Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Senhora do Tempo
O ano de 1941 ainda está na cabeça de Bibi
Ferreira. Ela, uma garota demasiadamente
inebriada, nem tinha ciência
do passo que daria na estreia profissional,
com o espetáculo O inimigo das mulheres,
de Carlo Goldoni. Nos bastidores do Teatro Serrador,
via o pai, Procópio Ferreira, de mãos trêmulas,
nervoso de felicidade. Em casa cheia, o
público cativo de teatro não tirava os olhos da
filha do maior ator cômico do Brasil. Inconsciente
da devoradora expectativa, a aspirante a
atriz cumpriu a função e viu os aplausos e a crítica
selarem o destino dela: nascia ali o fenômeno
Bibi Ferreira, que chega aos 90 anos como
dama absoluta dos palcos brasileiros.
— Hoje, aqui nesta noite, está aberta
oficialmente a minha filial, diria profeticamente
Procópio Ferreira, em 1944, quando
jovem Bibi assumia a função de empresária
à frente de sua companhia teatral, com
a montagem Sétimo céu.
Ser cria artística daquele que foi o ator das
multidões já era em si um desafio grandioso.
Bibi Ferreira, no entanto, rompeu a condição
de filha de Procópio para se tornar uma artista
sem limites. Intérprete nascida em um
tempo em que o teatro brasileiro estava em
franco movimento de transição para a modernidade,
ela abraçou o ofício sem medo de
percorrer o movediço terreno entre a tradição
e a contemporaneidade. Não à toa, um
dos espetáculos mais emblemáticos da carreira
pertence à seara dos musicais políticos
dos anos 1970. Ela foi a primeira Joana, da
obra-prima Gota d’água, de Chico Buarque e
Paulo Pontes, encenada justamente no palco
do Tereza Rachel, em que sobe, amanhã, para
celebrar a longevidade artística.
— Retornar ao palco onde apresentei pela
primeira vez, em 1975, o musical Gota d’água
é de fato emocionante. Já faz algum tempo
que estamos amadurecendo a concepção
desse novo espetáculo para comemorar os
meus 90 anos de idade e a reinauguração
desse teatro. Nesse show, conto histórias da
minha vida que jamais havia revelado e reproduzo
os musicais que fiz e aqueles que eu
gostaria de ter feito, adianta Bibi Ferreira.
Atualíssima
Cercada por uma orquestra de 27 músicos,
regida pelo maestro Flávio Mendes, Bibi estará
sob os holofotes como uma artista que
atravessou a primeira década do século 21
atualíssima. O passado glorioso é apenas a
matéria-prima. Quem ficar diante de Bibi Ferreira
vai, sobretudo, apreciar o aqui e agora de
uma voz que arrebata a plateia e a lança ao êxtase.
Cantando a francesa Piaf, a portuguesa
Amália Rodrigues ou compositores brasileiros
(Nossos momentos, de Haroldo Barbosa e Luís
Reis), ela une a capacidade invulgar de unir as
interpretações de atriz e de cantora num só
corpo. Ela pisa no palco ao som de Malandragem,
sucesso de Cazuza na voz de Cássia
Eller, e segue entre um pot-pourri de Gota d’água
e temas de musicais da Broadway.
— É um sonho reabrir esse teatro com a
incrível Bibi Ferreira. Ela é de uma vitalidade e
de uma vivacidade admiráveis. Quero chegar
aos 90 assim, projeta o jovem produtor e empresário
Frederico Reder, 28 anos, responsável por
reativar o Teatro Tereza Rachel (agora Theatro
Net Rio), que, em 2001, virou templo evangélico.
Com temporada de dois meses, Bibi —
Histórias e canções lança pontes para uma
nova geração, acostumada a pautar a existência
dos ídolos do palco a partir da aparição
nos programas televisivos, percorrer os multicaminhos
da diretora, responsável por sucessos
históricos — a exemplo de Brasileiro,
profissão: esperança, de Paulo Pontes, que teve
as duplas Maria Bethânia & Ítalo Rossi e
Clara Nunes & Paulo Gracindo revezando-se
em duas temporadas distintas — e por incontáveis
montagens comerciais; da atriz e da
cantora, que viaja o mundo, num francês irretocável,
a recriar as canções da Piaf. Quando
se unem, Bibi e Piaf tocam a perfeição.
