Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.

sábado, 2 de junho de 2012

A última entrevista de Nelson Rodrigues


A última entrevista de Nelson Rodrigues

publicado em 
Entrevista de Nelson Rodrigues, concedida em outubro de 1980, ao jornalista Tom Murphy, do jornal “Latin American Daily Post”. O dramaturgo morreria dois meses depois
 Nel­son Rodrigues
Tom Murphy
Fui recebido por um homem pálido, até mais alto do que eu imaginava, de calça azul mal ajustada pelos largos e famosos suspensórios; um homem lento no andar e na fala. Lento de dar pena. Anos depois conheci Alfredo Machado, dono e cabeça da Editora Record, a quem relatei a experiência daquele dia: “Entrevistei o Nel­son Rodrigues dois meses antes da morte dele; ele já estava doente, muito mal mesmo”. O grande mentor de tantos escritores brasileiros riu: “Nelson estava muito mal sempre”. Naquele ensolarado outubro de 1980, tive o privilégio de conversar durante uma hora e pouco — sentado, como tantos de seus personagens, diante da simples mesa de cozinha — com Nelson Rodrigues. O cenário era bem Nelson: um apartamento escuro e assombroso na beira da alegre praia carioca do Leme, um cheiro leve, não do mar, mas de desinfetante. Na época eu trabalhava para o “Latin American Daily Post”, jornal de língua inglesa, que publicou a entrevista dias depois. Foi só em dezembro que eu soube da real dimensão da doença de Nelson, quando ele deu entrada num hospital. No mesmo mês, dia 21, ele morreu, aos 68 anos.
A partir da morte dele, a entrevista, que permanecia inédita em português, virou, para mim, uma grande curiosidade, quase um talismã. Eu fui um dos últimos a falar com Nelson Rodrigues, o famoso e, para tantos, infame e tarado homem das letras — o par de Tennessee Williams e Jean Genet da dramaturgia brasileira. Já no fim, já enfartado e safenado, mas nada manso, era lúcido e atuante, o maior dramaturgo nacional.
 
Qual é sua visão sobre o papel dos intelectuais no Brasil?

Os intelectuais brasileiros não têm nenhuma importância. Há algumas exceções, como o grande sociólogo Gilberto Freyre, mas estes constituem um grupo seleto.
Os escritores brasileiros, pelo menos, conseguem mostrar a realidade brasileira?

A cultura brasileira não é uma cultura escrita. O pouco que existe hoje da cultura brasileira é estéril. Não se escrevem romances, poemas e ensaios como antes. E só é assim que o escritor tem possibilidade de tocar nos assuntos mais profundos. O que falta entre os intelectuais brasileiros de hoje é paixão. Não dá nem para ler os jornais. As notícias são velhas! Antigamente, até os jornais eram mais dinâmicos. Um jornal como “A Noite” saía com as notícias do mesmo dia! E com muito espírito. Do ponto de vista da cultura, o Brasil hoje vive uma fase de transição. Existe uma literatura aguardando para nascer. Vai nascer cedo ou tarde, pelo menos eu espero. A literatura brasileira aguarda um gênio para tirá-la do tédio. Por enquanto, porém, não há gênio à vista. (Em 1980, os escritores e intelectuais brasileiros pareciam confundir-se com políticos, num país que corria para a mudança do regime militar para a democracia. Nelson Rodrigues criticava essa posição. Ao mesmo tempo, dizia que o mundo estava sendo dominado pelos “idiotas”.)
Qual sua opinião sobre intelectual e política na atualidade brasileira?

O intelectual que entra na política não faz nenhum bem para ninguém. Em primeiro lugar, não entende nada da política. An­tigamente, a política era uma profissão para pessoas com determinados conhecimentos e hábitos. Era um dom. Todo mundo virar político é ridículo. Mas, hoje, os intelectuais vão aos comícios. Para quê? Para aparecer, tirar foto e vê-la nos jornais. Para o artista, a melhor maneira de servir a pátria é servindo arte.
Qual é sua avaliação do Brasil de hoje como sociedade?

