Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Queridos companheiros

os atores Elisete Teixeira, Wilson Granja e Jones de Abreu (Alberto Roberto)

No universo fantásticos de 209 tipos, Correio destaca 10 que perpetuam a grande obra criativa de Chico Anysio


SÉRGIO MAGGIO

Quando criador e criatura se encontrava, Chico Anysio viva a dor e a delícia de doar o seu corpo a outra personalidade. Tantas, mais duas centenas de vozes, gestos, bordões e trejeitos possuíam o homem em transe criativo. Todos eram importantes e compostos em detalhes, mas, alguns caíram na graça do ator de um jeito que os olhos brilhavam e o sorriso abria quando ele se referia a esses seres fantásticos. Deixamos de fora amado-mestre Professor Raimundo, a paixão maior de Chico e, portanto, que pairam sobre todos. Assim, numa missão quase impossível, o Correio destaca 10 dos 209 tipos que seguirão por muito tempo na memória do brasileiro.


CLEOFAS
O personagem é inspirado no livro de Chico Anysio O telefone amarelo. Chico faz uma forte crítica ao poder, ao status, já que o tipo é atemporal e viveu com mitos como Maria Antonieta e Judas Iscariotes. Aqui, foi desenhado pelo ilustrador Kácio, do Correio, para o livro É mentira, Chico? (DM — Di Momento), organizado por Ziraldo, do qual foram extraídos trechos dos esquetes.



ALBERTO ROBERTO

O galã era uma sofisticada apreensão do astro televisivo e canastrão que povoa o imaginário das fãs. Vaidoso ao extremo e pouco afeita ao entendimento do ofício de ator, Alberto Roberto dobrava a língua para pronunciar “eres” e trocava letras e significados das palavras. Adora levar tudo para o plural: “Calmem!, sou um ator”. Na tevê, contracenou com grandes nomes do teatro brasileiro, sempre colocando o convidado em situação constrangedora diante do seu estrelismo e da total falta de senso.

Bordão: "Eu sou um símbalo sescual"


Trecho de esquete:

ALBERTO ROBERTO — Hoje você vão aprenderem como se representa um bêbado. Vamos então à parte técnica. Atenção: esbugalhar bem os olhos… Assim (mostra), como se tivesse vendo a Luísa Erundina em traje de banho, duas peças…

APRENDIZ (imita) — Assim

ALBERTO ROBERTO — Não, não. Assim é como se você estivesse vendo mim em traje de banho. Eu quero a Erundina.


PAINHO

O pai de santo mais famoso da Bahia deitou e rolou nas telas brasileiras, recebendo grandes personalidades brasileiras para jogar búzios e falar do futuro. No seu abaitolá, rodeado de iaós, vivia como um rei de baianidade única, estirado em grandes tronos ou em redes. A relação com a menina Cunhã era um dos pontos altos do quadro. Para ela, muitas vezes depois de abusar de certos favores, ele dizia: "Eu sou doooido por essa neguinha." Painho trazia o carinho e o respeito de Chico Anysio pelas comunidades afros-brasileiras.


Bordão: “Afffe! Eu tô morta!”


Trecho de esquete:

Toque de telefone

SOCORRO — Alô! È do abaitolá de Painho… Sim? Sei… sei.. sei… Eu vou perguntar a ele… Painho, é o seu Daniel Filho pedindo a Painho entregar, ainda hoje, dois capítulos, senão não vai dar pra Painho entrar no ar!

PAINHO — Diz pra ele ligar mais tarde. Deixa o meu datilógrafo chegar.

GAROTÂO — Já to aqui, Painho. Deixa comigo que eu dou 130 toques por minuto…

PAINHO — Afeee… Que garoto tocador. Tô todo arrepiado…


AZAMBUJA

O universo futebolístico entra com toda força na composição de Paulo Maurício Azambuja, arquétipo do malandro carioca e jogador que não deu tão certo. Adora um mulherio, uma cachaça e um samba. O corpo de atleta ficou no passando. O seu melhor passe, é aplicar golpes. Chico contracenou com o grande Wilson Grey (ícone do cinema brasileiro), no papel de Linguiça.


Bordões: “Tô contigo e não abro!”, “Arrebenta a boca do balão!” e “Tá danado, tá danado…!”