BIBI – HISTÓRIAS E CANÇÕES
Theatro Net Rio (Shopping Copacabana). De
sexta a domingo, até 27 de maio. Ingressos:
R$ 150 (plateia inferior) e R$ 100 (Balcão).
Não recomendado para menores de 12 anos.
Informações: www.theatronetrio.com.br.
democrático
O histórico Teatro Tereza Rachel volta
reformado, de nome novo (Theatro Net
Rio) e com duas salas. A primeira,
inaugurada por Bibi, mantém o nome da
atriz e antiga proprietária. Surge
ampliada de 550 lugares para 798. A
outra, em construção, será batizada de
Paulo Pontes (dramaturgo e autor de
Gota d´água), com capacidade para 200
espectadores. O empreendimento
devolveu o espaço histórico ao circuito
cultural do Rio de Janeiro.
Aberto em 14 de outubro de 1971
(sucedendo a gestão de Ruth Escobar),
com o antológico show A todo vapor, de
Gal Costa, o Terezão, conhecido assim
pela ampla extensão ocupada no
Shopping Copacabana foi palco de
espetáculos históricos. Ali, lembra
Frederico Reder, teve Dzis Croquetes,
Gilberto Gil com o show 2222 e
Gonzagão em sua retomada gloriosa,
com Luiz Gonzaga volta pra curtir. A
ideia da atual gestão é seguir
naturalmente o caminho traçado ao
longo de quatro décadas e assumir o
perfil artístico diversificado e
democrático, interrompido pelo período
em que a casa foi arrendada por oito
anos para uma igreja evangélica.
My fair lady
ESPECIAL PARA O CORREIO
Fui ao encontro de Bibi Ferreira, em seu apartamento, no Flamengo, numa tarde de julho de 2010, a fim de colher depoimento para o projeto Mitos do Teatro Brasileiro, que homenagearia Procópio Ferreira. A atriz sentou-se calmamente diante da câmera, delicadamente dirigiu o registro e, ao ouvir o sinal de gravando, respirou e cresceu extraordinariamente, como se estivesse num palco, diante do visor. Foi emocionante
vê-la passear pelo teatro que a abraçou desde menina. E mais vigoroso testemunhar ao vivo o carinho com que ela se lembra do pai,um dos maiores atores deste país.Divido aqui, com os leitores do Correio, alguns momentos daquela conversa que ficará para sempre em minha memória.
PROCÓPIO, PAI
“Papai, convivi muito pouco com ele. As verdades precisam ser ditas. Ele se separou de mamãe (a atriz e cantora Aída Izquierdo) quando eu tinha 1 ano de idade. Depois, voltaram a ser amigos quando eu tinha de 5 a 8 e se separaram definitivamente. Esse Procópio pai eu não tive.Mas o papai do teatro compensava qualquer falta, um homem organizado, meticuloso e alegre. Tinha o hábito de chegar ao teatro com
aquela voz deslumbrante, de dicção perfeita, e extensão vocal, que se ele falasse na peça um segredo,
numtom menor, o sussurro era ouvido na última fila”
PROCÓPIO, ATOR
“Eraumhomemquefaziaparte
da família do Brasil, era a alegria
do país numa época em que
não existia a televisão. Ele viajava
esse país enorme a ponto de GetúlioVargas
anunciar: ‘Procópio
botou mais cidades no mapa do
Brasil do que muito cartógrafo.
Como só existiam grandes teatros
nas cidades antigas, papai
trabalhava na igreja, nas varandas,
nas casas dos prefeitos. Não
tinha problemas. Era bem-vindo
nas cidades”
DUO NO PALCO
Várias vezes, eu e papai atuamos
juntos no palco e, não muito,
tínhamos que fazer personagens
que não eram pai e filha.
Fizemos papéis de marido emulher
e até amantes. Podia contar
que seria um insucesso a peça
em que éramos amantes. A reação
era negativa. A moral do povo
não admitia. Descobrimos
isso, quatro ou cinco peças depois.