A verdadeira história do Brasil só vai começar com a chegada em cena de uma grande figura, um Napoleão. Os Estados Unidos tiveram George Washington, a França, Napoleão. Nós tivemos Juscelino Kubitschek, um grande homem, de certa forma, com grandes qualidades, mas quando eu falo de um Napoleão, eu me refiro a algo muito maior do que um Juscelino. A China, por exemplo, teve Mao [Tsé-tung] e Chiang Kai-Shek, homens que correspondiam às necessidades da época.
E o Brasil de hoje?

Antigamente, todos eram idiotas e o sabiam. O mundo tinha milhões de idiotas, todos humildes. Muito sabiamente, eles se consideravam idiotas. Mas hoje em dia, quase todas as pessoas se consideram competentes. Os idiotas querem ser professores, ministros, presidentes. O nosso mundo é dominado pelos idiotas. A única maneira de combater essa onda de idiotice é através de um homem com o magnetismo de um Napoleão. O problema do Brasil é o mesmo de todos os países subdesenvolvidos: a falta de autoestima. Quando um povo não acredita em si mesmo, não acredita em nada. Bom exemplo disso é a mania do povo brasileiro de massacrar a seleção de futebol. Isso me irrita profundamente. É só a seleção errar em uma coisa e todo o País vem em cima. O brasileiro só sabe torcer pela seleção quando ela está ganhando. Quando perde, vem em cima com chicote.
O sr. disse que o homem competente não tem vez. E o artista brasileiro?

Não. Eu, por exemplo, sempre tive de trabalhar como jornalista. Não que eu despreze a profissão. Mas, nos Estados Unidos, um escritor lança um best-seller e já pode se aposentar. No Brasil, você tem de trabalhar até o fim da vida. Se eu tivesse escrito tudo nos Estados Unidos que eu escrevo aqui, eu hoje seria um homem milionário. Mas em vez disso, eu ainda tenho de trabalhar para comer.
Eu gostaria que o sr. falasse um pouco sobre a censura e o modo como ela afetou sua carreira.
Tenho muito a falar sobre censura. Sou autoridade no assunto. Nos últimos 35 anos eu tenho sido o autor brasileiro mais censurado. Censura é uma barbaridade, uma monstruosidade. O único papel legítimo para a censura é classificatório, ou seja: pode somente limitar certas coisas para certas faixas etárias. Não pode limitar, de maneira alguma, a criatividade do artista.
O sr. falou de faixas etárias. A propósito, qual a sua opinião sobre a juventude hoje?

Fui recentemente a um programa de televisão e me perguntaram se eu tinha alguma coisa a dizer aos jovens brasileiros, ao que respondi: “Que deixem de ser infantis”, somente. Nunca a juventude foi tão pouco generosa, tão pouco heroica, tão pouco humana. Espero que um dia a juventude tenha um grande renascer. É necessário. Os jovens da França praticamente tomaram o poder em 1968. Deram as costas a De Gaulle. Mas, uma vez no controle das universidades, eles não fizeram absolutamente nada. Descobriram que não tinham nada a dizer. Era tudo puro exibicionismo. Afinal, o que tem a dizer um jovem de 17 ou 18 anos? Nada. São os velhos que detém a sabedoria e que podem assumir a liderança. De Gaulle era velho. Mao era velho. Chiang era velho.
Suas peças foram sempre polêmicas. Por que escolheu temas relacionados ao sexo e à violência, tão controvertidos?

