dos prêmios Saci pela classe teatral em 1968
O crítico teatral e diretor do Teatro da Lucidez, Sérgio Coelho, pretendeu em sua fala mostrar os ângulos diferentes sobre os acontecimentos que abalaram a classe teatral no ano de 1968. Além de apresentar a opinião de Anatol Rosenfeld, provou, usando palavras de Zé Celso, que o ataque ao Roda Viva não fizeram dos formadores do espetáculo, vítimas; e ainda leu a nota do Estado de S. Paulo que deu tanta polêmica entre a classe artística nesse ano.
Sérgio tentou fazer uma linha dos acontecimentos desde 18 de julho, até 13 de dezembro de 68. Ou seja, desde o ataque ao Roda Viva até a instituição do AI-5. Mesmo assim, o crítico passou por uma data antes dessas duas previstas: 11 de junho. Nesse dia, o jornal Estado de S. Paulo publicou uma nota que comentava sobre a manifestação do deputado Aurélio Campos, segue abaixo, o trecho que Coelho leu:
"(...) Foi uma oportuna manifestação a que se registrou recentemente na Assembléia Legislativa, pela palavra do deputado Aurélio Campos, sobre os excessos que se tem verificado em representações teatrais no terreno do desrespeito aos mais comezinhos preceitos morais. O mundo teatral ? tanto os atores e atrizes como os autores ? vêm movendo uma campanha sistemática contra a censura, e como esta nem sempre é exercida por autoridades à altura de tão graves e, às vezes, tão delicadas questões, a tendência de muitos é cerrar fileiras entre os que combatem. O que na censura geralmente se vê é uma ameaça à liberdade, o que assume a feição particularmente antipática quanto à liberdade ameaçada é a artística. Carradas de razão, entretanto, teve o parlamentar acima referido ao assinalar, a propósito de peça teatral a cuja representação assistira, que a censura, longe de se mostrar rigorosa no escoimá-la de seus exageros mais escandalosos, o que revelou foi uma complacência que não pode deixar de ser severamente criticada.(...)"
Tal nota provocou uma reação agressiva da classe teatral, que se viu atacada pelo fato de o jornal não ter colocado tla nota na sessão de opinião. Por não se tratar de uma matéria assinada, o crítico afirma que, pareceu aos artistas que a noticia informada era uma opinião do jornal inteiro.
Assim, os artistas não pensaram duas vezes antes de devolver os prêmios Saci, que o Estado distribuia todo final de ano, desde 1951. Tal ação provou outra reação inesperada: Décio de Almeida Prado parou de escrever críticas teatrais no jornal.
Sérgio argumentou que uma parcela da população se via agredida com a nota, e que outra parcela, se via agredida com o uso de palavrões nas peças. A simbologia do prêmio, para aqueles que devolveram era outra, não significava mais apenas o repúdio à nota favorável à censura; significava uma recusa a se colocar no jogo mercanti, representado pela burguesia que entregava tal prêmio, no olhar dos artistas.
O crítico teatral passou a citar, então, outro: Anatol Rosenfeld, em suas críticas sobre o Roda Viva. O termo Teatro de Agressão foi usado primeiramente pelo próprio Zé Celso, em uma entrevista dada um pouco antes da peça sair em cartaz. O diretor afirmou nessa mesma entrevista que a agressão tinha que ir além do sibólico, tinha que romper o padrão de bom comportamento e bom gosto; "tinha que agredir fisicamente a platéia".Rosenfeld ironiza tal postura do Zé Celso ao questionar a eficiência dessa prática de agressão direta ao público para a causa comum da intelectualidade e dos artistas.
Anatol ainda ironizou ao dizer que em Roda Viva "o público burguês não é atacado e nem ferido", já que este é aquele que pode pagar pelo ingresso. Ele ainda afirma que essa pela reafirma os atos burgueses. O público da peça era o mesmo que era criticado nela: "as meninas que iam ver uma peça de Chico Buarque", que permitiam a existência de ídolos e da idolatria. Dessa forma,na opinião de Rosenfeld, Zé Celso usou a tal estratégia de agressão para conquistar a platéia. Anatol acreditava que o teatro de agressão cumpre bem o seu papel quando aquelas pessoas que não se sentem tocadas pela peça, levantam e saem do espetáculo.
Sérgio ainda leu alguns depoimentos de Zé Celso sobre o uso da agressão nas suas montagens. Sérgio afirma que Zé Celso queria fazer uso da violência como "um princípio supremo " no lugar de apenas um elemento estético. O diretor afirmava que uma peça, para continuar chocante, tinha que extravasar do uso de palavrões e gestos, e passar para as "vias de fato".
A declaração mais polêmica lida por Sérgio, feita por Zé Celso, pouco tempo antes da invasão do Roda Viva, foi essa: "A companhia tem que nutrir duas esperanças contraditórias: primeira, por razões de eficácia e orgulho profissional, a de que um público vigorosamente provocado responda com vigor; segundo, por razões financeiras, é de que haja um númerro bem maior de espectadores que atores de modo que estes apanhem violentamente". Então, Sérgio arrematou "se o CCC tivesse levantado durante a peça e começado a espancar os autores, teria sido o público ideal de Zé Celso", ou seja, ó público que reage apaixonadamente ao tema da peça.
O crítico terminou sua apresentação afirmando que 68 foi o ano em que o teatro perdeu a crítica, e que parou de existir um dialogo entre artistas e pensadores, e passou a existir apenas um "messias que indica para platéia o que é certo e o que é errado. E esse foi um risco muito grande a se pagar", completou Sérgio.