Um dos nossos maiores
sucessos foi Divórcio, de Clemence
Dane, o primeiro grande
drama da carreira de papai”
PRECONCEITO
Fui estudar no colégio de freiras do Sion e as elas se negaram a ter a menina filha de artista, filha de Procópio Ferreira. Papai era um homem de prestígio na sociedade e tinha muitos amigos importantes, como Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, o dono dos jornais do Brasil. Ele fez disso que aconteceu em nossas vidas um escândalo brutal, denunciando essa situação. Hoje, as famílias pagam os atores para animar as festas de 15 anos de suas filhas,veja bem como a coisa mudou”
DULCINA DE MORAES
Era dona de uma coragem enorme. A prova é o Teatro Dulcina de Moraes e a Fundação Brasileira de Teatro, edificados tijolo por tijolo em Brasília. Inauguramos o teatro com Gota d’água. Dulcina vivia uma vida de teatro, de duas sessões por dia, numa épocas em descanso semanal. Foi a primeira a acabar com tudo isso, com as folgas às segundas. Tinha um repertório eclético e de grandes sucessos, como Chuva. Ela merecia uma estátua em Brasília,em frente à faculdade.O corpo dela presente como sempre
diante do teatro”
MEMÓRIA
Falta ao Brasil mais atenção aos artistas nacionais. Alda Garrido, uma grande atriz, inesquecível em Dona Xepa; Iracema de Alencar, outra intérprete maravilhosa; Conchita deMoraes; Palmerim Silva…Tantos grandes nomes esquecidos. Se não temos um museu bem cuidado para Carmem Miranda, que foi tão longe, como teremos para essas pessoas que foram a alegria do povo. Precisávamos cuidar mais das nossas
coisas, das lembranças dessa gente que tanto nos divertiu, numa época sem televisão”
segunda-feira, 26 de março de 2012
Artista sem rótulos

O dramaturgo Sérgio Maggio com Chico no palco do CCBB
Consagrado pela tevê, Chico Anysio se tornou uma referência em diversas linguagens. No teatro, foi pioneiro nos shows de humor
SÉRGIO MAGGIO
No especial de Chico Anysio que foi ao ar em 2 de janeiro de 2011, o olhar debilitado do homem atravessa a máscara das dezenas de personagens que surgiam diante da tevê. A voz, uma das ferramentas mais potentes desse ator genial, revelava o declínio físico. Mesmo assim, como um herói diante de sua saga, o intérprete atravessou, com dignidade, o último programa no veículo que o consagrou como um mito. Dos impagáveis tipos, há pelo menos um que cabe no gosto de cada brasileiro. Assim como é difícil eleger um entre tantos amores, é raro encontrar alguém que não enxergue em Chico uma unanimidade.
— Normalmente, os personagens saem de pessoas que conheço, avisava o humorista.
A identificação era tanta que as reivindicações, por vezes, vinham em coletividade. Era o caso do malemolente Painho, o guru das estrelas.
— Todos os pais de santo da Bahia acham que eles me deram inspiração para criá-lo, brincava Chico.
O pai dos 209 tipos guardava com gosto o amor pelo Professor Raimundo. Por vários motivos: a) Foi o personagem que veio da era do rádio, revelando uma geração de humoristas de primeira linha. O genial Mussum começou por lá, Tom Cavalcante também; b) A versão televisiva dos anos 1990 permitiu que Chico Anysio trouxesse de volta ao batente gente da estirpe de Grande Othelo, Rogério Cardoso, Nádia Maria, Brandão Filho, Costinha e Walter D’Ávila; c) O personagem era uma “escada” para os atores-alunos brilharem; d) O Professor Raimundo era uma crítica social ao sistema educacional brasileiro e uma defesa explícita à valorização do profissional mais importante de uma nação.
— Ele é o mais respeitado de todos os 209 personagens que criei, afirmava.
“E o salário, ó” correu o Brasil como tantas outras centenas de bordões. Por três décadas (1970 a 1990), Chico Anysio foi líder absoluto de audiência. Gerações inteiras cresceram sob a gozação de criaturas incontroláveis como o mulherengo Nazareno, o contador de causos Pantaleão, o ranzinza Popó, o “ex-gay” Haroldo e o deputado corrupto Justo Veríssimo.