AZAMBUJA — Salsicha vai perder uma bela comissão, quem mandou faltar?

ANÃO — Se eu servir… Qual é o serviço?

AZAMBUJA — É pra vender este bilhete

ANÃO — Oh, meu chapa, esse bilhete é frio.

AZAMBUJA — E achas que se fosse quente eu ia vender?


JUSTO VERÍSSIMO


Chico Anysio sempre quis fazer crítica social, jamais humor política. A própria cidade de Chico City nasceu com a pretensão de ser um microcosmo do Brasil, suas mazelas e alegrias. Justo Veríssimo é o desenho do mau político brasileiro, aquele que pensa primeiro em si, depois em si e jamais no povo. Atualíssimo, o personagem é o retrato de um político retrógado que sobrevive ao país que caminha economicamente bem para ser uma superpotência mundial.

Bordão: “Tenho horror a pobre!", “Quero que pobre se exploda!”

TRECHO DE ESQUETE

MOÇA — Deputado, por que o senhor não quis que eu comesse um daqueles bolinhos?

JUSTO — Porque o recheio deles é dinamite de repuxo.

Entra a imagem de um prédio sendo implodido

JUSTO — Meus bolinhos maravilhosos cumpriram com seus deveres.

MOÇA (ESPANTADA) — Deputado?

JUSTO — Eu quero que o pobre se exploda!


HAROLDO

O Brasil nem discutia a homofobia quando Chico Anysio criou Haroldo, o Hetero, que deixou de ser gay para viver a plenitude como homem másculo. O quadro brincava com questões como “entrar e sair do armário”, “cura gay” e “perseguições aos homossexuais. Em seu auge, Chico contracenou com Paulette, humorista e bailarino maravilhoso, que surgiu no grupo Dzis Croquetes. Ele dizia: “Luana, solta essa franga e volta para o seu reduto!”

Bordão: “Agora sou hétero. Mordo você todinha!”


Trecho de esquete

LEON (CHEGANDO) — ih, bicha, pirou? Você nas Forças Armadas?

HAROLDO — Não entendi a ironia. Lugar de macho é no exército. Aqueles cotrunos…

LEON — Sei Luana Batalhão. Você tá só pensando em ver os recrutas suados, molhados, marchando, tomando banho…

HAROLDO — Il, sai pra lá! Xô, urucubaca! Eu nasci pra servir! É tradição. Meu avô foi um grande general. Foi vovô que “introduziu” a baioneta nas Forças Armadas!


PANTALEÂO

O maior contador de causos era uma deliciosa sátira a verve do brasileiro de criar ficção sobre o real. Aposentado, vivia a se balançar numa cadeira, de pijamas e sandálias a exagerar nas histórias, sempre comprovadas pelos álibis: a esposa Terta e Pedro Bó. Teve como inspiração o visual Dom Pedro II ea voz de Luiz Gonzaga.

Bordões: “É mentira, Terta?”… “Pois bom, numa ocasião em 1927…”

Trecho de esquete:

TERTA — Conta a história do poste de Jaboatão…

PANTALEÃO — Pois bom. Sucedeu-se em um novecento e vinte e sete.. Eu tava em casa lavando o rosto..

PEDRO BÓ — Com água?

PANTALEÃO — Não Pedro Bó. Com mijo. Pedro Bó tenha paciência…


BOZÓ

O funcionário da Globo usa e abusa do crachá que exibe no peito para exercer poder sobre as pessoas, a maioria que deseja ardentemente a fama. Ele mesmo, gago e detunço, foge completamente ao padrão de beleza. É uma forte crítica ao fascínio da indústria da celebridades em tempos onde não se falava sobre isso. Chico Anysio denuncia o jogo de favores, os testes de sofás, os assédios e as loucuras para se tornar uma estrela.

Bordão: “Eu-eu trabalho na Globo, tá legal!”

Trecho de esquete:

GUARDA (DE OLHO NA BABÁ) — Ah, que nenezinho lindo. Adoro crianças.

BOZó (CHEGANDO) — Então toma conta da criança, enquanto eu, que gosto mais de mulata, tomo conta da babá.

GUARDA — Que folga é essa com a moça? Você não está me vendo aqui não?