Contexto e temática do debate:

A peça (e musical) Roda Viva (foto à esquerda), de autoria de Chico Buarque de Holanda, foi encenada durante o ano de 1968. Sob a direção de José Celso Côrrea, o mesmo diretor de O Rei da Vela, e com os atores do Teatro Oficina, a peça se mostrou agressiva e manteve o tom das montagens anárquicas de Zé Celso. O enredo mostra a trajetória de Benedito Silveira, um cantor que se tornou ídolo da música pop sob o nome Ben Silver, desde a sua ascensão até seu aniquilamento pelas mesmas engrenagens do showbiz que o tinham fabricado.

Em 18 de Julho de 1968, logo após a apresentação da peça, o galpão do Teatro Ruth Escobar (SP) "(...)foi invadido por cerca de vinte elementos armados de cassetetes, soco-inglês sob as luvas, que espancaram os artistas, sobretudo as atrizes, depredaram todo o teatro, desde bancos, refletores, instrumentos e equipamentos eletricos até os camarins, onde as atrizes foram violentamente agredidas e seviciadas(...)" (Trecho retirado da notícia "Invadido e depredado o Teatro Galpão" publicado no jornal Folha de S. Paulo, um dia depois do ocorrido).

No contexto político, o Brasil vivia a ditadura militar, instalada no ano de 1964. No final de 1968, mais precisamente, no dia 13 de dezembro deste ano, o presidente Costa e Silva baixou o Ato Institucional Nº 5 (ou, simplesmente, AI-5) que endureceu a ditadura militar, e estipulou o fim da liberdade de expressão do período. O Ato, entre outras ações, fechou o Congresso Nacional, suspendeu a possibilidade de qualquer reunião de cunho político e reestabeleceu a censura prévia de peças, músicas, filmes e novelas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O sorriso de Ida Gomes

