Projeto concebido originalmente para a área de Ideias do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, Mitos do Teatro Brasileiro é calcado na memória das artes cênicas nacionais.

domingo, 25 de março de 2012

Mil Chicos


SÉRGIO MAGGIO

As cortinas vermelhas do Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) ainda estavam cerradas quando Chico Anysio foi trazido pela produção do projeto Mitos do teatro brasileiro para o palco. Ele estava numa cadeiras de rodas e seria acomodado cuidadosamente na poltrona, sem que o público percebesse a dificuldade de locomoção. O humorista tinha enfrentado, um mês e meio antes, uma complexa internação por conta de uma hemorragia digestiva. Quando atravessava a coxia, o filho André Lucas chamou a atenção dele:
— Olha, pai, é o senhor, apontando para o banner de três metros com a foto do humorista.
Como se estivesse diante de um espelho, Chico Anysio fixou-se atentamente àquela imagem. E os olhos marejaram. Nesse momento, da plateia lotada, ouviam-se risos dos espectadores a se deliciar diante de um vídeo raro de Chico City, de 1971.
— Tá ouvindo, pai? Eles estão rindo do senhor, acarinhava André.
Naquele 20 de outubro de 2010, Chico Anysio preparava-se para receber a última grande homenagem pública em vida. Quando as cortinas se abriram e os espectadores o aplaudiram de pé, o homem de mil faces já estava de rosto nu e embargado pela emoção.
— Estou aqui no meio dos grandes. Dulcina de Moraes, Procópio Ferreira, Dercy Gonçalves, Nelson Rodrigues e Cacilda Becker. Tomei até um susto porque todos estão mortos. Pensei: será que eu vou ter que morrer também?, brincou, arrancando gargalhadas uníssonas.
A morte chegou ( um ano e dois meses ) depois de enfrentar sucessivas crises hospitalares em 2011. Por conta de problemas cardíacos, pneumonias e hemorragia digestiva. O genial humorista partiu, aos 80 anos, com a lição de ter lutado minuto a minuto pela vida. Venceu uma hospitalização de 110 dias e voltou a gravar o quadro, com Salomé, no Zorra total. A voz miúda e a nítida perda de energia denunciavam à saúde frágil. Foi numa internação, aliás, que ele não pôde se despedir da irmã Lupe Gigliotti, que morreu de câncer e foi enterrada sem ele saber.
— Foi graças a Lupe que eu virei rádio-ator e locutor de uma vez só. Cheguei em casa para pegar um tênis e encontrei ela e um amigo saindo para a Rádio Guanabara a fim de fazer um teste. Desisti do futebol e fiquei em sétimo lugar para rádio-ator (o primeiro foi Fernanda Montenegro) e segundo para locutor (o primeiro foi Silvio Santos), contava.
Nessa época, aos 17 anos, Chico ainda era Francisco Anysio. E vinha dos programas de auditório abarrotado de prêmios e elogios de tanto imitar os artistas de fama. Com a velocidade de um corisco, o cearense de Maranguape acumulou rapidamente funções na rádio. De rádio-ator e locutor, se fez comediante, roteirista e comentarista esportivo. Tudo em pouco mais de um mês. Começava ali a ganhar força o furacão que tomaria conta da tevê, do cinema, do teatro, da literatura e das artes visuais.
— Sou o único Francisco que virou Chico quando quis. Depois que Chico Anysio Show estreou e foi aquele sucesso nas ruas, até minha mãe passou a me chamar de Chico no dia seguinte, dizia.
A arte de tirar graça da vida era um dos maiores trunfos de Chico Anysio. Nos shows de humor (hoje os difundidos stand-up comedy) que fazia desde a década de 1960, ele tirava sarros de fatos biográficos, como o seu nascimento em Maranguape.
— Era tão feio, mas tão feio, que o médico me colocou num frasco por dois meses até me apresentar ao meu pai, brincava.