Nas minhas obras eu tento transmitir algo que vem de dentro de mim. É trabalho duro, um sacrifício. E acho que, para escrever bem, o escritor precisa de algumas obsessões, algumas ideias fixas, que sustentam a sua obra. Sem isso, o trabalho vira um caos. Um dos meus temas preferidos é a violência humana. O ser humano é um assassino natural. O ser humano é feroz. É somente isso, uma verdade e, portanto, uma obsessão.
Qual é a avaliação que faz do teatro brasileiro hoje?
Era muito melhor antigamente. Hoje todo autor virou demagogo.
Quais os seus autores favoritos? Brasileiros e estrangeiros.
Meus autores brasileiros prediletos são Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Euclides da Cunha. Gosto muito de Dostoiévski. Gosto dele desde jovem. E gosto de Tolstói. A Rússia tem, ou tinha, uma literatura de boa qualidade. Um país onde um escritor pode ser internado num hospital para doentes mentais porque escreveu algo contra o governo não pode ter uma literatura importante. Os Estados Unidos tem um dos maiores dramaturgos do século 20, Eugene O'Neill. Também tem Faulkner e Hemingway. Da França, eu gosto de Gide, Albert Camus e alguns outros. Não suporto Sartre. Ele traiu a condição de escritor quando virou político. Não me entusiasmo muito com Borges. Hoje em dia, eu estou na fase de ler os clássicos de novo. Um livro bom é sempre novo.
Nota: Entrevista publicada pelo jornal “Latin American Daily Post”, em outubro de 1980. E republicada no jornal “O Estado de São Paulo”, em julho de 2002.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Bibi Ferreira, Uma menina abençoada pelo tempo



Num show memorável, Bibi Ferreira desfia a memória de nove décadas como se fosse uma criança diante de um brinquedo
 Foto Studio Prime

 Bibi Ferreira passeia por óperas, sambas, clássicos mundiais e histórias de vida, no Theatro Net Rio
SÉRGIO MAGGIO
 
RIO – Bibi Ferreira tem o dom e a permissão de brincar com o tempo. De pé no palco histórico onde estreou Gota d’água (1975), ela vence, com a altivez de uma sacerdotisa, os 70 minutos do espetáculo Bibi in concert. A mulher de 90 anos se transmuta numa menina de “13 ou 14 anos lá do século 17” para desfiar a memória, que se materializa diante da plateia apinhada do Theatro Net Rio (antigo Tereza Rachel) em carne viva e recheada de lembranças e de esquecimentos.
É essa atriz, humana e mitificada como um fenômeno, que surge diante de olhos encantados, que se arregalam quando o corpo ri e quase desaparecem ao marejar de emoção. “Obrigado, todos nós daqui (do palco) agradecemos muito. Ah, vocês se contentam com pouco. Os americanos fazem isso muito melhor”, brinca, diante de palmas efusivas, gargalhadas dobradas e gritos de “bravo, bravíssimo”.
 Dona de um humor fino e cortante, Bibi Ferreira está à frente de uma orquestra majestosa, comandada pelo maestro Flávio Leite. É um momento especialíssimo em uma gloriosa e única carreira no teatro nacional. “Não me lembro da última vez em que cantei assim, rodeada de músicos como estes”. Com uma delicadeza ímpar, o regente não só constrói arranjos grandiloquentes para a voz potente de Bibi, como é o mestre de cerimônias do espetáculo. É ele que, num diálogo quase íntimo, puxa a ponta do fio da memória para que a mulher de 90 anos estique e brinque como uma garotinha. “E os musicais Bibi? Você foi a primeira a fazer no Brasil”, lembra Flávio. “Ah, os musicais... Fiz Alô, Dolly! O homem de La Mancha, My fair Lady...”, responde Bibi, emendando com uma crônica engraçadíssima sobre o tema, para depois, explodir musicalmente em uma sequência de arrepiar a espinha.
Eclética, passeia por temas do cinema da era de ouro de Hollywood, pelos musicais da Broadway e por inacreditáveis árias de ópera cantadas com letras de samba (La Traviata abrigou perfeitamente os versos de Palpite infeliz, de Noel Rosa). Segue com tangos, samba de breque, bossa nova, samba-canção, transitando por cinco línguas (espanhola, francesa, italiana, inglesa e portuguesa, do Brasil e de Portugal). “O meu primeiro idioma foi o espanhol. Minha mãe era argentina e me levou com apenas 1 ano de idade para morar em Buenos Aires”, revela.
Atriz e cantora indissociáveis, que recria Elizete Cardoso, Amália Rodrigues e Piaf (“esta, aliás, tem me sustentado nos últimos 30 anos”, brinca), Bibi se agiganta a cada sequência do espetáculo. É inalcansável no momento em que encarna Joana, de Gota D´água, obra-prima de Chico Buarque e Paulo Pontes. Puxa do cantinho da memória um dos solilóquios da personagem inspirada na trágica Medeia e ganha uma proporção indescritível no palco. Há um silêncio quase absoluto, quebrado apenas por um ou outro soluço de choro.
Neste momento, lá de atrás no balcão, onde conseguiu duas suadas entradas extras, a poeta e servidora da Câmara dos Deputados Isolda Marinho lacrimeja ao lado do marido, o contador e maratonista Geraldo de Souza. Os dois, que vieram ao Rio para amenizar a saudade do filho Davi, estudante da UFRJ, estão pela primeira vez diante do mito/mulher Bibi. “Chorei o tempo inteiro. Era como se ela cantasse para mim”, confessa Isolda, enquanto o companheiro se adianta para revelar às redes sociais um instante que vai levar pra sempre no cantinho da memória, este magnífico templo que abriga o deus-tempo, o guia e mentor de Bibi Ferreira.     