O sorriso de Ida Gomes






















Sérgio Maggio

Nunca esqueço de uma imagem de atriz. Após o termino do espetáculo 7, de Charles Möeller e Claudio Botelho, no Teatro Carlos Gomes, uma parte do público foi para a saída lateral esperar por Ida Gomes, dama dos palcos brasileiros. Era um grupo representativo de fãs, de todas as idades e cores, ainda inebriados pelo espetáculo. Ela saiu, de braços dados a um cavalheiro, e todos a aplaudiram. Ida estampou um sorriso e aquele momento está guardado no relicário de minha memória afetiva.
Acabo de encontrá-la, agora, no Portal Brasil Memória das Artes, da Funarte. Morta em 2009, aos 75 anos, Ida Gomes parece vivíssima no espaço memorial vivo e alentador. É possível ouvi-la. A voz está registrada em todo seu vigor a falar da migração, da fuga dos nazistas, da morte dos parentes nos campos de concentração, do ofício de atriz
Passei 18 minutos com Ida Gomes nesta noite de domingo e confesso que me enchi de felicidade e de esperança ao encontrar este outro Brasil que luta contra o Alzheimer cultural. A memória é um grande pilar para identidade e pertencimento de uma nação. Precisamos ter orgulho cultural para seguir mais fortes nos tempos de agora. Como é importante saber como se deu a construção da memória cultural do país, como é importante colocar essas informações em circulação constante. 
Recentemente, fizemos uma homenagem a Dina Sfat, no projeto Mitos do Teatro Brasileiro, e me deparei com alguns jovens de 18 anos que não sabiam quem era a atriz, que morreu há tão pouco tempo, em 1989. Colocar então esses nomes, não só o físico, mas o nome conceitual, o contexto que ele traz em seu entorno, em movimento é o caminho para produzirmos um país que está além da instantaneidade que marca o século pós-moderno.
 Tenho cada vez mais me preocupado com o zelo à memória, não só a do indíviduo, limitada à minha existência, mas a memória cultural, a que armazena a história subjetiva de todos nós. Uma das piores formas de envelhecer, indivíduo e sociedade, é a possibilidade de perder a memória, de não conseguir mais reconstituir os caminhos. De não trazer à tona, aqui e agora, não só o sorriso de Ida, mas todo o contexto de mulher e de atriz que vem esboçado com ele. 
Vivemos num país que historicamente não costuma colocar as memórias em movimento. Que mal tem cuidado em proteger o patrimônio físico, os vestígios físicos. Não há hábito de transformar os arquivos históricos em espaços vivos do aqui e agora, capazes de iluminar o passado, como o sorriso de Ida que vem à minha mente e me enche com sua presença. Daí, o Portal Brasil Memória das Artes ser um alento.
Na entrevista postada, Ida Gomes, dona de voz marcante, que dublou a maioria dos filmes de Beth Davis, diz que há a gente que faz muita falta. Dias Gomes é um deles. Aproveita e fala do carinho em receber o aplauso do público. 
- Me sinto viva. 
É assim que eu a percebo agora. Viva e sorrindo dentro da minha memória. 




Biografia de Ida Gomes

Atriz foi criadora de personagens marcantes na televisão e no teatro


Biografia de Ida Gomes


Mídias deste texto

Imagens (16 imagens)

Áudios (1 áudio)