Ator sofisticado

Chico era um cronista e um exímio observador do cotidiano. Os personagens brotavam naturalmente de um olhar. Às vezes, ele colocava a voz primeiro. Ou algum gesto. Tudo era muito contido nas composições. Chico Anysio surgia como um intérprete sofisticado num período em que as estrelas precisavam de movimentos largos e vozes empostadas. O teatro brasileiro tinha entrado havia pouco tempo na modernidade e Chico Anysio trazia criações sustentadas em detalhes. Foi a tevê, no entanto, que destacou a genialidade. Uma sobrancelha peluda e ressaltada, um nariz avantajado, uma boca pequena explodiam diante da câmera e deixavam o telespectador boquiaberto com esse ator de 209 faces.
— Como eu não tinha a graça de Brandão Filho, o talento de Walter D’Ávila e de Oscarito, quis começar travestido, sem mostrar o rosto, para que o espectador se encantasse a cada personagem.
A sofisticação dos personagens deixou o Brasil de boca aberta. A rádio já trazia a força de Chico Anysio como o Professor Raimundo, mas foi a tevê que propagou o talento de Norte a Sul. Em 1971, no auge da ditadura militar, Chico City estreava na Globo satirizando a corrupção e as maracutaias. Chico enfrentava a censura com altivez. Não abria mão do humor social, que trazia a crítica política associada.
— A gente gravava uma hora e meia para um programa de 50 minutos porque sabia que a censura cortaria, lembrava.
Por tantas vezes, veio a Brasília pessoalmente defender os textos. Não gostava que o censor cortasse sem ser lido por ele. Foi brutalmente cerceado, mas suportou, com humor, as piores pressões. Atravessou as décadas seguintes como líder absoluto de audiência até enfrentar a indiferença da TV Globo no fim dos anos 1990, quando foi colocado na geladeira ao fazer críticas à nova gestão da empresa. Foi redescoberto pelo cinema e virou ator cult de novelas. Mas o que queria mesmo era voltar com A escolinha do Professor Raimundo e o Chico Total. Em outubro, postou no blog o desejo de reeditar o humorístico comandado pelo educador que tinha como bordão o baixo salário. Ele adorava tanto passear pelas centenas de criações como dar empregos aos humoristas de várias gerações.
— Quero trabalhar até o último minuto de vida, dizia.
Infelizmente, não conseguiu ter de volta o espaço proporcional ao tamanho do seu talento e de sua contribuição para o humor brasileiro. Antes de cair doente, estava com um quadro no Zorra total, como Bento Carneiro, o vampiro brasileiro. Mas no Viva, canal de reprises da Globosat, era a estrela maior. Chico e seus personagens passavam nos três turnos.
— E não ganho nada por isso, contou na última passagem por Brasília.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Morre Fernando Peixoto, mestre do teatro brechtiano


Fernando Peixoto, teatrólogo

Sérgio Maggio

Parte do conhecimento e reflexões sobre Bertolt Brecht no Brasil deve-se ao instigante pensamento do ator, diretor e pesquisador Fernando Peixoto, um nome essencial na modernização do teatro brasileiro, estando ligado ao anárquico Teatro Oficina, em sua fase antropofágica — época que atuou ao lado da então companheira, a atriz Íttala Nandi. Ontem, o homem que ajudou a desvendar as chaves do teatro dialético no país morreu, aos 75 anos, em São Paulo, vítima de câncer no intestino.
“O Brasil acaba de perder um dos maiores pensadores de teatro, o diretor, ator, escritor e professor Fernando Peixoto. Suas reflexões sobre o teatro internacional e sua contribuição ao teatro brasileiro, na segunda metade do século 20, foram fundamentais. Ele manteve até o fim da vida a relação de apoio e orientação aos novos atores, diretores e grupos. O Ministério da Cultura sente profundamente esta perda”, lamentou, em nota oficial Vitor Ortiz, ministro interino.
Fernando Peixoto participou das grandes montagens do Teatro Oficina nos anos 1960, todas comandadas por José Celso Martinez Corrêa, entre elas, O rei da vela, peça histórica que fundou as bases do teatro antropofágico, e as brechtianas Galileu Galilei e Na selva das cidades. Membro do Partido Comunista do Brasil sofreu com o cerco da ditadura militar, que sucateou o teatro brasileiro de resistência na década de 1970. Um dos seus espetáculos, Calabar, texto de Chico Buarque e Ruy Guerra, foi proibido de estrear, em 1973, dias antes de abrir o pano. Essa produção só foi possível ser realizada em 1980.
Fernando Peixoto manteve-se na ativa incansável tanto na produção teórica quanto na prática, tornando-se uma referência para os estudos teatrais na América Latina.


Verbete Itaú Cultural

Fernando Amaral dos Guimarães Peixoto (Porto Alegre RS 1937). Diretor, teórico e ator. Homem de teatro, radicado em São Paulo, ligado ao Teatro Oficina como ator em sua primeira fase. Torna-se, a partir dos anos 1970, diretor especialmente empenhado no teatro de resistência. Reconhecido teórico, autor de obras vinculadas às concepções brechtianas e da tendência nacional - popular do teatro brasileiro.