Consagrado na tevê, Chico Anysio nunca coube num rótulo. Muitos analistas de sua obra diziam que se ele tivesse nascido nos Estados Unidos ou na Europa, seria tratado como um sumidade. Chico ria dessa bobagem. Sempre buscou a humildade como amparo para a gangorra de altos e baixos de um artista brasileiro. Fez história singular no teatro. Foi, ao lado de José Vasconcellos e Dercy Gonçalves, pioneiro dos shows de humor, hoje a febre conhecida como stand-up comedy. Até a passagem por Brasília em outubro, o filho André Lucas tinha contabilizado 11.358 apresentações em teatros de Norte a Sul do país, além de passagens pelo exterior. Alguns intérpretes consagrados, como Marília Pêra, admitem ter feito escola de humor vendo Chico Anysio atuar de cara limpa e gestos econômicos no palco.
— O teatro permite que eu seja eu mesmo todo dia porque a plateia muda. A televisão é o contrário. Permite que eu mude porque a plateia é a mesma todo dia, analisava.
Apaixonado por casamentos (“quando estou com alguém, sou extremamente fiel”), por futebol (adorava ser comentarista — foi flamenguista e depois vascaíno), por música (ele compôs alguns clássicos como Rio antigo), por escrita (foi um cronista e romancista elogiado), por marinas (tema que o consagrou como pintor) e por filhos (teve oito, com orgulho), Chico Anysio amava estar vivo. Trabalhar, para ele, estava no campo dos prazeres. Por isso dizia fazer tudo com tanto gosto e perfeição.
— Levo muito a sério o meu trabalho e é por isso que estou há tanto tempo aí. Faço meus textos pensando nas classes B, C, D e E. Se a classe E entende, todos entendem. Não faço para a classe A porque eles sempre estão em Angra dos Reis (RJ) nem pra B, porque eles sempre estão no Antiquarius (restaurante carioca).
Era tão crítico de si, que um dia pensou em ser deputado. Mas desistiu em bom tempo. Ria dessa maluquice. Um dia ouviu a pergunta:
— E se o senhor fosse eleito hoje presidente da República, qual seria sua primeira decisão?
Sem pestanejar, tirou da garganta:
— Renunciar. (risos)
PONTO A PONTO
Pílulas de humor *
Mulheres
Todas eram no tempo em que eram. Vou lhe dizer: eu fui dispensado muito mais vezes do que dispensei. Noventa e cinco por cento me dispensaram, cinco por cento, dispensei. Faço muitos shows, sempre fiz, e elas achavam ruim eu ter de sair para fazer os shows… Não se ama igual duas vezes, quanto mais nove vezes (risos).
Filhos
Os meus filhos são apaixonados por mim, não pelas mães. Isso porque, quando chegava das viagens, eu ficava da idade deles. Nunca bati num filho ou numa filha. Acho que nem castiguei, tipo: fica sem cinema domingo. Parto do princípio de que se uma criança erra não é por querer, é por não saber.
Maranguape
Tenho saudade do tempo em que era menino em Maranguape (CE), tinha 8 anos de idade e fazia o que queria, pois, na época, eu era filho de rico (o pai era dono de uma frota de ônibus e quebrou).
Humorísticos
Se permite, vou perder um pouco da modéstia. Se meu programa sair do ar, quem perde é o público e não eu. A juventude não vê a televisão, vê programas. Quem faz humor atualmente na tevê é A praça é nossa e Zorra total, ninguém mais.
Os Melhores do Mundo
Sou suspeito (risos), sou padrinho deles. Gosto deles todos. Eles viveram dois momentos na vida. Um ruim, quando os teatros eram vazios, e depois o momento do grande sucesso, quando estourou o quadro Joseph Klimber. Aí eles passaram a ser uma coqueluche nacional.
Humor
Há dois tipos de humor: o engraçado e o sem graça. Quando o humorismo não é entendido, as pessoas o colocam na gaveta dos sem graça. Foi o que aconteceu com o pessoal dos Melhores do Mundo no início, mas quando a plateia começou a entender, virou um grande sucesso.
Vira-casaca
Em primeiro lugar, não é proibido mudar de time (Chico foi torcedor do Palmeiras, do América, do Flamengo e agora é vascaíno). Em segundo lugar, se um cara muda de fé, ele não é um vira-cruz; se ele troca de mulher, não é vira-colchão; se ele muda de rua, não é vira-placa; se ele muda de partido, não é vira-voto. Por que mudar de time é vira-casaca?