Ita Szafran nasce em Krasnik, na Polônia, em 25 de setembro de 1926. É criada na França, onde chega com sua família um ano depois de seu nascimento. Em Paris, aperfeiçoa a língua materna, o francês, ao estudar os escritores clássicos, como Racine, Corneille e Molière. De família judaica, vem para o Brasil quando se torna eminente o domínio alemão sobre a França. Em 1938, incentivada pela mãe, participa do concurso Em Busca de Talentos, lendo uma poesia no programa de Celso Guimarães, na Rádio Tupi, e conquista a primeira colocação. Cumpre a seguir um período na Rádio Jornal do Brasil, até que Olavo de Barros lhe oferece um contrato na Rádio Tupi. Na Rádio Globo, integra o elenco de radioteatro dirigido por Amaral Gurgel e, em seguida, atua na Rádio Nacional que vive então o auge da sua programação. Em 1948, com uma bolsa de estudos, vai estudar nos Estados Unidos. Em 1951 segue para Londres para um estágio no serviço brasileiro da Rádio BBC, na qual atua em novelas e como locutora.
Já de volta ao Brasil, inicia sua carreira na televisão, entrando para a TV Tupi em 1953. Estreia sob a direção de Chianca de Garcia, protagonizando Electra, de Sófocles, ainda nos estúdios da Avenida Venezuela, com direito a uma desconfortável coluna no meio do estúdio. No elenco, aparecem dois outros importantes atores dos primórdios da TV: Heloisa Helena e Jacy Campos. Torna-se uma das principais atrizes pioneiras da televisão brasileira, sendo escalada para diversos seriados e teleteatros, e chega a figurar em quatro diferentes elencos na mesma semana.
Nessa época, participa simultaneamente do Grande Teatro Tupi, no qual se destaca em A Herdeira, ao lado de Fernanda Montenegro e Sérgio Britto; do Teatro de Comédias, em diversas peças, entre as quais, Catarina da Rússia, ao lado do galã Herval Rossano; do Câmera Um, de Jacy Campos; do Teatro Gebara, dirigido por Fábio Sabag, e do Teatro de Equipe, dirigido por Paulo Porto, quando recebe os maiores elogios por seu desempenho em A Esquina Perigosa, de J.B. Priestley, contracenando com Heloisa Helena, Daniel Filho e Paulo Porto.
O seriado A Canção de Bernadete (1957), de Franz Werfel, com direção de Paulo Porto e estrelado por Aracy Cardoso, dá-lhe grande popularidade ao interpretar a freira má que persegue a protagonista. Paralelo à televisão, faz dublagens e integra o elenco estelar da Cine-Castro, dirigida por Carla Civelli, onde dubla ao lado de Natália Thimberg, Alberto Perez, Cláudio Corrêa e Castro, Ângela Bonatti, José Miziara, Daniel Filho e Cláudio Cavalcanti. Torna-se a voz oficial de Bette Davis em seus principais desempenhos no cinema para as versões na televisão.
Em 1967 entra para a TV Globo e estreia na novela A Rainha Louca, de Glória Magadan. Permanece na emissora até os dias de hoje. Na primeira fase da TV Globo participou de grandes sucessos, como A Gata de Vison (1968/69); A Ponte dos Suspiros (1969); A Última Valsa (1969);Verão Vermelho (1970); O Homem que Deve Morrer (1971); Dona Xepa (1977), dentre outros. EmO Astro (1977), de Janete Clair, destacou-se como a bondosa tia Magda, apaixonada por Salomão Hayala, interpretado por Dionísio de Azevedo. Em 1973 integra a primeira novela em cores, como a impagável Dorotéia Cajazeira de O Bem-amado, de Dias Gomes, dirigida por Régis Cardoso. O sucesso da novela é tão grande que ganha formato de seriado sete anos depois, com Ida e os mesmos protagonistas: Paulo Gracindo, Lima Duarte, Emiliano Queiroz e Dirce Migliaccio. Seu mais recente trabalho na TV foi na minissérie JK, de Maria Adelaide do Amaral, dirigida por Denis Carvalho.
No cinema estreia em Bonitinha Mas Ordinária (1963), dirigida por J.P. Carvalho. Encena O Mundo Alegre de Helô (1967), de Carlos Alberto de Souza Barros; A Penúltima Donzela (1969), de Fernando Amaral, ao lado de Djenane Machado e Adriana Prieto; e O Casal (1975), de Daniel Filho, ao lado de Sonia Braga e José Wilker. Em 1988 filma Primeiro de Abril, Brasil, com a diretora Maria Letícia. Depois de tempos afastada do cinema, retorna em Copacabana (2001), de Carla Camurati, e em O Amigo Invisível (2005), de Maria Letícia.
Sua carreira em teatro começa quando ainda é adolescente, em 1953, no Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno. Em 1957 estreia no teatro profissional em O Primo da Califórnia, de Joaquim Manuel de Macedo, direção de Alfredo Souto de Almeida. Com o diretor João Bethencourt, volta aos palcos em 1965 na peça As Feiticeiras de Salém, de Arthur Miller. Em 1971 atua no musical Um Violinista no Telhado, de Joseph Stein, direção de Wilfredo Ferrán. Em 1990 faz No Natal a Gente Vem Te Buscar, de Naum Alves de Souza, direção de João Albano, ao lado de Lucélia Santos. Suas mais recentes atuações nos palcos aconteceram em Bodas de Ouro(2002), de Vicente Maiolino, protagonizando ao lado de Carlos Alberto um casal de idosos; O Avarento (2003), de Molière, direção de João Bethencourt, com Jorge Dória no principal papel; eTio Vânia (2003), de Tchecov, com Diogo Vilela e Débora Bloch, direção de Aderbal Freire-Filho. Em 2006, sob a direção de Leon Góes, participa de Rainha Esther, de André Chevitarese.
Criadora de personagens marcantes na televisão e no teatro, dedica-se integralmente à carreira e ao convívio com os amigos, sendo considerada por todos uma mulher de forte personalidade e de talento comprovado.
Nota da redação: A atriz Ida Gomes morreu no dia 23/02/2009, aos 75 anos, no Rio de Janeiro.

sábado, 4 de agosto de 2012

Glauce Rocha, eterna


GLAUCE ROCHA, A INTENSIDADE DE UMA GRANDE ATRIZ

Intensa, com alta dose de dramaticidade e emoção à  flor da pele, Glauce Rocha foi uma dessas atrizes que marcam época e após a morte passam a ser mito. Poucas atrizes viveram com tamanha grandeza o ofício para a qual vieram predestinadas. Fez do teatro sua razão de viver, viveu e sofreu com o furor de uma guerreira e finalmente, morreu jovem, aos 41 anos de idade, em meio às gravações da novela O Hospital da TV Tupi. Deixou gravada na história do teatro nacional a marca de uma atriz inigualável. Uma das maiores divas do Teatro Brasileiro em todos os tempos!