BOZÓ — Tô, mas eu prefiro a babá… Eu trabalho na Globo e lás nos pesquisamos os atributos, e sempre optamos pelos mais bem dotados.


SILVA

O personagem genial vem de Souza (Paraíba) e tem uma miopia fortíssima. É um homem simples, fora de qualquer atributo físico, mas simplesmente enlouquece as mulheres, capazes de fazer de tudo para experimentar e propagar o borogodó que esse nordestino tem.


Bordão: “Safadim, safadim… bunitim!”


Trecho de esquete:

MULHER — I love Silva

HOMEM – Taí, dessa piada eu gostei. Se alguém me contasse eu não acreditaria.

SILVA — Pode acreditar, macho. Ela agora é minha, da cabeça aos pés, com uma parada diária no meio do caminho.

MULHER — E ninguém mistura uma tinta melhor do que Silva. Gostosim.

SILVA — Safadim e bunitim


POPÓ

Chico Anysio faz uma crônica da velhice com o homem razinza, ranheta e insuportável. Conviveu com gente do porte de Carlota Joaquina, Caramuru, Carlos Gomes, Oswaldo Cruz e Santos Dumont. A todos, diz que completou 364 anos, mas na identidade registra 91, já que faz aniversário de quatro em quatro anos. Atormenta o amigo Albamerindo, tratando-o como idiota.

Bordão: "Albamerindo, você é idiota! Você é iiidiota!"


Trecho de esquete

POPÓ (Procurando Objetos) — Quer dizer que está tudo em seus devidos lugares Alpamerindo?

ALBAMERINDO — Tudo, tudo, tudo em seus devidos lugares

POPÓ (CHORA) — Buááááááááá

ALBAMERINDO — Mas Popó, está tudo em seus lugares, tudo certinho, você está chorando por quê?

POPÓ — Porque eu não tenho do que reclamar, idiota. Buááááááááá

Chico Anysio no Mitos do Teatro Brasileiro


Última apresentação teatral de Chico Anysio foi realizada em Brasília

Publicação: 23/03/2012 15:25 Atualização: 23/03/2012 15:47 // Correio Braziliense

A última apresentação do artista em um teatro foi em 20 de outubro de 2010, quando ele veio a Brasília para ser homenageado pelo projeto Mitos do Teatro Brasileiro, no Centro Cultural Banco do Brasil, que já tinha honrado nomes de peso como Dulcina de Moares, Dercy Gonçalves, Procópio Ferreira, Nelson Rodrigues e Cacilda Becker. Chico encantou a plateia brasiliense com depoimentos sobre sua trajetória pessoal e profissional. Durante o encontro, foram encenados esquetes vividos pelos artistas Jones de Abreu, Elisete Teixeira e Wilson Granja.

O auditório, com sua lotação máxima de 327 pessoas, ecoava as palmas e gargalhadas do público que teve a honra de presenciar aquela que seria a última reverência ao genial e grande artista. Os atores viveram personagens de Chico como Alberto Roberto, Pantaleão e Haroldo, o Hetero. Chico riu e aprovou a composição do ator Jones de Abreu. Ao fim do espetáculo, agradeceu emocionado a homenagem, e fez um esquete ao lado do filho e empresário André Lucas, em que disse: "Certa vez, eu disse ao Romário que ele estava enganado. Quando eu nasci, Deus disse foi pra mim: esse é o cara."

Quando chegou em Brasília, Chico Anysio tinha acabado de sair de uma delicada internação hospitalar, na qual retirou parte do intestino grosso. Estava animado, saiu para jantar com a equipe do projeto e daqui tinha um compromisso posterior em Salvador onde faria uma apresentação numa churrascaria. Em dezembro de 2010, interrompeu os planos com uma nova internação.

Chico Anysio no Mitos do Teatro Brasileiro

Brasília recebeu última apresentação teatral de Chico Anysio Mesmo debilitado, humorista se apresentou no CCBB,...

A despedida de Chico

26/03/2012 10h28 - Atualizado em 26/03/2012 10h28

Brasília recebeu última apresentação teatral de Chico Anysio

Mesmo debilitado, humorista se apresentou no CCBB, em outubro de 2010.
Em homenagem, esquetes de seus personagens foram feitas por atores locais.