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Boas histórias de Bemvindo Sequeira

Deus Lhe Pague mendigo Foto 62 653x1024 Ainda sobre Bibi Ferreira  e o pudor do ator
Afinal a barba correta, obra do Mestre Vavá Torres


O fato aconteceu também em "Deus Lhe Pague", de Joracy Camargo , celebrando o centenário de Procópio Ferreira.
Durante os ensaios chegaram a barba e o bigode encomendados para minha personagem. O peruqueiro errara a mão e eu fiquei parecendo mais um Abrahão, ou Moysés, de festa religiosa do interior.
Saí do camarim achando a barba horrorosa e atravessei todo o palco e platéia em busca do olhar de aprovação, ou não, de Bibi para a malfadada bola de pelos que me fora entregue.
Todos os colegas riam a bandeiras desfraldadas  ( hoje com Demóstenes Torres ririam a bandeiras defraudadas).
A barba era ridicula e eu, com meu show particular e minha percepção de comediante a tornava ainda mais risível.
Quando cheguei junto de Bibi ouvi dela o seguinte comentário:
- O senhor deveria ter me chamado ao seu camarim antes de se expor desta forma ridícula perante seus colegas! O senhor é o protagonista da peça, não pode se expor desta maneira. Tenha pudor!!!
Mais um esporro e mais uma lição aprendida.
Sempre grato a Bibi Ferreira e suas lições.

Bibi Ferreira e Walter Avancini, a disciplina e o pudor do ator

Deus Lhe pague foto 1 Bibi Ferreira  e Walter Avancini, a disciplina e o pudor do ator
Eu e Adriane Galisteu em "Deus Lhe Pague " - SP 1999
Quando se fala em disciplina na profissão das artes cênicas sempre se associa logo que disciplina é chegar no horário. Muitas vezes eu ouço atores dizendo:
-Eu sou profissional, chego sempre no horário.
Como se o profissionalismo se resumsse a isto. Chegar no horário é o mínimo que se pode esperar de um ator, porque isto é o que se deve esperar de qualquer pessoa que tenha um compromisso agendado. Profissional , ou não.
Quando eu falo de disciplina refiro-me à disciplina interna  do ator, coisa que aprendi cdom dois mestres: Bibi Ferreira e Walter Avancini, uma no Teatro e o  outro na TV.
Com Bibi aprendi umas coisinhas mais: a credibilidade e o pudor que todo ator deve ter.
Para dar um exemplo conto o fato ocorrido entre eu e Bibi, em São Paulo, quando da estréia da peça "Deus Lhe Pague", de Joracy Camargo, onde contracenava com Humberto Martins e Adriane Galisteu.
Fazia frio na época da estréia, e  eu como bom morador do Rio tinha apenas uma blusa de lã. Por sinal cara e de renomada etiqueta. mas quando cheguei ao saguão do Hotel para ir com ela à estréia no Teatro, ela me disse:
-"O senhor não tem um sobretudo? Vai me aparecer com esta blusinha de lã para a platéia paulistana? O senhor é um ator, um protagonista, uma estrela !!! Tem que estar sempre muito bem vestido, o público o observa sempre. Amanhã o senhor saia e compre um sobretudo. tenha pudor !!!"
Não preciso dizer que ensaiar ou trabalhar de bermudas e chinelos, para Bibi, nem pensar !!!
Em próximos posts continuarei o assunto.