Glauce Rocha

Glauce Rocha

Glauce Rocha

Glauce Rocha

Glauce Rocha

Glauce Rocha

Glauce Rocha em Polyana, teleteatro, TV Rio, 1958

Glauce Rocha

Glauce Rocha

Glauce Rocha

Glauce Rocha em Electra (1965)

Glauce Rocha
Glauce Rocha  coroada  Rainha dos Artistas, tendo Sérgio Cardoso como príncipe consorte. 

Glauce Rocha passando a coroa de Rainha dos Artistas para  Tônia Carrero.  Francisco Cuoco sucedeu Sérgio Cardoso como príncipe consorte. 

Glauce Rocha com Francisco Cuoco, Tônia Carrero e Sérgio Cardoso

Glauce Rocha no carnaval de 1970

Glauce Rocha como Rainha dos Artistas no carnaval do Rio

Glauce Rocha com a escritora Rachel de Queiroz autora da peça A Beata Maria do Egito, grande sucesso da atriz
Glauce Rocha com a escritora Clarice Lispector autora de Perto do Coração Selvagem, outro sucesso.
Glauce Rocha  conversando com Guilherme Dicken no programa  Almoço com as Estrelas

Glauce Rocha

Glauce Rocha

Glauce Rocha

Glauce Rocha na capa do livro Glauce Rocha Atriz Mulher Guerreira escrito por José Otávio Guizzo em 1992 e editado por Editora UFMS da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Glauce Rocha na capa do livro escrito por Adomar Conrado em 1996 na série Perfis do Rio da Editora Dumará em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro

Glauce Rocha num álbum de figurinhas da revista Romântica

Glauce Rocha na novela Hospital


fotos: acervo de Orias Elias - revistas Amiga (Bloch Editores), Romântica (Editora Vecchi),Melodias  (Editora APA), Manchete (Bloch Editores), Cartaz (Rio Gráfica e Editora SA),Intervalo (Editora Abril), Arquivo B. de Paiva, Arquivo MAM-SP, arquivo Funarte

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O esteta do silêncio

 Foto// Folha S. Paulo

“Pra mim, quem mais choca é o silêncio, sabe. Quando você está lá no palco e tem um silêncio, você pode criar até um pouco de pânico”


Esteta do silêncio

Com Foi Carmem, Antunes Filho mata os estereótipos do Brasil ensolarado e aprofunda elementos do teatro oriental

CAROLINE MARIA

O espetáculo Foi Carmen (2005) é fruto de uma homenagem ao centenário do dançarino e coreógrafo japonês Kazuo Ohno (1906-2010), considerado um mito do teatro butô. As referências explícitas à atriz e cantora luso-brasileira Carmen Miranda (1909-55) aparecem combinadas a elementos da dança oriental, como o silêncio, a pausa e o corpo retorcido.

Mas nem tudo no Brasil de Antunes são bananas, sambas e colares abaianados. Ele mata os estereótipos em cena e carrega nos tons de uma personagem obscura, de brilho fosco, quebrando as molduras às quais Carmen (solar e importada) teve sua imagem aprisionada. Como argumenta o diretor, sua Carmen foi, ela está morta.
Com direção hermética, de marcações precisas e imagens contundentes, Antunes Filho apresenta uma Carmen subvertida e invertida — como uma espécie de curupira brasileiro — acompanhada também pela figura típica do malandro do Rio de Janeiro.