Do G1 DF, com informações do BDDF

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A última apresentação de Chico Anysio em um palco ocorreu em Brasília, em outubro de 2010, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Mesmo debilitado por causa de uma cirurgia para retirada de parte do intestino, o humorista aceitou se apresentar na capital federal e ser homenageado no projeto “Mitos do teatro brasileiro”.

O dramaturgo Sérgio Maggio e o ator Jones de Abreu, idealizadores do projeto, contam que a família de Chico apoiou a participação dele e a produção se preparou para recebê-lo.

“Ele veio com uma equipe, com enfermeiros, de cadeira de rodas, porque ele não estava podendo fazer muito esforço”, contou Maggio.

“Vê-lo ali tão frágil foi muito impactante, mas, ao mesmo tempo, foi impactante vê-lo tomado de uma energia, porque acho que o teatro possibilita isso ao ator”, comentou Jones de Abreu.

Sentado no palco, Chico Anysio conversou com a plateia e contou suas muitas histórias. Na homenagem, também se divertiu com esquetes de seus personagens feitas por atores de Brasília.

“Ele riu muito de uma passagem em que Alberto Roberto diz que Chico Anysio era um ator superado. Ele adorou isso”, recorda Sérgio Maggio.

No final da homenagem, Chico surpreendeu a todos ao chamar o filho André Lucca, que o acompanhava, e ao dar um presente para a plateia do CCBB: de improviso, fez uma esquete do espetáculo “Tal pai, tal filho”, que representou tantas vezes Brasil a fora.

“Ele fez um pequeno show aqui, que foi assim, um êxtase. Então, eu vi ali plateia e o artista em uma comunhão, um corpo só, e realmente ele saiu daqui bastante acarinhado”, definiu Sérgio Maggio.

domingo, 25 de março de 2012

Mil Chicos


SÉRGIO MAGGIO

As cortinas vermelhas do Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) ainda estavam cerradas quando Chico Anysio foi trazido pela produção do projeto Mitos do teatro brasileiro para o palco. Ele estava numa cadeiras de rodas e seria acomodado cuidadosamente na poltrona, sem que o público percebesse a dificuldade de locomoção. O humorista tinha enfrentado, um mês e meio antes, uma complexa internação por conta de uma hemorragia digestiva. Quando atravessava a coxia, o filho André Lucas chamou a atenção dele:
— Olha, pai, é o senhor, apontando para o banner de três metros com a foto do humorista.
Como se estivesse diante de um espelho, Chico Anysio fixou-se atentamente àquela imagem. E os olhos marejaram. Nesse momento, da plateia lotada, ouviam-se risos dos espectadores a se deliciar diante de um vídeo raro de Chico City, de 1971.
— Tá ouvindo, pai? Eles estão rindo do senhor, acarinhava André.
Naquele 20 de outubro de 2010, Chico Anysio preparava-se para receber a última grande homenagem pública em vida. Quando as cortinas se abriram e os espectadores o aplaudiram de pé, o homem de mil faces já estava de rosto nu e embargado pela emoção.
— Estou aqui no meio dos grandes. Dulcina de Moraes, Procópio Ferreira, Dercy Gonçalves, Nelson Rodrigues e Cacilda Becker. Tomei até um susto porque todos estão mortos. Pensei: será que eu vou ter que morrer também?, brincou, arrancando gargalhadas uníssonas.
A morte chegou ( um ano e dois meses ) depois de enfrentar sucessivas crises hospitalares em 2011. Por conta de problemas cardíacos, pneumonias e hemorragia digestiva. O genial humorista partiu, aos 80 anos, com a lição de ter lutado minuto a minuto pela vida. Venceu uma hospitalização de 110 dias e voltou a gravar o quadro, com Salomé, no Zorra total. A voz miúda e a nítida perda de energia denunciavam à saúde frágil. Foi numa internação, aliás, que ele não pôde se despedir da irmã Lupe Gigliotti, que morreu de câncer e foi enterrada sem ele saber.
— Foi graças a Lupe que eu virei rádio-ator e locutor de uma vez só. Cheguei em casa para pegar um tênis e encontrei ela e um amigo saindo para a Rádio Guanabara a fim de fazer um teste. Desisti do futebol e fiquei em sétimo lugar para rádio-ator (o primeiro foi Fernanda Montenegro) e segundo para locutor (o primeiro foi Silvio Santos), contava.
Nessa época, aos 17 anos, Chico ainda era Francisco Anysio. E vinha dos programas de auditório abarrotado de prêmios e elogios de tanto imitar os artistas de fama. Com a velocidade de um corisco, o cearense de Maranguape acumulou rapidamente funções na rádio. De rádio-ator e locutor, se fez comediante, roteirista e comentarista esportivo. Tudo em pouco mais de um mês. Começava ali a ganhar força o furacão que tomaria conta da tevê, do cinema, do teatro, da literatura e das artes visuais.
— Sou o único Francisco que virou Chico quando quis. Depois que Chico Anysio Show estreou e foi aquele sucesso nas ruas, até minha mãe passou a me chamar de Chico no dia seguinte, dizia.
A arte de tirar graça da vida era um dos maiores trunfos de Chico Anysio. Nos shows de humor (hoje os difundidos stand-up comedy) que fazia desde a década de 1960, ele tirava sarros de fatos biográficos, como o seu nascimento em Maranguape.
— Era tão feio, mas tão feio, que o médico me colocou num frasco por dois meses até me apresentar ao meu pai, brincava.