Rio antigo
Era maravilhoso. A gente saía do cinema, à meia-noite, e ia para a casa de Álvaro Moreira (poeta e escritor) em Copacabana. Carlos Lacerda morava na casa dele. A gente ficava até as três, quatro horas da manhã conversando, tomando uísque, comendo tapioca, canjica… Sandro Moreira, João Saldanha, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli… muita gente aparecia por lá. A porta da casa estava sempre aberta, naquele tempo não tinha assalto.
Bossa nova
O problema da bossa nova é que o Brasil é um país apressado demais. A França até hoje procura sua identidade musical; a Alemanha até hoje procura a sua música, e não achou; Portugal achou o fado, os americano acharam o jazz, e o Brasil achou vários (samba, baião, bossa nova, etc.). No Japão, a bossa nova foi adotada por eles. Aqui, ninguém quer mais ouvi-la.
Compositor
Compus umas 400. Tenho gravações cantadas por Maysa, Silvio Caldas, Orlando Silva, Alcione…
* Entrevista concedida ao Correio Braziliense em 20 de outubro de 2010 a Irlam Rocha Lima, José Carlos Vieira e Sérgio Maggio.
Consagrado pela tevê, Chico Anysio se tornou uma referência em diversas linguagens. No teatro, foi pioneiro nos shows de humor
SÉRGIO MAGGIO
No especial de Chico Anysio que foi ao ar em 2 de janeiro de 2011, o olhar debilitado do homem atravessa a máscara das dezenas de personagens que surgiam diante da tevê. A voz, uma das ferramentas mais potentes desse ator genial, revelava o declínio físico. Mesmo assim, como um herói diante de sua saga, o intérprete atravessou, com dignidade, o último programa no veículo que o consagrou como um mito. Dos impagáveis tipos, há pelo menos um que cabe no gosto de cada brasileiro. Assim como é difícil eleger um entre tantos amores, é raro encontrar alguém que não enxergue em Chico uma unanimidade.
— Normalmente, os personagens saem de pessoas que conheço, avisava o humorista.
A identificação era tanta que as reivindicações, por vezes, vinham em coletividade. Era o caso do malemolente Painho, o guru das estrelas.
— Todos os pais de santo da Bahia acham que eles me deram inspiração para criá-lo, brincava Chico.
O pai dos 209 tipos guardava com gosto o amor pelo Professor Raimundo. Por vários motivos: a) Foi o personagem que veio da era do rádio, revelando uma geração de humoristas de primeira linha. O genial Mussum começou por lá, Tom Cavalcante também; b) A versão televisiva dos anos 1990 permitiu que Chico Anysio trouxesse de volta ao batente gente da estirpe de Grande Othelo, Rogério Cardoso, Nádia Maria, Brandão Filho, Costinha e Walter D’Ávila; c) O personagem era uma “escada” para os atores-alunos brilharem; d) O Professor Raimundo era uma crítica social ao sistema educacional brasileiro e uma defesa explícita à valorização do profissional mais importante de uma nação.
— Ele é o mais respeitado de todos os 209 personagens que criei, afirmava.
“E o salário, ó” correu o Brasil como tantas outras centenas de bordões. Por três décadas (1970 a 1990), Chico Anysio foi líder absoluto de audiência. Gerações inteiras cresceram sob a gozação de criaturas incontroláveis como o mulherengo Nazareno, o contador de causos Pantaleão, o ranzinza Popó, o “ex-gay” Haroldo e o deputado corrupto Justo Veríssimo.
Consagrado na tevê, Chico Anysio nunca coube num rótulo. Muitos analistas de sua obra diziam que se ele tivesse nascido nos Estados Unidos ou na Europa, seria tratado como um sumidade. Chico ria dessa bobagem. Sempre buscou a humildade como amparo para a gangorra de altos e baixos de um artista brasileiro. Fez história singular no teatro. Foi, ao lado de José Vasconcellos e Dercy Gonçalves, pioneiro dos shows de humor, hoje a febre conhecida como stand-up comedy. Até a passagem por Brasília em outubro, o filho André Lucas tinha contabilizado 11.358 apresentações em teatros de Norte a Sul do país, além de passagens pelo exterior. Alguns intérpretes consagrados, como Marília Pêra, admitem ter feito escola de humor vendo Chico Anysio atuar de cara limpa e gestos econômicos no palco.
— O teatro permite que eu seja eu mesmo todo dia porque a plateia muda. A televisão é o contrário. Permite que eu mude porque a plateia é a mesma todo dia, analisava.