A delícia de ser Clarice/Beth




Uma das montagens teatrais mais aclamadas dos últimos tempos volta à cidade onde estreou nacionalmente   

Sérgio Maggio

A relação de Clarice Lispector com Brasília foi intensa, profunda, visceral e devastadora. Os sentimentos assombrados diante da cidade erguida no centro de Goiás foram plasmados em belíssimo jorro de palavras. Os fragmentos que escorrem nesta página mostram o quanto a mulher sensível era instigada por aquela paisagem inexplicável aos seus olhos. O choque entre o ser humano e o monumental provocou reflexões únicas sobre a novíssima capital brasileira.
A relação de Beth Goulart com Brasília se transformou bruscamente desde que estreou nacionalmente aqui o espetáculo Simplesmente eu, Clarice Lispector, em 9 julho de 2009, no palco do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Na montagem, a atriz se desnuda completamente para dar vazão à imagem lúdica, poética, feminina e potente daquela que é considerada um dos mitos da literatura nacional. “Me senti abraçada pela cidade e pelo público que respirava junto comigo em cada passagem da personagem, em cada reflexão, em cada silêncio. A cada sessão, podíamos quase que segurar nas mãos a densidade do silêncio, era uma meditação coletiva e muito poderosa. Uma experiência inesquecível para mim”, lembra a intérprete.
Depois que saiu daqui em temporada nacional, com sessão extra e uma fila enorme de órfãos que não viram ou queriam repetir a experiência de ficar diante daquela montagem, Beth Goulart viu se concretizar o sucesso esboçado já na estreia, quando a peça nascia sem a urgência dos ajustes. Hoje (05/05), Simplesmente eu, Clarice Lispector reencontra a plateia original numa função dupla, às 21h, e às 23h (a primeira está lotada), no Teatro Oi Brasília. “Com o tempo, o espetáculo ficou mais orgânico e a sua fluidez seguiu com delicadeza as emoções das personagens. A intimidade com Clarice é mais real. É como um vinho que o tempo aprimora.”
Um das atrizes mais representativas de sua geração, Beth Goulart viu o espectador se aproximar mais intimamente do trabalho de Clarice. E foram gloriosos 200 mil até agora em 22 cidades do Brasil. Alguns revelaram que buscaram a literatura imediatamente após sair do teatro. Beth se emocionou ao ouvir tais declarações. “Muitos nunca tinham lido nada dela porque não compreendiam, ou simplesmente pela estranheza de sua literatura. O espetáculo de certa forma criou uma ponte entre a escritora e a mulher. Ela foi entendida por meio da sensibilidade e do reconhecimento, que ela sempre buscou.”
É impressionante ver Beth Goulart em cena como uma Clarice Lispector tão delicadamente exposta. A verossimilhança com a personagem, que chamou bastante a atenção dos espectadores, não assustou a atriz. Na verdade, ela, que escreveu e dirigiu a montagem, seguiu a orientação do mestre Amir Haddad (supervisor do projeto) de parecer por dentro e não por fora de Clarice. “Revelar não a solidão de Clarice mas a minha, não a sua angústia, mas a minha. Nesse sentido, eu me revelei no espetáculo tanto quanto ela.”

SIMPLESMENTE EU, CLARICE LISPECTOR
Direção, texto e atuação de Beth Goulart. Supervisão: Amir Haddad. Hoje 05/05, às 21h (esgotado), e, às 23h, no Teatro Oi Brasília. Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia). Não recomendado para menores de 12 anos.  