Inicia carreira como ator em Porto Alegre, em 1953, envolvido com o teatro semiprofissional de então, onde faz Feliz Viagem a Trenton, de Thornton Wilder, em 1954; O Muro, de Jean-Paul Sartre, em 1955; e Egmont, de Goethe, com direção de Ruggero Jacobbi, em 1958. Faz substituições em espetáculos de importantes companhias paulistas que excursionam na cidade, tais como O Canto da Cotovia, de Jean Anouilh, direção de Gianni Ratto, do Teatro Maria Della Costa - TMDC, em 1957; Leonor de Mendonça, direção de Flávio Rangel; Um Panorama Visto da Ponte, direção de Alberto D'Aversa, ambas do Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, em 1960; além de Mãe Coragem, de Bertolt Brecht, na produção de Ruth Escobar, no mesmo ano. Muda -se com sua mulher Ítala Nandi para São Paulo em 1963, integrando a companhia Teatro Oficina.

Suas participações no Oficina tornam-se marcantes, em todas as produções desde então: Quatro num Quarto, de Valentin Kataev, com direção de Maurice Vaneau, em 1962; Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, em 1963; Andorra, de Max Frisch, em 1964; O Rei da Vela, de Oswald de Andrade (1890 - 1954), em 1967; Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, em 1968, e Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht, em 1969, todas direções de José Celso Martinez Corrêa. Deixa a companhia em 1970.

Em 1969, está no elenco do Teatro de Arena nas excursões internacionais de Arena Conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, e Arena Conta Bolívar, também de Boal. Retorna no papel de Jean-Paul Sartre em A Cerimônia do Adeus, de Mauro Rasi, direção de Ulysses Cruz, em 1989. Sob a direção de Antônio Abujamra, está em O Inspetor Geral, em 1994, pelo Teatro Popular do Sesi - TPS.

Embora tenha experimentado a direção desde os anos 1960, estréia com Matar, de Paulo Hecker Filho, em 1959, ainda em Porto Alegre. Sua atuação nessa área ganha impulso após O Poder Negro, de LeRoi Jones (Amiri Baraka), em 1968, e D. Juan, adaptado de Molière, em 1970, ambas no Oficina. Com Tambores da Noite, de Bertolt Brecht, em 1972, inicia carreira como encenador fortemente influenciada pelas idéias do autor alemão. Suas principais realizações como diretor são: A Semana - Esses Intrépidos Rapazes e Sua Maravilhosa Semana de Arte Moderna, de Carlos Queiroz Telles, em 1972; Frank V, de Dürrenmatt, em 1973; Um Grito Parado no Ar, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1973, mesmo ano em que dirige Calabar, texto de Chico Buarque e Ruy Guerra, numa produção carioca de Fernando Torres, proibida poucos dias antes da estréia; Ponto de Partida, novamente Guarnieri, em 1976; Mortos Sem Sepultura, de Jean-Paul Sartre, em 1977; Terror e Miséria do III Reich, de Bertolt Brecht, em 1979, coroam o ciclo de realizações.

Em 1980, finalmente liberado pela Censura, coloca em cena Calabar, numa produção de Othon Bastos e Martha Overbeck, em parceria com Renato Borghi. Dirige várias óperas, entre as quais Werther, de Massenet, em 1979; Wozzeck, de Alan Berg, em 1982; O Navio Fantasma, de Wagner, em 1984; Lo Schiavo, de Carlos Gomes, e Mme. Butterfly, de Puccini, em 1986; além de Café, música de Koellreuter e texto de Mário de Andrade, em Santos, 1996.

Fernando Peixoto é autor de ensaios, textos teóricos, tradutor, professor e dirigente de coleções nas editoras Paz e Terra e Hucitec, marca um dos raros casos de simultaneidade na produção artística e teórica.

Como jornalista, no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, entre 1957 e 1959, escreve sobre teatro, cinema e cultura. Atividade que continuará em alguns importantes órgãos da imprensa de resistência nas décadas de 1970 e 1980, como Opinião; Movimento; Revista Civilização Brasileira; A Voz da Unidade; Argumento; Debate & Crítica, etc.

Traduz os livros O Teatro e Sua Realidade, de Bernard Dort, em 1977, e Berliner Ensemble: Um Trabalho Teatral em Defesa da Paz, em 1985; além de muitos textos dramáticos, como Pequenos Burgueses, Vassa Geleznova, Um Mês no Campo, D. Juan, Mortos Sem Sepultura, Tupac Amaru, Na Selva das Cidades, sendo um dos organizadores da edição do Teatro Completo de Brecht no Brasil, para a qual traduz diversas peças.