Ator sofisticado

Chico era um cronista e um exímio observador do cotidiano. Os personagens brotavam naturalmente de um olhar. Às vezes, ele colocava a voz primeiro. Ou algum gesto. Tudo era muito contido nas composições. Chico Anysio surgia como um intérprete sofisticado num período em que as estrelas precisavam de movimentos largos e vozes empostadas. O teatro brasileiro tinha entrado havia pouco tempo na modernidade e Chico Anysio trazia criações sustentadas em detalhes. Foi a tevê, no entanto, que destacou a genialidade. Uma sobrancelha peluda e ressaltada, um nariz avantajado, uma boca pequena explodiam diante da câmera e deixavam o telespectador boquiaberto com esse ator de 209 faces.
— Como eu não tinha a graça de Brandão Filho, o talento de Walter D’Ávila e de Oscarito, quis começar travestido, sem mostrar o rosto, para que o espectador se encantasse a cada personagem.
A sofisticação dos personagens deixou o Brasil de boca aberta. A rádio já trazia a força de Chico Anysio como o Professor Raimundo, mas foi a tevê que propagou o talento de Norte a Sul. Em 1971, no auge da ditadura militar, Chico City estreava na Globo satirizando a corrupção e as maracutaias. Chico enfrentava a censura com altivez. Não abria mão do humor social, que trazia a crítica política associada.
— A gente gravava uma hora e meia para um programa de 50 minutos porque sabia que a censura cortaria, lembrava.
Por tantas vezes, veio a Brasília pessoalmente defender os textos. Não gostava que o censor cortasse sem ser lido por ele. Foi brutalmente cerceado, mas suportou, com humor, as piores pressões. Atravessou as décadas seguintes como líder absoluto de audiência até enfrentar a indiferença da TV Globo no fim dos anos 1990, quando foi colocado na geladeira ao fazer críticas à nova gestão da empresa. Foi redescoberto pelo cinema e virou ator cult de novelas. Mas o que queria mesmo era voltar com A escolinha do Professor Raimundo e o Chico Total. Em outubro, postou no blog o desejo de reeditar o humorístico comandado pelo educador que tinha como bordão o baixo salário. Ele adorava tanto passear pelas centenas de criações como dar empregos aos humoristas de várias gerações.
— Quero trabalhar até o último minuto de vida, dizia.
Infelizmente, não conseguiu ter de volta o espaço proporcional ao tamanho do seu talento e de sua contribuição para o humor brasileiro. Antes de cair doente, estava com um quadro no Zorra total, como Bento Carneiro, o vampiro brasileiro. Mas no Viva, canal de reprises da Globosat, era a estrela maior. Chico e seus personagens passavam nos três turnos.
— E não ganho nada por isso, contou na última passagem por Brasília.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Morre Fernando Peixoto, mestre do teatro brechtiano