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A dama do teatro






Mariana Moreira

Beatriz Segall não é dada a verborragias. Não é de seu estilo vangloriar-se dos feitos de sua carreira, que já atravessa seis décadas. No palco é que todo o seu diapasão cênico aflora. Desde que pisou no tablado pela primeira vez, em 1950, em uma montagem de O belo indiferente, de Jean Cocteau, ela já criou as mais variadas nuances para suas personagens, a ponto de considerar todos os sonhos artísticos realizados. “Já fiz tudo o que quis”, admite. Ainda assim, guarda fôlego para novas aventuras. Divide a cena, pela primeira vez, com o ator Herson Capri, na peça Conversando com mamãe, que demarca outra estreia: a de Susana Garcia, mulher de Capri, na direção. A peça faz rápida passagem por Brasília, hoje (03/05) e amanhã (04/05), às 21h, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional.
“Beatriz é uma grande dama dentro e fora de cena. Além de atriz excepcional, é uma pessoa especial, inteligente, culta e tem um caráter excepcional. Fomos nos conhecendo aos poucos e logo passei a considerá-la uma grande amiga”, elogia Capri, seu parceiro de cena. Foi ele o grande chamariz para que Beatriz aceitasse o convite, processo que acabou surpreendendo a veterana. “Susana sabe muito bem o que está pedindo ao dirigir os atores, o que é coisa rara”, afirma a atriz.
A perspectiva atual é a de uma vitoriosa, mas não foi fácil para a menina bem educada, filha de professores, versada em línguas, se integrar ao olimpo teatral, pois já a rondava o rótulo de burguesa. “Quando fui para São Paulo, as pessoas da classe artística achavam que eu estava ocupando o lugar dos outros”, conta. Mas ela foi em frente e traçou para si uma biografia de peso: já esteve ao lado de grandes nomes do teatro brasileiro, como Jardel Filho, Henriette Morineau, Gianfrancesco Guarnieri, Gianni Ratto, entre outros. Ao lado do marido, Maurício Segall, recuperou o Theatro São Pedro, em São Paulo, associou-se a grupos contemporâneos, como o Tapa, e ganhou fama na televisão.
Audiência

O capítulo Odete Roitman, por sinal, a persegue aonde quer que vá. Para muitos brasileiros, nunca houve, ou haverá uma vilã como ela. A reprise da novela Vale tudo, em TV fechada, chegou a liderar a audiência em seu horário de exibição, 1h da manhã. Mas a atriz não acompanhou a saga televisiva e acredita que voltar às telas não a torna mais conhecida do público jovem. “Acho que não interferiu em nada. A novela passava muito tarde”, desconversa.
Os anos de dedicação, no entanto, não garantem a viabilidade de seus projetos. “Nem sempre encontramos bons teatros e técnicos nas viagens. Patrocínio também é coisa difícil, porque teatro não dá dinheiro e se ninguém vai ficar rico, é difícil conseguir”, protesta. Dificuldades de coxia à parte, quando Beatriz surge no palco, sua mística parece intacta. Sobre a atriz, o diretor Marcelo Reinecke já escreveu: quando ela entra em cena, os deuses do teatro sorriem.



60 anos
Tempo de carreira
da atriz

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A visita da velha senhora



Uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, Suzana Faini destaca-se em A mecânica das borboletas, montagem em que vive uma personagem à deriva do tempo