São de sua autoria, entre outros, os livros Brecht, Vida e Obra, em 1968; Maiakóvski, Vida e Obra, em 1969; O Que É Teatro, em 1980; Brecht: Uma Introdução ao Teatro Dialético, em 1981; Teatro Oficina; Trajetória de uma Rebeldia, 1982; Vianninha: Teatro, Televisão, Política, em 1983; Ópera e Encenação, em 1986; Brecht no Brasil, em 1987; Teatro em Movimento, em 1988; Teatro em Questão, em 1989; Um Teatro Fora do Eixo, 1993; O Melhor Teatro do CPC da UNE, em 1990; Teatro em Aberto, em 2002.

Pelas direções de Um Grito Parado no Ar e Frank V, em 1973, recebe os prêmios APCA e Molière.

No cinema, atua em diversas películas, entre as quais Bebel, Garota Propaganda, de Maurice Capovilla, em 1967; Gamal - o Delírio do Sexo, de João Batista de Andrade, em 1969; Fogo Morto, de Marcos Farias, em 1975; A Queda, de Ruy Guerra, em 1976; Doramundo, de João Batista de Andrade, em 1977; O Homem do Pau-Brasil, de Joaquim Pedro de Andrade, e Eles Não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman, ambos de 1980; assim como O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, em 1984, e Faca de Dois Gumes, de Murilo Salles, em 1988.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A grande vedete




Microssérie desvenda ao grande público a importância de Dercy Gonçalves para a renovação do teatro de comédia no Brasil


Sérgio Maggio

A campanha publicitária que antecede a estreia de Dercy de verdade aponta que hoje o grande público brasileiro vai descortinar a vida de uma das mais importantes comediantes do país. A autora Maria Adelaide Amaral vai levar à tela a saga humana da menina que escapou dos horrores machistas do início do século 20 e tornou-se uma das maiores estrelas do país. Ao fim da microssérie de quatro capítulos (no ar de hoje a sexta, na TV Globo), o telespectador terá outra imagem, que vai colocar por terra o estereótipo da senhora desbocada e sem limites que marcou as últimas décadas de vida da artista centenária.
No interior dessa estratégia, que marcou concepção do livro Dercy de cabo a rabo, escrito por Maria Adelaide Amaral em 1994 e agora relançado, há uma revelação mais contundente para a grande audiência, sobretudo as novas gerações acostumadas a lidar porcamente com a memória nacional. Dercy Gonçalves (na trama, ela será vivida por Fafy Siqueira, Heloísa e Luiza Perissé) foi uma das maiores artistas do teatro brasileiro. Ela deu à comédia uma picardia brasileira ao incorporar, com talento incomum, o improviso num tempo que o teatro nacional estava completamente preso a velhas formas, como o uso do “ponto” (na trama, vivido por Emiliano Queiroz), aquela figura que murmurava o texto teatral para o ator recitar.
Dercy mandou às favas um jeito requentado de se fazer teatro no Brasil. Se não fosse a vedete da companhia, o ator andava completamente marcado e sem falas decoradas. Não podia desobedecer o texto nem tampouco sair do que fosse combinado com o encenador. A presença coadjuvante funcionava apenas em função da estrela maior, que atuava à frente, na ribalta, sob os holofotes. A anarquia dessa jovem atriz, que começa pelas companhias mambembes, estremece essas relações. “O maior desespero dos críticos , quando comecei a fazer comédias, era saber onde o autor acabava e a atriz começava. Alguns ficavam enlouquecidos com a minha improvisação”, relata Dercy no livro de Maria Adelaide Amaral.

Teatro do rebolado
Apesar desse enfoque humano para destruir o estigma de “velha que fala palavrões”, Dercy de verdade trará o teatro brasileiro de uma época como pano de fundo. Figuras que hoje estão esquecidas, como Walter Pinto (interpretado pelo ator Eduardo Galvão), surgem ao lado de uma efervescente Praça Tiradentes, que foi o território do apogeu e da queda do teatro de revista ou rebolado, tendo o Teatro Recreio como templo maior. Ali, Dercy Gonçalves foi rainha companhia própria e desenvolveu um estilo impagável, contrapondo-se aos shows bem acabados, de padrão internacional, do empresário Walter Pinto, responsável por renovar o gênero no país. No desafio de contar mais de 100 anos de vida em quatro capítulos, importantes personagens ficarão de fora, como Jardel Jércolis (pai do excepcional ator Jardel Filho), um dos artífices do teatro de revista no país.
Até conquistar o estrelato e enfrentar toda série de dificuldades, Dercy Gonçalves passou por circos e cabarés. Uma das principais casa de shows, a Casa de Caboclo, onde Noel Rosa se apresentava, surge no começo de carreira, quando Dercy fazia dupla com Eugênio Pascoal (Fernando Eiras), em Os Pascoalinos, logo depois de fugir de Santa Maria Madalena com a Companhia de Maria Castro. Um dos números mais marcantes era a canção Malandrinha (“Oh, linda imagem de mulher que me seduz/ Ai se eu pudesse estaria no altar/ És a rainha dos meus sonhos, és a luz/ És malandrinha, não precisas trabalhar”). Quando Dercy ouviu essa canção, ainda era a menina Dolores Gonçalves Costa e nem sonhava em se tornar um dos mitos do teatro brasileiro.