Apaixonado por casamentos (“quando estou com alguém, sou extremamente fiel”), por futebol (adorava ser comentarista — foi flamenguista e depois vascaíno), por música (ele compôs alguns clássicos como Rio antigo), por escrita (foi um cronista e romancista elogiado), por marinas (tema que o consagrou como pintor) e por filhos (teve oito, com orgulho), Chico Anysio amava estar vivo. Trabalhar, para ele, estava no campo dos prazeres. Por isso dizia fazer tudo com tanto gosto e perfeição.
— Levo muito a sério o meu trabalho e é por isso que estou há tanto tempo aí. Faço meus textos pensando nas classes B, C, D e E. Se a classe E entende, todos entendem. Não faço para a classe A porque eles sempre estão em Angra dos Reis (RJ) nem pra B, porque eles sempre estão no Antiquarius (restaurante carioca).
Era tão crítico de si, que um dia pensou em ser deputado. Mas desistiu em bom tempo. Ria dessa maluquice. Um dia ouviu a pergunta:
— E se o senhor fosse eleito hoje presidente da República, qual seria sua primeira decisão?
Sem pestanejar, tirou da garganta:
— Renunciar. (risos)
PONTO A PONTO
Pílulas de humor *
Mulheres
Todas eram no tempo em que eram. Vou lhe dizer: eu fui dispensado muito mais vezes do que dispensei. Noventa e cinco por cento me dispensaram, cinco por cento, dispensei. Faço muitos shows, sempre fiz, e elas achavam ruim eu ter de sair para fazer os shows… Não se ama igual duas vezes, quanto mais nove vezes (risos).
Filhos
Os meus filhos são apaixonados por mim, não pelas mães. Isso porque, quando chegava das viagens, eu ficava da idade deles. Nunca bati num filho ou numa filha. Acho que nem castiguei, tipo: fica sem cinema domingo. Parto do princípio de que se uma criança erra não é por querer, é por não saber.
Maranguape
Tenho saudade do tempo em que era menino em Maranguape (CE), tinha 8 anos de idade e fazia o que queria, pois, na época, eu era filho de rico (o pai era dono de uma frota de ônibus e quebrou).
Humorísticos
Se permite, vou perder um pouco da modéstia. Se meu programa sair do ar, quem perde é o público e não eu. A juventude não vê a televisão, vê programas. Quem faz humor atualmente na tevê é A praça é nossa e Zorra total, ninguém mais.
Os Melhores do Mundo
Sou suspeito (risos), sou padrinho deles. Gosto deles todos. Eles viveram dois momentos na vida. Um ruim, quando os teatros eram vazios, e depois o momento do grande sucesso, quando estourou o quadro Joseph Klimber. Aí eles passaram a ser uma coqueluche nacional.
Humor
Há dois tipos de humor: o engraçado e o sem graça. Quando o humorismo não é entendido, as pessoas o colocam na gaveta dos sem graça. Foi o que aconteceu com o pessoal dos Melhores do Mundo no início, mas quando a plateia começou a entender, virou um grande sucesso.
Vira-casaca
Em primeiro lugar, não é proibido mudar de time (Chico foi torcedor do Palmeiras, do América, do Flamengo e agora é vascaíno). Em segundo lugar, se um cara muda de fé, ele não é um vira-cruz; se ele troca de mulher, não é vira-colchão; se ele muda de rua, não é vira-placa; se ele muda de partido, não é vira-voto. Por que mudar de time é vira-casaca?
Rio antigo
Era maravilhoso. A gente saía do cinema, à meia-noite, e ia para a casa de Álvaro Moreira (poeta e escritor) em Copacabana. Carlos Lacerda morava na casa dele. A gente ficava até as três, quatro horas da manhã conversando, tomando uísque, comendo tapioca, canjica… Sandro Moreira, João Saldanha, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli… muita gente aparecia por lá. A porta da casa estava sempre aberta, naquele tempo não tinha assalto.
Bossa nova
O problema da bossa nova é que o Brasil é um país apressado demais. A França até hoje procura sua identidade musical; a Alemanha até hoje procura a sua música, e não achou; Portugal achou o fado, os americano acharam o jazz, e o Brasil achou vários (samba, baião, bossa nova, etc.). No Japão, a bossa nova foi adotada por eles. Aqui, ninguém quer mais ouvi-la.