Sérgio Maggio

CENA 1 (tarde, às 16h, Setor Hoteleiro Sul) — Após sessão de nebulização para combater uma sinusite, a atriz Suzana Faini senta à cabeceira de uma longa mesa de reunião para rememorar décadas de ofício dedicado ao teatro e à dança. Aparenta, a princípio um pouco cansada, mas ao desfiar a memória, ganha entusiasmo. Chove lá fora e pessoas passam apressadas pela janela.
— Nossa é tanta coisa que vai aparecendo à mente. Há algumas que nem me lembrava mais.
CENA 1 (noite, às 21h10, Centro Cultural Banco do Brasil) — A personagem Rosália rega o canteiro de flores onde foram jogadas as cinzas do corpo do marido, Otto, enquanto duas lindas mariposas voam.
— Não se deve correr atrás das borboletas. É preciso cuidar bem do jardim para que as borboletas voltem.
Entre a mulher de carne e osso que se recupera do incômodo respiratório e a personagem atormentada da peça A mecânicas da borboletas, surgem diante dos olhos uma atriz e uma memória que se tecem em delicada coerência. Em cada ação do espetáculo presente ou em cada fiapo de história recontada, Suzana Faini se impõe, com naturalidade, sem precisar a recorrer a rótulos fáceis, como o de dama do teatro brasileiro. A princípio, ela não se sente muito à vontade com o título que a coloca no panteão das grandes intérpretes. Parece não lhe caber a boca. No entanto, quando pisa no palco e faz a narrativa cair tão facilmente em suas mãos ou quando enumera a trilha de montagens históricas, o lisonjeio lhe cai como uma sapatilha num pé de bailarina. Aliás, foi por aí que a menina começou.
 — Vim de um família de artistas. Meus pais eram cantores de ópera. Tinham uma vinda intensa tanto que os quatro filhos nasceram entre Rio e São Paulo.
Desde pequena, Suzana nasceu nesse ambiente cheio de possibilidades artísticas. Tinha uma tia violinista de orquestra. Aprendeu o instrumento e foi fazer balé clássico. Acabou fazendo parte do corpo de baile do Municipal do Rio de Janeiro. Adolescente descobriu um curso de teatro com a grandiosa Maria Clara Machado e experimentou jogos de improvisação.
— Nesse tempo, fazia muito coisa ao mesmo tempo. Trabalhava, estudava, aprendia violino e caminhava para a profissionalização da dança, que culminou como a minha ida ao famoso Ballet do IV Centenário de São Paulo. Foi lá que fiz um curso com Eugênio Kusnet (um dos responsáveis por introduzir no Brasil o método de Stanislavski) no Teatro Oficina.
 Suzana que cuidava de sua carreira como um jardim semeava aos poucos o teatro. Curiosamente, a televisão, que surgia e deslumbrava o brasileiro nos anos 1950 e 1960, foi a ponte. Suzana cruzou um caminho inverso e incomum. Parou em programas de música fazendo coreografias de fundo. O trabalho artístico não satisfazia mas abriu portas. Ali, ela descobriu os estúdios de novelas.
— Quis ser apresentadora de telejornal. Achava bonito. Mas não tinha salário para me pagar. Aí falaram para eu tentar as novelas e acabei estreando numa trama de Gloria Magadan (a cubana que antecedeu o sucesso de Janete Clair).
Daí para o primeiro grande sucesso nacional não demorou muito. Irmãos Coragem, a novela que colocou os homens diante da tevê, projetou Suzana no papel de Cema. A personagem era polêmica. Sofreu um estupro de um branco e escondeu do marido negro, criando um suspense sobre o nascimento do bebê.
— O público torcia para que a criança nascesse negra. Era a primeira vez que se mostrava um estupro numa novela. Era também inédita a relação de um casal étnico. Ganhei um prêmio do Sindicato dos Garimpeiros pela composição da personagem. Foi um orgulho.
O sucesso no tevê abre um caminho em sucessivas produções de Janete Clair, sobretudo. Mas, era, nos bastidores do teatro, que Suzana Faini criava o seu verdadeiro ambiente artístico. A experiência em dança e os conhecimentos musicais faziam dela uma estreante especial. Começou em pequenas substituições como em Oh, que delícia de Guerra, de Ademar Guerra. Depois, foi emendando produções.
— Lembro a perfeitamente da primeira vez que usei a minha voz no palco. Foi uma sensação muito especial.