Fernando Peixoto, teatrólogo

Sérgio Maggio

Parte do conhecimento e reflexões sobre Bertolt Brecht no Brasil deve-se ao instigante pensamento do ator, diretor e pesquisador Fernando Peixoto, um nome essencial na modernização do teatro brasileiro, estando ligado ao anárquico Teatro Oficina, em sua fase antropofágica — época que atuou ao lado da então companheira, a atriz Íttala Nandi. Ontem, o homem que ajudou a desvendar as chaves do teatro dialético no país morreu, aos 75 anos, em São Paulo, vítima de câncer no intestino.
“O Brasil acaba de perder um dos maiores pensadores de teatro, o diretor, ator, escritor e professor Fernando Peixoto. Suas reflexões sobre o teatro internacional e sua contribuição ao teatro brasileiro, na segunda metade do século 20, foram fundamentais. Ele manteve até o fim da vida a relação de apoio e orientação aos novos atores, diretores e grupos. O Ministério da Cultura sente profundamente esta perda”, lamentou, em nota oficial Vitor Ortiz, ministro interino.
Fernando Peixoto participou das grandes montagens do Teatro Oficina nos anos 1960, todas comandadas por José Celso Martinez Corrêa, entre elas, O rei da vela, peça histórica que fundou as bases do teatro antropofágico, e as brechtianas Galileu Galilei e Na selva das cidades. Membro do Partido Comunista do Brasil sofreu com o cerco da ditadura militar, que sucateou o teatro brasileiro de resistência na década de 1970. Um dos seus espetáculos, Calabar, texto de Chico Buarque e Ruy Guerra, foi proibido de estrear, em 1973, dias antes de abrir o pano. Essa produção só foi possível ser realizada em 1980.
Fernando Peixoto manteve-se na ativa incansável tanto na produção teórica quanto na prática, tornando-se uma referência para os estudos teatrais na América Latina.


Verbete Itaú Cultural

Fernando Amaral dos Guimarães Peixoto (Porto Alegre RS 1937). Diretor, teórico e ator. Homem de teatro, radicado em São Paulo, ligado ao Teatro Oficina como ator em sua primeira fase. Torna-se, a partir dos anos 1970, diretor especialmente empenhado no teatro de resistência. Reconhecido teórico, autor de obras vinculadas às concepções brechtianas e da tendência nacional - popular do teatro brasileiro.


Inicia carreira como ator em Porto Alegre, em 1953, envolvido com o teatro semiprofissional de então, onde faz Feliz Viagem a Trenton, de Thornton Wilder, em 1954; O Muro, de Jean-Paul Sartre, em 1955; e Egmont, de Goethe, com direção de Ruggero Jacobbi, em 1958. Faz substituições em espetáculos de importantes companhias paulistas que excursionam na cidade, tais como O Canto da Cotovia, de Jean Anouilh, direção de Gianni Ratto, do Teatro Maria Della Costa - TMDC, em 1957; Leonor de Mendonça, direção de Flávio Rangel; Um Panorama Visto da Ponte, direção de Alberto D'Aversa, ambas do Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, em 1960; além de Mãe Coragem, de Bertolt Brecht, na produção de Ruth Escobar, no mesmo ano. Muda -se com sua mulher Ítala Nandi para São Paulo em 1963, integrando a companhia Teatro Oficina.

Suas participações no Oficina tornam-se marcantes, em todas as produções desde então: Quatro num Quarto, de Valentin Kataev, com direção de Maurice Vaneau, em 1962; Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, em 1963; Andorra, de Max Frisch, em 1964; O Rei da Vela, de Oswald de Andrade (1890 - 1954), em 1967; Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, em 1968, e Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht, em 1969, todas direções de José Celso Martinez Corrêa. Deixa a companhia em 1970.

Em 1969, está no elenco do Teatro de Arena nas excursões internacionais de Arena Conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, e Arena Conta Bolívar, também de Boal. Retorna no papel de Jean-Paul Sartre em A Cerimônia do Adeus, de Mauro Rasi, direção de Ulysses Cruz, em 1989. Sob a direção de Antônio Abujamra, está em O Inspetor Geral, em 1994, pelo Teatro Popular do Sesi - TPS.