Em Foi Carmen, você une dois homenageados: a cantora Carmen Miranda e o dançarino japonês Kazuo Ohno. Como você chegou nessa ideia?
Fui convidado a fazer um espetáculo para o centésimo aniversário do Kazuo Ohno. Então eu falei: vou pensar numa coisa que tenha a ver com o próprio Kazuo Ohno. Comecei a improvisar e pensei… o Kazuo um dia se impressionou com uma bailarina argentina (Antonia Mercé y Luque) e então fez o máximo espetáculo dele, o Admirando La Argentina (1977). Ele com o butô dele foi bolando alguma coisa com essa bailarina. Então eu falei: vou fazer a mesma coisa, algo paralelo. Vou pegar a Carmen Miranda e, em cima dela, vou tentar colocar o butô do Kazuo Ohno. Foi daí que nós começamos a fazer improvisações. O espetáculo foi todo pensado para fazer com os atores do CPT (Centro de Pesquisa Teatral, em São Paulo, dirigido por Antunes). Deu nisso. Uma homenagem ao Kazuo Ohno baseado na Carmen Miranda.


Carmen Miranda tornou-se uma artista grandiosa também porque rompeu paradigmas com sua arte. No caso do seu teatro, o que ainda vem para chocar?
Pra mim, quem mais choca é o silêncio, sabe. O silêncio cria uma pausa dinâmica. Quando você está lá no palco e tem um silêncio, você pode criar até um pouco de pânico. Você pode, a partir disso, fazer brotar mil coisas imaginárias em cada espectador. Esse era o processo do Kazuo Ohno. Ele usava muito o silêncio, o stop, a parada. Isso criava uma sensação que você não sabia o que viria por meio do teu inconsciente e do teu subconsciente. Isso é explorado muito no espetáculo… O silêncio, a pausa, o stop. Como uma forma de brotar coisas no inconsciente, algo muito próprio do Kazuo Ohno, que fazia o ato da dança dele em cima da pausa e do silêncio. E aí ele projetava coisas incríveis no seu imaginário. Isso tentei adotar no espetáculo por meio da figura da Carmen Miranda. É um espetáculo estranho. Eu gosto, é diferente de tudo que eu fiz. As pessoas veem e perguntam “Antunes fez isso?” (risos). A peça não tem nada a ver, mas tem a ver. Talvez seja a que tenha mais a ver. Não sei.


Sua Carmen aparece mórbida, sempre de costas, coberta. Você pensou em fazer um contraponto com os símbolos solares que são exportados sobre a cultura do Brasil?
Pensei somente em Kazuo Ohno, que na época estava com 99 anos, e na Carmen Miranda, que já não é mais, ela foi. Ela é vista de costas por quê? Porque você está vendo as costas dela, o passado. É a peça indo atrás das costas dela, atrás do rastro da vida.


O festival ergueu a bandeira da América Latina nesta 13ª edição. Você acredita que o teatro brasileiro dialoga com essa latinidade ou ainda está voltado para o teatro americano e europeu?
A América Latina é uma tendência muito forte hoje no Brasil. Pode existir esse teatro americano nas grandes cidades, nas capitais como São Paulo e Rio, mas no resto do Brasil acho que está florescendo um teatro local, que tem suas raízes na própria terra. O que é fundamental. A terra, a brasilidade... inclusive, o Sebastião Milaré (crítico e teórico teatral) começou a catalogar isso. Tem um trabalho enorme a esse respeito e ele me disse que é incrível o que se cria nesse Brasil, em todos os recantos desse Brasil. Há esse teatro mais cosmopolita, mas também há algum teatro que foge disso. O resto do Brasil está muito mais preocupado com o Brasil do que nós, os cosmopolitas.


Então onde estão as raízes do seu teatro?
O que me preocupa é a raiz do homem. O que me preocupa é isso. O homem, a sua história, o seu futuro, o seu devir. Esse é o teatro que me preocupa, sempre. Eu vou fazer um espetáculo agora que é sobre o Nossa cidade, do Thornton Wilder, e estou fazendo uma adaptação dramatúrgica completa. Eu quero falar não somente do Nossa cidade, mas fazer um diálogo com o Thornton Wilder, então eu faço uma desconstrução. Eu quero falar do homem total, do homem universal, discutir esse homem. Então eu discuto as posições dos Estados Unidos, as nossas, o que nós achamos… mas não de maneira boba, idiota ou panfletária. De maneira humana. Humana, sabe? Humana do homem. O homem no humano.

quarta-feira, 20 de junho de 2012