“Inaugurei o escracho no teatro brasileiro”
Dercy Gonçalves



DERCY DE VERDADE
Microssérie em quatro capítulos. De hoje a sexta, às 23h30, na TV Globo.

DERCY DE CABO A RABO
Edição revista e ampliada de Maria Adelaide Amaral. Editora Globo, 320 páginas.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Adeus a Sérgio Britto


Sérgio Maggio

Publicação: 18/12/2011 09:12 Atualização:

O ator na peça As pequenas raposas, em 2005 (Adauto Cruz/CB/D.A.Press)
O ator na peça As pequenas raposas, em 2005


Rio de Janeiro —
Nunca tinha ouvido tantas palmas se desdobrarem como uma melodia sem fim. A onda de energia tomava o Teatro Sesc Anchieta (São Paulo) como uma tradução de amor explícito. O palco já estava vazio. Há um minuto, Sérgio Britto tinha dado vida ao frágil Alberto, da peça Recordar é viver, de Eduardo Tolentino. O aplauso sem fim continuava, aumentava, pedia para que ele voltasse. Um dos maiores intérpretes do teatro brasileiro retornava, curvava-se e agradecia, com voz trêmula, o carinho infindável. “Desculpe, não lhe dar muita atenção. Você viu o que aconteceu ao fim? Quantas palmas? Estou muito emocionado. Nem falaria nada, mas resolvi voltar e agradecer a esse público contagiante, obrigado!”, contou Sérgio Britto, no foyer do teatro lotado, que marcou a estreia da temporada paulista em janeiro deste ano,

Alberto foi o último personagem de Sérgio Britto. A peça toda ele passava dizendo a frase “há tempo”, numa metáfora para a vida que se escoava minuto a minuto. Era um tipo caro porque dialogava com a própria condição humana do ator, com interface intensa com a velhice, com a fragilidade do corpo físico e a luta para vencer as barreiras da idade. Na manhã de ontem, o tempo se esgotou. Sérgio Britto não conseguiu sair de mais uma internação. Morreu aos 88 anos de insuficiência respiratória e deixou um legado espantoso à cultura brasileira. Ele estava internado há cerca de um mês, por conta de problemas cardiorrespiratórios.

Admiradores lotam a Assembleia Legislativa do Rio (Pedro Kirilos/Agência O Globo)
Admiradores lotam a Assembleia Legislativa do Rio


Pelo seu corpo, passaram dos tipos clássicos de Shakespeare aos suburbanos de Nelson Rodrigues. Não deixou de experimentar dramaturgias. Um dos grandes feitos contemporâneos foi a montagem de peças curtas de Samuel Beckett, no qual explorava a fragilidade do ser humano, correndo seminu e cambaleante no palco. “Por dentro, eu estou tinindo, estou forte como um rapaz cheio de tesão”, disse na época em que esteve com a peça em Brasília.

Formado em medicina, Sérgio Britto descobriu a vocação pelas mãos de Ester Leão, uma das primeiras mulheres a assumir a função de direção de ator no país. No Teatro Universitário, iniciou-se pelas palavras do clássico Romeu e Julieta, de Shakespeare. Depois, encaminhou-se para o Teatro do Estudante do Brasil, de Paschoal Carlos Magno. Ali viveu Horácio, na antológica montagem de Hamlet, que consagrou o talento de Sergio Cardoso. “Cada um precisa descobrir a sua paixão. A minha veio dos palcos.”

 (Arquivo CB/D.A.Press)


Tudo acontecia tão rapidamente que parecia não ter volta. Sergio olhava a medicina com distância e o teatro como urgência, o que levou a fundar companhias históricas, que ajudaram a modernizar o fazer teatro no Brasil, como o Teatro dos Sete, na companhia de Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Ítalo Rossi, Gianni Rato. Eles foram responsáveis por alguns feitos, como a primeira montagem de Beijo no asfalto, polêmico texto de Nelson Rodrigues, que resultou numa tumultuada temporada em 1961, com direito a protestos e gritos moralistas em plena sessão.