Embora tenha experimentado a direção desde os anos 1960, estréia com Matar, de Paulo Hecker Filho, em 1959, ainda em Porto Alegre. Sua atuação nessa área ganha impulso após O Poder Negro, de LeRoi Jones (Amiri Baraka), em 1968, e D. Juan, adaptado de Molière, em 1970, ambas no Oficina. Com Tambores da Noite, de Bertolt Brecht, em 1972, inicia carreira como encenador fortemente influenciada pelas idéias do autor alemão. Suas principais realizações como diretor são: A Semana - Esses Intrépidos Rapazes e Sua Maravilhosa Semana de Arte Moderna, de Carlos Queiroz Telles, em 1972; Frank V, de Dürrenmatt, em 1973; Um Grito Parado no Ar, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1973, mesmo ano em que dirige Calabar, texto de Chico Buarque e Ruy Guerra, numa produção carioca de Fernando Torres, proibida poucos dias antes da estréia; Ponto de Partida, novamente Guarnieri, em 1976; Mortos Sem Sepultura, de Jean-Paul Sartre, em 1977; Terror e Miséria do III Reich, de Bertolt Brecht, em 1979, coroam o ciclo de realizações.

Em 1980, finalmente liberado pela Censura, coloca em cena Calabar, numa produção de Othon Bastos e Martha Overbeck, em parceria com Renato Borghi. Dirige várias óperas, entre as quais Werther, de Massenet, em 1979; Wozzeck, de Alan Berg, em 1982; O Navio Fantasma, de Wagner, em 1984; Lo Schiavo, de Carlos Gomes, e Mme. Butterfly, de Puccini, em 1986; além de Café, música de Koellreuter e texto de Mário de Andrade, em Santos, 1996.

Fernando Peixoto é autor de ensaios, textos teóricos, tradutor, professor e dirigente de coleções nas editoras Paz e Terra e Hucitec, marca um dos raros casos de simultaneidade na produção artística e teórica.

Como jornalista, no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, entre 1957 e 1959, escreve sobre teatro, cinema e cultura. Atividade que continuará em alguns importantes órgãos da imprensa de resistência nas décadas de 1970 e 1980, como Opinião; Movimento; Revista Civilização Brasileira; A Voz da Unidade; Argumento; Debate & Crítica, etc.

Traduz os livros O Teatro e Sua Realidade, de Bernard Dort, em 1977, e Berliner Ensemble: Um Trabalho Teatral em Defesa da Paz, em 1985; além de muitos textos dramáticos, como Pequenos Burgueses, Vassa Geleznova, Um Mês no Campo, D. Juan, Mortos Sem Sepultura, Tupac Amaru, Na Selva das Cidades, sendo um dos organizadores da edição do Teatro Completo de Brecht no Brasil, para a qual traduz diversas peças.

São de sua autoria, entre outros, os livros Brecht, Vida e Obra, em 1968; Maiakóvski, Vida e Obra, em 1969; O Que É Teatro, em 1980; Brecht: Uma Introdução ao Teatro Dialético, em 1981; Teatro Oficina; Trajetória de uma Rebeldia, 1982; Vianninha: Teatro, Televisão, Política, em 1983; Ópera e Encenação, em 1986; Brecht no Brasil, em 1987; Teatro em Movimento, em 1988; Teatro em Questão, em 1989; Um Teatro Fora do Eixo, 1993; O Melhor Teatro do CPC da UNE, em 1990; Teatro em Aberto, em 2002.

Pelas direções de Um Grito Parado no Ar e Frank V, em 1973, recebe os prêmios APCA e Molière.

No cinema, atua em diversas películas, entre as quais Bebel, Garota Propaganda, de Maurice Capovilla, em 1967; Gamal - o Delírio do Sexo, de João Batista de Andrade, em 1969; Fogo Morto, de Marcos Farias, em 1975; A Queda, de Ruy Guerra, em 1976; Doramundo, de João Batista de Andrade, em 1977; O Homem do Pau-Brasil, de Joaquim Pedro de Andrade, e Eles Não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman, ambos de 1980; assim como O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, em 1984, e Faca de Dois Gumes, de Murilo Salles, em 1988.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A grande vedete




Microssérie desvenda ao grande público a importância de Dercy Gonçalves para a renovação do teatro de comédia no Brasil