Compositor
Compus umas 400. Tenho gravações cantadas por Maysa, Silvio Caldas, Orlando Silva, Alcione…
* Entrevista concedida ao Correio Braziliense em 20 de outubro de 2010 a Irlam Rocha Lima, José Carlos Vieira e Sérgio Maggio.
Outros tantos num só
Chico Anysio com o ator Jones de Abreu no palco do CCBBConhecido sobretudo pelo humor, Chico Anysio se destacou como compositor, roteirista, escritor e exímio pintor de marinas
SÉRGIO MAGGIO
Chico Anysio viveu a década de ouro do rádio, da descoberta da música brasileira, de um Rio de Janeiro cheio de cabrochas, malandros, cassinos, vedetes, prostitutas polacas e tantas personagens de carne e osso. Ali, o homem de alma de artista captava tudo e criava sem parar. Muito antes de se tornar um astro da televisão, escreveu roteiros para o cinema, deu vida a personagens no rádio, narrou as maravilhas do futebol e compôs canções. Mais de 400 (gravadas por Maysa, Silvio Caldas, Orlando Silva, Alcione). Uma delas, Rio antigo, é uma obra-prima, composta ao lado de Nonato Buzar.
“Quero um bate-papo na esquina/ Eu quero o Rio antigo/ Com crianças na calçada/ Brincando sem perigo/ Sem metrô e sem frescão/ O ontem no amanhã/ Eu que pego o bonde 12 de Ipanema/ Pra ver o Oscarito e o Grande Otelo no cinema Domingo no Rian/ Me deixa eu querer mais, mais paz.”
Chico, que tomava cerveja na Lapa com Madame Satã, filmava com Dercy Gonçalves, costumava atravessar a madrugada bebendo e conhecendo gente. Adorava ver o dia amanhecer e ali foi fortemente influenciado pelo contato físico e musical de Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Ronaldo Bôscoli. Nesse Rio poético, viu nascer a bossa nova, tomando uísque e se apaixonando pela vida numa cidade que parecia abençoada pelos deuses — sem assaltos e com o calçadão de Copacabana todo seu.
Não à toa, Chico criava sempre apaixonado. Do mar, herdou o amor pelas marinas. A arte de pintar ocupava o tempo que ele, como um mestre, fazia esticar. Bem avaliados pelo mercado, os quadros se destacavam pela força das cores e das paisagens. O exercício era tido como paralelo ao trabalho de composição como ator e intérprete. Para ele, o humor era é um tapa, quase uma violência.
— A pintura é uma parte poética, lúdica, um carinho, uma carícia, disse o artista numa exposição individual em 2008.
Dono de um apurado olhar cotidiano, Chico Anysio também percorreu o caminho da escrita em romances, crônicas e contos. Dono de humor próprio e narrativas fluídas, ele escrevia o que via e tocava o coração. No livro, O fim do mundo é ali, por exemplo, fez crítica social forte aos pequenos delitos do dia a dia. Essa marca caracterizou o humorista, fortemente censurado na época da ditadura militar, por fazer de Chico city, nos anos 1970, um microcosmo do Brasil rasgado ao meio pela corrupção.
A qualidade desse riso fez dos contos de Chico Anysio um instigante mapa de humor. No conto Chico festeiro, por exemplo, um sujeito esperto, apropriando-se da capacidade de organizar os festejos da cidade de São Roque, acerta, em contrato com a prefeitura da cidade, que, a cada citação feita no discurso ao nome do santo padroeiro, ele ganhará um dindim a mais. Uma parte do longo palavrório diz: “Vejam que até os sapos da lagoa cantam hosanas ao poderoso São Roque, naquele seu cantar característico: roque, roque, roque, roque…”
Multifacetado, o artista genial terminou a vida como um ator cobiçado pelo cinema e pelas telenovelas. Tudo que criou na seara do humor servia como base para interpretações magistrais como em Tieta, de Cacá Diegues. No set, numa das cenas mais difíceis, Chico Anysio, dono do personagem Zé Esteves, pai da protagonista, tinha que filmar um complicada morte, numa externa em que caia e a câmera tinha ainda que pegar um close de um animal. A tomada foi feita de primeira e o ator foi aplaudido em cena aberta. Esse era Chico Anysio, o artista que quase tocou a perfeição.
Assinar:
Postagens (Atom)