Evolução
Ator de composição, que se descobriu com essa capacidade na labuta de fazer teleteatro ao vivo na TV Tupi, Sérgio Britto sabia como poucos criar um RG para cada personagem que erguia no palco. Foram muitos e, por meio deles, é possível contar a evolução do teatro brasileiro. “A gente saía correndo do teatro e ia para o estúdio de tevê ensaiar e gravar o teleteatro de madrugada. Foi uma escola sem precedente que experimentei.”

Com essa formação intensa nos anos 1950 e 1960, Sérgio Britto desempenha, nas próximas décadas, um papel fundamental na consolidação do teatro de ator. Funda sua própria produtora e escolhe a dedo os personagens e as peças que ele deseja representar. Não é mais uma. Cada uma era única, em sua entrega absoluta e sacra ao palco. Foi assim, em 1974, com Os autos sacramentais, de Calderón de la Barca. Com produção de Ruth Escobar, Sérgio Britto surge nu em cena aos 51 anos, numa montagem que foi proibida pela ditadura brasileira, mas percorreu o mundo por seis meses, do Irã à Europa.

Inquieto, desdobra-se como ator, diretor, produtor e ativista cultural. É um dos fundadores da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e assume o papel de primeiro diretor artístico do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, em 1989. Consumidor voraz de cultural, apresentava um dos melhores programas do gênero na TV Brasil, A arte de Sérgio Britto, no qual compartilhava semanalmente o gosto por cinema, teatro, ópera, leitura e viagens. Nos bastidores, era o xodó das camareiras. Ano passado, lançou uma autobiografia, O teatro e eu, que venceu este ano o Prêmio Jabuti. O livro tem um texto picante, sincero, confessional e revelador dos bastidores da vida de um ator devotado. Ali se aprendem muitas lições. Uma delas como viver com 80 e muitos anos. Seu corpo será enterrado hoje no Cemitério do Caju.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um poema para Dina Sfat

Público se emocionou em homenagem a Dina Sfat no Mitos do Teatro Brasileiro

Mariana Moreira

Publicação: 24/11/2011 09:51 Atualização:

 (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )

A emoção, as imagens, a presença cênica, a humanidade, as ideias. Num mosaico composto por teatro, vídeos e depoimentos, a atriz Dina Sfat foi evocada em sua inteireza, durante o encerramento do projeto Mitos do Teatro Brasileiro, na noite da última terça-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Sua força feminina, artística e política estava por toda parte: na areia e no pôr do sol do deserto, origem de sua família, levados ao palco em uma das cenas. Nas inúmeras fotos projetadas, que derramaram sobre o público seus olhos grandes e expressivos. Na voz dos colegas Maria Alice Vergueiro e Ednei Giovenazzi, que reviraram seus baús de recordações ao lado da amiga e colega de ofício.

O primeiro ato da exaltação à atriz foi o miniespetáculo Arena conta Dina Sfat, biografia teatralizada com base no método curinga, criado por Augusto Boal. Algumas pessoas da plateia foram colocadas no palco e sorteavam a ordem das cenas, escritas pelo diretor-dramaturgo Sérgio Maggio e interpretadas por J. Abreu e Juliana Drummond. Durante 35 minutos, fizeram um passeio por fatos marcantes de sua trajetória.

No princípio, havia a força das mulheres da família Kutner. (Sua avó, vinda de Sfat, cidade israelense conhecida como centro artístico e berço da cabala, sempre dizia: “Goza, minha filha. Goza e aproveite tudo o que puder”). Outros fragmentos relembraram o encontro com o marido, o ator Paulo José, e o mergulho no teatro politizante do Arena (a atriz chegou a participar de uma temporada de Eles não usam black-tie. No início, ela não era politizada, mas adorava ser porta-voz daquelas ideias). Seu enfrentamento à ditadura ganhou um capítulo especial. Durante a participação em um programa de televisão, teve um confronto velado com um general. Enquanto ele se vangloriava do regime ditatorial, a atriz reagia silenciosamente, com as expressões faciais. Ao ser questionada pelo militar se teria alguma pergunta para ele, respondeu: “Tenho medo de generais.”

O desabafo da pantera
Em sua fala, a atriz Maria Alice Vergueiro emocionou-se e tocou a plateia, ao traçar um paralelo entre a sua trajetória e a da amiga. Separada, com filhos pequenos, vinda da alta sociedade, a musa do Tapa na pantera sequer sabia se queria mesmo ser atriz. Tímida e desajeitada no ambiente masculino do Arena, sentia-se rejeitada por seus pares. Dina, percebendo sua fragilidade, a acolheu e aconselhou: “Bota pra quebrar”. “Hoje, entendo bem o caminho que ela me indicou e é um prazer estar aqui com ela comemorando essa luta da mulher. Dina misturou a família, pulou no palco e botou pra quebrar”, reconhece.