Sérgio Maggio

A campanha publicitária que antecede a estreia de Dercy de verdade aponta que hoje o grande público brasileiro vai descortinar a vida de uma das mais importantes comediantes do país. A autora Maria Adelaide Amaral vai levar à tela a saga humana da menina que escapou dos horrores machistas do início do século 20 e tornou-se uma das maiores estrelas do país. Ao fim da microssérie de quatro capítulos (no ar de hoje a sexta, na TV Globo), o telespectador terá outra imagem, que vai colocar por terra o estereótipo da senhora desbocada e sem limites que marcou as últimas décadas de vida da artista centenária.
No interior dessa estratégia, que marcou concepção do livro Dercy de cabo a rabo, escrito por Maria Adelaide Amaral em 1994 e agora relançado, há uma revelação mais contundente para a grande audiência, sobretudo as novas gerações acostumadas a lidar porcamente com a memória nacional. Dercy Gonçalves (na trama, ela será vivida por Fafy Siqueira, Heloísa e Luiza Perissé) foi uma das maiores artistas do teatro brasileiro. Ela deu à comédia uma picardia brasileira ao incorporar, com talento incomum, o improviso num tempo que o teatro nacional estava completamente preso a velhas formas, como o uso do “ponto” (na trama, vivido por Emiliano Queiroz), aquela figura que murmurava o texto teatral para o ator recitar.
Dercy mandou às favas um jeito requentado de se fazer teatro no Brasil. Se não fosse a vedete da companhia, o ator andava completamente marcado e sem falas decoradas. Não podia desobedecer o texto nem tampouco sair do que fosse combinado com o encenador. A presença coadjuvante funcionava apenas em função da estrela maior, que atuava à frente, na ribalta, sob os holofotes. A anarquia dessa jovem atriz, que começa pelas companhias mambembes, estremece essas relações. “O maior desespero dos críticos , quando comecei a fazer comédias, era saber onde o autor acabava e a atriz começava. Alguns ficavam enlouquecidos com a minha improvisação”, relata Dercy no livro de Maria Adelaide Amaral.

Teatro do rebolado
Apesar desse enfoque humano para destruir o estigma de “velha que fala palavrões”, Dercy de verdade trará o teatro brasileiro de uma época como pano de fundo. Figuras que hoje estão esquecidas, como Walter Pinto (interpretado pelo ator Eduardo Galvão), surgem ao lado de uma efervescente Praça Tiradentes, que foi o território do apogeu e da queda do teatro de revista ou rebolado, tendo o Teatro Recreio como templo maior. Ali, Dercy Gonçalves foi rainha companhia própria e desenvolveu um estilo impagável, contrapondo-se aos shows bem acabados, de padrão internacional, do empresário Walter Pinto, responsável por renovar o gênero no país. No desafio de contar mais de 100 anos de vida em quatro capítulos, importantes personagens ficarão de fora, como Jardel Jércolis (pai do excepcional ator Jardel Filho), um dos artífices do teatro de revista no país.
Até conquistar o estrelato e enfrentar toda série de dificuldades, Dercy Gonçalves passou por circos e cabarés. Uma das principais casa de shows, a Casa de Caboclo, onde Noel Rosa se apresentava, surge no começo de carreira, quando Dercy fazia dupla com Eugênio Pascoal (Fernando Eiras), em Os Pascoalinos, logo depois de fugir de Santa Maria Madalena com a Companhia de Maria Castro. Um dos números mais marcantes era a canção Malandrinha (“Oh, linda imagem de mulher que me seduz/ Ai se eu pudesse estaria no altar/ És a rainha dos meus sonhos, és a luz/ És malandrinha, não precisas trabalhar”). Quando Dercy ouviu essa canção, ainda era a menina Dolores Gonçalves Costa e nem sonhava em se tornar um dos mitos do teatro brasileiro.



“Inaugurei o escracho no teatro brasileiro”
Dercy Gonçalves



DERCY DE VERDADE
Microssérie em quatro capítulos. De hoje a sexta, às 23h30, na TV Globo.

DERCY DE CABO A RABO
Edição revista e ampliada de Maria Adelaide Amaral. Editora Globo, 320 páginas.