O amigo B. de Paiva
São muitas as montagens que visitam a memória de Suzana Faini. A morte de Danton, espetáculo histórico de Aderbal Freire-Filho, que ocupou o canteiro de obras do Metrô do Rio, em 1977, saltam aos olhos da atriz. O texto de alemão George Buchner falava de revolução e ganhava encenação em espaço alternativo, que lembrava as ruínas da guerra. Ali, provavelmente, conheceu o diretor cearense B. de Paiva, que a dirigiu em A casa de Bernarda Alba.
— Gosto tanto dele. Ele vai me assistir em Brasília. Vai ser um dia especial.
A lista de montagens teatrais é grande. Suzana, dona de um coração mole, costuma dizer “sim” com facilidades aos projetos. Acha até que deveria selecionar mais. Ano passado, estava com seis propostas sobre a mesa. Nenhum deles era A visita da velha senhora, de Friedrich Dürrenmatt , uma peça que sempre sonhou fazer. Ficou com dois deles. Um dos mais recentes foi especialíssimo. A substituição da amiga Ida Gomes, que morreu em 2009, no cultuado musical 7, da dupla Claudio Botelho e Charles Möeller.  
— Ida era minha amiga. Uma atriz maravilhosa. Insubstituível. Queriam que eu assistisse ao DVD da peça. Não quis. Não poderia imitá-la. Minha homenagem foi construir uma nova personagem. Ficou totalmente diferente, emociona-se Suzana Faini, antes de seguir para o teatro, virar Rosário, cuidar do jardim da memória e esperar as visitas das duas borboletas.  

terça-feira, 17 de abril de 2012

As 3 velhas em Cuba


Maria Alice Vergueiro, em passagem na homenagem a Dina Sfat, no Mitos do Teatro Brasileiro


                                                                 Sérgio Maggio

Maria Alice Vergueiro está em êxtase. No dia 5 de maio, atriz e uma equipe de 10 profissionais seguem para Cuba, onde, juntos, vão apresentar o espetáculo As 3 velhas, que teve temporada de casa cheia e repercussões de público e crítica no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A montagem integra o prestigiado e tradicional festival Maio Teatral, organizado pela Casa de las Américas. “Estamos estudando como vamos fazer para adaptar a peça para o espectador cubano. Não sei se seria o caso de usar legendas. Talvez, uma síntese dos quadros resolveria, já que a peça tem um forte impacto visual e fala por si”, conta a atriz.
Sempre ligada ao movimento de vanguarda brasileiro, Maria Alice Vergueiro sonhou em ir a Cuba, num período de extrema obstrução da liberdade individual. Na década de 1970, com o Brasil mergulhado na ditadura militar, ela desejou conhecer a ilha de Fidel Castro, mas era muito perigoso, já que estava envolvida, sobretudo, com o Teatro Oficina, espaço que foi cerceado e violentado pela censura e por grupos armados de direita. “Agora, estamos neste momento interessante de transição. Acredito que há uma grande expectativa e muita cautela sobre esse processo de abertura. Como ficara? Eu não sei. Mas espero que eles consigam preservar todas as conquistas”, conta.
Com a apresentação marcada para 7 de maio, As 3 velhas apresenta ao povo cubano os pensamentos de Alejandro Jodorowsky, poeta, escritor, cineasta e dramaturgo chileno, que teve aproximações ideológicas com Cuba, nos anos 1960. Maria Alice e Jodorowsky se conheceram no Brasil e travaram aproximações afetivas a partir do jogo de tarô, exercício mítico e essencial para o criador chileno, em plena atividade hoje no Twitter. “O texto de As 3 velhas teve bastante interferência nossa. Mas a essencial é completamente dele”, observa a atriz.
Depois de temporadas no Rio, Brasília e São Paulo, As 3 velhas segue a estrada em festivais. Neste ano, passou por Recife e Fortaleza, seguindo em promissora carreira desde que estreou em 2010. Em cena, Maria Alice Vergueiro, Luciano Chirolli e Danilo Grangheia abalam as estruturas da burguesia ao retratar a vida de marquesas octogenárias e decadentes, num dos espetáculos mais inquietantes da última safra do teatro brasileiro, no qual Maria Alice Vergueiro, uma das nossas maiores damas do palco, expõe corpo e alma de atriz para construir uma experiência memorável. “Acredito que haverá um diálogo potente em Havana. Depois da apresentação, todos os artistas ainda participaram de um interessante e amplo debate sobre o tema teatro e realidade. Acho que vai sair coisas instigantes dessa conversa”, conta.