Ednei Giovenazzi (E) e Maria Alice Vergueiro emocionaram-se ao falar de Dina, enquanto Juliana Drummond e J. Abreu encenaram a biografia da atriz (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
Ednei Giovenazzi (E) e Maria Alice Vergueiro emocionaram-se ao falar de Dina, enquanto Juliana Drummond e J. Abreu encenaram a biografia da atriz
Surpreso com o teor da homenagem, Ednei Giovenazzi, colega da atriz em inúmeras novelas e montagens teatrais (como o clássico Hedda Gabler, que teve um trecho encenado) selecionou fatos históricos, mas decidiu dar um tom emocional à sua fala. Recordou a primeira vez em que a viu no palco, com o frescor de uma iniciante. “Quando vemos um ator pela primeira vez, temos a sensação de que ele está atuando como se fosse a sua estreia. Ela tinha uma espontaneidade física, gestos expressivos, nunca era demais ou de menos”, relata.

A aproximação dos dois se deu quando ela o convidou para o papel de mocinho em Hedda Gabler. Mas, nos ensaios, o ator sentia que não alcançava o tom e as expectativas da colega. Durante a temporada, alimentou uma certa insegurança, que só se dissipou na última sessão da peça, em Fortaleza. Na cena em que deveria lhe entregar uma arma, a atriz aproximou-se de seu rosto e lhe roçou os lábios suavemente. “Ali, nossa amizade estava selada para sempre. Foi o momento mais feliz da minha vida em cena”, reconhece.


O LADO MAMÃE
» As entrevistas em vídeo também completaram o relicário afetivo em torno de Dina. O cantor Milton Nascimento, fã confesso de teatro, teve a oportunidade de contracenar com ela no filme Os deuses e os mortos, de Ruy Guerra. “Ela fez o papel de uma louca, mas que dizia coisas muito sérias. Era uma atriz completamente divina”, conta ele, que se inspirou na musa para compor a canção Cravo e canela. Antônio Gilberto, que trabalhou durante anos com a atriz e é autor da biografia Dina Sfat: retratos de uma guerreira, montou uma exposição com retratos dela. Uma das curiosidades da noite foi a exibição de um vídeo da estrela, ao lado da cantora Elis Regina e da atriz Regina Duarte. As três brincam com os filhos, ainda bebês, enquanto interpretam o poema Enjoadinho, de Vinicius de Moraes (“Filhos, melhor não tê-los. Mas se não os temos, como sabê-lo?”).

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Musa Guerreira


Dina no papel de Heloísa de Lesbos, em O rei da vela, montagem do Oficina de 1966 que modernizou o teatro

Dina Sfat é homenageada na última edição do projeto Mitos do Teatro Brasileiro

Mariana Moreira


Durante uma entrevista, ela se comparou à sabra, fruto de cacto comum em Israel: espinhosa e angulosa por fora, doce de enjoar por dentro da casca. Autoanálises à parte, Dina Sfat carregou consigo esse traço de mulher do deserto, que vira a vida do avesso. De família judia, nascida em São Paulo, ela rompeu com as expectativas ao trilhar caminhos inesperados. Deixou a tradição de lado para tornar-se uma das atrizes mais admiradas e carismáticas do Brasil, além de artista com forte verve intelectual, engajada nas causas pertinentes a seu tempo e com senso de cidadania. Essa história tortuosa foi escolhida para encerrar o projeto Mitos do Teatro Brasileiro nesta terça-feira (22/11), às 20h, no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com entrada franca.

“É importante incluí-la entre os mitos do teatro, porque a maioria das pessoas a associa às novelas”, destaca J. Abreu, ator e codiretor do projeto. As participações televisivas foram profícuas, mas a dedicação ao teatro não ficou atrás. Ao longo da carreira, a atriz dedicou-se a clássicos da dramaturgia, como Mandrágora, de Maquiavel, Santo Inquérito, de Dias Gomes, e o grande sucesso Hedda Gabler, de Henrik Ibsen, além de integrar o elenco das duas maiores companhias de referência do teatro moderno no Brasil (Arena e Oficina).

No cinema, uma de suas personagens foi Cy, de Macunaíma, filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade com base na obra de Mario de Andrade. Tamanha versatilidade e capacidade de se desdobrar em vários papéis foi definida pela atriz Renata Sorrah como um “star system”: ela conseguia atuar com maestria na tevê, no cinema e nos palcos. Dina Sfat morreu em março de 1989, em consequência de um câncer de mama. Tinha 50 anos.

Seguindo a dinâmica estabelecida nas homenagens anteriores, a noite terá a presença de convidados e projeções de material de arquivo, além de atores da cidade (J. Abreu e Juliana Drummond) em cenas inéditas inspiradas na vida de Dina, escritas pelo jornalista e dramaturgo Sérgio Maggio. Os amigos a prestar tributo à atriz nesta edição são Maria Alice Vergueiro e Ednei Giovenazzi.

Colega de Dina em novelas e nos palcos, Giovenazzi se encantou com a beleza, personalidade e força daquela novata nos palcos. “Ela tinha um espírito revolucionário. Fiquei chapado. Suas técnicas gestual, vocal e sua medida eram perfeitas”, elogia ele, admitindo que atores não têm o hábito de enaltecer o trabalho dos colegas. “Quando recebi o convite para ir a Brasília, vi a oportunidade de dizer todas as coisas que não disse a ela em vida”, afirma.

Giovenazzi se encantava com a performance da atriz na novela Selva de pedra, em que contracenaram. “A minha personagem protegia a da Regina Duarte, e a dela maltratava. E como maltratava, com aquele olhar fulminante. Eu era artisticamente apaixonado por Dina”, revela.

Nos tempos de Teatro de Arena, a atriz aproximou-se de Maria Alice Vergueiro, outra diva do teatro, que esteve recentemente na cidade, com a peça As três velhas, e ressurgiu para o grande público com o vídeo Tapa na pantera, sucesso na internet. “Ela tinha uma personalidade interessante. Não era dada a muito sectarismo, numa fase em que a cabeça da moçada era radical. Era, antes de tudo, uma artista, tinha muito talento e cantava muito bem”, elogia Maria Alice.

Enquanto Maria Alice se sentia tímida, cheia de pudores, a amiga era mais livre. “Ela era mais Leila Diniz”, brinca. As afinidades entre as duas extrapolaram o espaço cênico. “Às vezes, uma atriz é correta, faz tudo direitinho, mas sem aquele brilho. Em Arena conta Tiradentes e Arena conta Zumbi, ela brilhava em cena”, destaca.

Arena conta
Inspirados nessas obras do dramaturgo Augusto Boal (outro homenageado do projeto), Sérgio Maggio e J. Abreu criaram uma versão da montagem para compartilhar com o público passagens importantes da biografia da atriz. Arena conta Dina Sfat será um miniespetáculo, com duração aproximada de meia hora, e seis esquetes. O público, convidado a formar uma semiarena no palco, escolherá a ordem das cenas, que contam um pouco de tudo: a carreira, o casamento com o ator Paulo José (eles tiveram três filhas, Isabel, Ana e Clara), o feminismo, o enfrentamento à ditadura, a luta pela legalização do aborto.

As cenas seguintes trarão o diálogo da atriz com um crítico teatral, nos bastidores de Hedda Gabler, e ainda uma sequência em que seus pensamentos de natureza artística, política e pessoal serão pendurados em uma árvore. Na pele de Dina, estará a atriz Juliana Drummond. “Ela fez essa fusão entre a atriz e a mulher cidadã para falar sobre questões importantes. É uma honra ser canal e instrumento para essa homenagem”, reconhece ela.

A menina judia, que começou a vida profissional em um laboratório de análises clínicas — e, no auge da fama, desistiu do horário nobre para se dedicar à ribalta — também será lembrada em vídeos. Um deles, raridade, mostra Dina mocinha, em um programa de tevê. “Ela começou querendo ser atriz famosa, nos moldes de Hollywood. Mas, no Teatro de Arena, incorporou o discurso de que o papel do artista é também social, e isso mudou sua vida”, frisa J. Abreu. Vida que, com a ousadia do talento e a solidez do solo desértico, Dina Sfat virou do avesso.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Dina Sfat, atriz-cidadã


Analisando a trajetória da intérprete Dina Sfat, comenta o crítico Alberto Guzik: "Apaixonada e coerente, não poucas vezes Dina viu declarações suas transformadas em berços de polêmica. Mas sempre teve a coragem de sustentar suas idéias francamente e nunca se fechou ao diálogo. Quanto a seu trabalho em cena, embora fosse uma intérprete de bons recursos cênicos, voz trabalhada e evidente perícia na composição de caracteres, o que a destacava era a paixão. A vibração de sua presença, a imperiosa honestidade com que desenhava suas atuações, valeram-lhe uma posição de destaque, que a atriz manteve sempre com enorme dignidade".1